A IA saiu da pauta futura quando a empresa começou a medir o trabalho real

A sequência de pesquisas, regras e decisões mostra por que tecnologia só vira estratégia quando alguém assume a responsabilidade pelo resultado

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A IA saiu da pauta futura quando a empresa começou a medir o trabalho real

Uma empresa que trata inteligência artificial como assunto de congresso pode estar olhando para o lugar errado. Em 2024, 41,9% das indústrias brasileiras com 100 ou mais pessoas empregadas já usavam IA, segundo o IBGE. A mesma pesquisa mostra que a tecnologia estava presente em 87,9% das áreas administrativas dessas empresas, em 75,2% das áreas comerciais e em 73,1% dos setores de desenvolvimento de produtos, processos e serviços. O dado muda a pergunta para o dono de negócio: a discussão deixou de ser se a ferramenta chegará. Passou a ser quem vai decidir onde ela entra, qual risco será aceito e que resultado precisa aparecer.

Essa mudança ajuda a ler a quinta edição do Exponential Summit, realizada em 2026 em Ibiúna, São Paulo. O evento reuniu 150 lideranças corporativas por três dias para discutir inteligência artificial, gestão agêntica, varejo, longevidade e medicamentos à base de GLP-1. O número é pequeno diante do tamanho do mercado, mas a escolha revela uma tese: para Bruno Padredi, CEO da B2B Match e responsável pelo encontro, a alta liderança precisa interromper a rotina para transformar tendência em decisão.

A linha do tempo começa antes do evento. Ela mostra como a adoção tecnológica ganhou escala, como a regulação entrou na conversa e por que o resultado ainda está em aberto dentro de cada empresa.

2022 marcou o ponto em que a IA ainda parecia distante da operação

O levantamento do IBGE permite voltar a 2022 e encontrar uma fotografia diferente. Naquele ano, 16,9% das 10.167 empresas industriais pesquisadas usavam inteligência artificial. O percentual era menor que o de computação em nuvem, Internet das Coisas e outras tecnologias digitais analisadas pelo instituto.

Dois anos depois, a distância foi reduzida. A parcela de empresas que usavam IA chegou a 41,9%, aumento de 25 pontos percentuais. Em números absolutos, isso corresponde a cerca de 4.259 das 10.167 empresas incluídas na pesquisa, cálculo feito a partir da base e do percentual publicados pelo próprio IBGE. Não significa que toda indústria brasileira tenha adotado a tecnologia. O recorte contempla empresas de mineração e transformação com 100 ou mais empregados. Ainda assim, ele mede um grupo grande o suficiente para mostrar a velocidade da mudança em operações estruturadas.

A estatística também corrige uma leitura comum sobre o tema. A IA não apareceu primeiro em uma sala de inovação isolada. A maior utilização ocorreu na administração, com 87,9%, seguida da comercialização, com 75,2%. O uso em produção ficou em 52%. A ferramenta entrou onde há volume de informação, tarefas repetitivas e decisões que dependem de classificação, previsão ou comparação.

O resultado prático para uma empresa menor é direto. O dono não precisa copiar uma indústria nem comprar uma plataforma complexa. Precisa identificar uma tarefa que consome tempo, registrar como ela é executada hoje e saber qual indicador mostraria melhora. Sem essa sequência, a conversa sobre IA fica presa ao nome da ferramenta.

Em 2024, a adoção avançou mais rápido que a preparação da produção

A edição 2024 da Pesquisa Semestral de Inovação, divulgada pelo IBGE em setembro de 2025, mostrou que 89,1% das empresas analisadas usavam pelo menos uma tecnologia digital avançada. O grupo incluía análise de big data, computação em nuvem, inteligência artificial, Internet das Coisas, manufatura aditiva e robótica.

A comparação entre IA e computação em nuvem é útil. A nuvem alcançou 77,2% das empresas, enquanto a IA chegou a 41,9%. A diferença é de 35,3 pontos percentuais. A conta indica que infraestrutura e aplicação inteligente não avançam no mesmo ritmo. Muitas empresas já armazenam e processam dados em serviços digitais, mas ainda não transformaram essa base em automação ou apoio à decisão.

O próprio levantamento apresenta uma pista sobre o ganho percebido. Entre os benefícios das tecnologias avançadas, 90,3% das empresas citaram aumento de eficiência e 89,5% apontaram mais flexibilidade na administração, na produção e na organização dos processos. O benefício descrito é operacional, não futurista. A empresa ganha quando reduz tempo, melhora a organização ou consegue reagir com mais flexibilidade.

Há também um limite relevante. Na produção, o uso de IA caiu de 56,4% em 2022 para 52% em 2024, mesmo com o crescimento geral da tecnologia. Isso impede uma conclusão fácil de que mais IA significa automaticamente mais eficiência em toda área. O efeito depende da tarefa, dos dados disponíveis, da qualidade do processo e da capacidade de supervisão.

Em uma loja, mulher aponta para mural enquanto colega faz anotações e outra embala produtos.

Em 2025, governança passou a ser uma decisão de negócio

Quando a adoção cresce, a pergunta sobre responsabilidade deixa de ser exclusiva do setor de tecnologia. O Projeto de Lei 6.237 de 2025, disponível no site do Planalto, propôs instituir o Sistema Nacional para Desenvolvimento, Regulação e Governança de Inteligência Artificial. O texto prevê coordenação entre órgãos, atuação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados em situações definidas e regras específicas para aplicações de alto risco.

O projeto ainda é uma proposta, não uma obrigação geral já aplicada a todas as empresas. Mesmo assim, ele mostra o tipo de problema que entrou na agenda institucional: quem fiscaliza, quem responde por uma decisão automatizada e como diferenciar uma aplicação de baixo risco de outra capaz de afetar pessoas de forma grave.

Esse movimento combina com a avaliação de Bruno Padredi na entrevista publicada pela Startupi sobre o Exponential Summit. Para ele, o CEO não precisa ser especialista técnico em inteligência artificial. Precisa compreender o suficiente para fazer perguntas, reconhecer oportunidades, identificar riscos e chamar especialistas quando necessário. A frase ganha peso quando confrontada com os números do IBGE: se a IA já está em áreas administrativas e comerciais, a decisão sobre seus efeitos não pode ficar escondida em uma equipe técnica.

Padredi também apontou uma contradição: empresas discutem agentes autônomos sem revisar processos básicos de segurança, governança e responsabilidade. O ponto não depende de acreditar ou desacreditar no evento. Ele pode ser verificado na rotina. Uma empresa que não sabe quais dados alimentam uma automação, quem aprova a saída e como corrigir um erro ainda não tem uma gestão agêntica pronta. Tem uma ferramenta em teste.

A segurança digital é parte dessa conta. O IBGE registrou que 85,7% das empresas pesquisadas adotaram alguma medida de proteção das informações digitais em 2024. O percentual é alto, mas não responde sozinho se cada processo novo tem acesso limitado, registro de uso e responsável definido. Governança exige transformar a proteção genérica em regra para cada aplicação.

Em 2025, o debate sobre pequenos negócios ganhou uma porta de entrada mais concreta

Os dados do IBGE vêm de empresas com 100 ou mais empregados, portanto não descrevem diretamente a micro e pequena empresa. O Sebrae do Rio de Janeiro publicou um guia de ferramentas de inteligência artificial voltado às MPEs, com orientações sobre automação de tarefas, análise de dados, produção de conteúdo, atendimento e cuidados para uso responsável.

O material não apresenta a IA como substituta do dono. Ele organiza a entrada por tarefas acessíveis, como responder perguntas frequentes, organizar informações, apoiar a criação de textos e analisar dados de vendas. Essa abordagem é mais compatível com a realidade de negócios pequenos, nos quais a mesma pessoa pode vender, comprar, atender e cuidar do caixa.

A diferença entre o discurso corporativo e a aplicação prática aparece nesse ponto. No summit, lideranças discutiram agentes autônomos e mudanças de comportamento. No pequeno negócio, a primeira decisão pode ser limitar a ferramenta a uma etapa do atendimento, com revisão humana e registro do tempo gasto antes e depois. A escala é outra, mas o princípio é igual: a tecnologia precisa estar ligada a uma tarefa mensurável.

Uma conta simples ajuda a dimensionar o problema. O IBGE informa que 41,9% das 10.167 empresas pesquisadas usavam IA em 2024. Isso representa aproximadamente 4.259 empresas. A parcela que não usava era de 58,1%, cerca de 5.908 empresas. A diferença entre os dois grupos mostra que a adoção avançou, mas ainda não virou padrão universal nem autoriza tratar a resistência como atraso individual. Há empresas que ainda precisam organizar dados, processos e segurança antes de automatizar.

Em 2026, o Exponential Summit trocou a previsão por uma cobrança sobre a liderança

A quinta edição do Exponential Summit foi estruturada em torno do tema “Liderando a Transformação”. Segundo a reportagem da Startupi, os 150 participantes ficaram três dias em Ibiúna, com uma programação sobre maturidade da IA, gestão agêntica, economia da experiência, futuro do varejo, GLP-1 e longevidade. Christian Gebara, da Vivo, Luis Justo, do Rock in Rio, Nathália Brandão, do TikTok, e Nathalia Bassetti, da WGSN, estavam entre os nomes divulgados na grade.

O formato fechado é o ponto mais controverso do encontro. Padredi disse que a exclusividade pretende criar tempo para discussões profundas, longe da pressão de reuniões consecutivas. Também reconheceu que o modelo só faz sentido se as decisões retornarem à sociedade por meio das empresas, alcançando colaboradores, consumidores, fornecedores e comunidades.

Essa condição é o teste real do evento. Um encontro pode produzir boas conversas e ainda não mudar uma operação. Para demonstrar efeito, a liderança teria de registrar que processo foi alterado, qual equipe recebeu uma nova responsabilidade, que risco passou a ser monitorado e qual indicador mudou. Sem esse registro, “transformação” descreve uma intenção, não um resultado.

O programa também colocou GLP-1 e longevidade na mesma conversa que varejo e consumo. A Anvisa informa que medicamentos agonistas de GLP-1, como semaglutida, liraglutida, tirzepatida e outros da classe, estão sujeitos à venda com retenção da receita desde abril de 2025. A regra mostra por que uma tendência médica não pode ser tratada apenas como oportunidade de marketing. Ela envolve indicação aprovada, segurança, prescrição e fiscalização.

Na entrevista, Padredi argumentou que as chamadas canetas emagrecedoras podem alterar alimentação, varejo, fitness, beleza, seguros e entretenimento. A hipótese é plausível como agenda de observação, mas cada setor precisa testar o efeito com dados próprios. O dono de uma empresa não sabe se uma tendência chegou ao seu negócio porque viu uma palestra. Sabe quando a procura, a recompra, a margem ou o perfil dos clientes muda.

O que ainda está em aberto depende do indicador escolhido

A sequência dos dados deixa uma conclusão mais útil que a promessa de futuro. A IA avançou de 16,9% para 41,9% entre as empresas industriais pesquisadas pelo IBGE. A nuvem chegou a 77,2%. O debate regulatório ganhou um projeto de sistema nacional. Pequenos negócios receberam um roteiro de entrada por tarefas. Um summit reuniu 150 executivos para discutir como transformar essas mudanças em decisões.

Nada disso prova que uma empresa específica ganhou produtividade, receita ou segurança. Também não prova que o formato do evento produziu mudanças fora da sala. Essas perguntas permanecem abertas e precisam de acompanhamento depois da novidade.

Na segunda-feira, o dono de negócio pode escolher uma única tarefa repetitiva, medir o tempo e a taxa de erro durante uma semana, definir quem revisa a saída da ferramenta e anotar o resultado antes de ampliar o uso. Se a tarefa não tiver indicador, ainda não está pronta para automação. Se o indicador melhorar, a empresa terá um caso próprio para decidir o próximo passo.

A pergunta final é objetiva: qual atividade do seu negócio mudou de volume, tempo ou erro nos últimos seis meses e tem dados suficientes para ser comparada? A resposta, escrita com uma tarefa e um número real, vale mais que uma previsão sobre o futuro.

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