Interrupção de Ormuz pode ter impacto duradouro nas economias vulneráveis, diz ONU
A UNCTAD apontou que os sistemas de alimentos e transporte marítimo levarão mais tempo para se recuperar do que os mercados de energia, mantendo 61 países vulneráveis expostos à alta de custos The post Interrupção de Ormuz pode ter impacto duradouro nas economias vulneráveis, diz
Interrupção de Ormuz pode ter impacto duradouro em 61 economias, diz ONU
A interrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, pode ter impacto econômico duradouro em 61 países classificados como vulneráveis, segundo relatório da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) publicado nesta segunda-feira.
O documento alerta que os sistemas de alimentos e transporte marítimo levarão mais tempo para se recuperar do que os mercados de energia, mantendo os países expostos à alta de custos de importação por até 24 meses após a reabertura.
Segundo a InfoMoney: UNCTAD aponta 61 economias vulneráveis à interrupção de Ormuz, a UNCTAD estima que a alta de fretes e seguros pode adicionar 18% ao custo de importações para os países mais dependentes da rota.
O Estreito de Ormuz é o ponto de passagem marítima mais estratégico do mundo, conectando o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Por ele passam 21% do petróleo global e 30% do GNL (gás natural liquefeito) do mundo.
A interrupção no tráfego reduziu em 65% o volume de petróleo transportado pela rota nas últimas três semanas, com impacto direto nos preços de combustível, fertilizantes e alimentos nos países importadores. A alta do barril de petróleo Brent para US$ 118 reflete o ajuste do mercado à nova realidade.
Para o Brasil, o impacto é moderado. O país é exportador líquido de petróleo e tem matriz energética baseada em hidrelétricas, o que reduz a exposição direta à alta do petróleo. Mas o efeito indireto é relevante: alta de fertilizantes (cuja produção depende de gás natural) e alta de frete marítimo para produtos importados pressionam o custo de vida.
Segundo a Banco Central: impacto da crise de Ormuz no Brasil é moderado em 2026, o Banco Central avalia que o impacto no Brasil é moderado, com inflação adicional de 0,3 a 0,6 ponto percentual no acumulado de 12 meses.
Quais são os 61 países classificados como vulneráveis?
Os 61 países vulneráveis listados pela UNCTAD são, em sua maioria, economias em desenvolvimento com alta dependência de importações de petróleo, alimentos e fertilizantes.
A lista inclui 24 países africanos (entre eles Sudão, Mali, Burkina Faso, Níger, Etiópia e Madagascar), 18 países asiáticos (entre eles Iêmen, Bangladesh, Camboja, Nepal e Sri Lanka) e 12 países do Oriente Médio e Norte da África (entre eles Jordânia, Líbano, Tunísia e Marrocos).
Também estão na lista 5 países da América Latina e Caribe (Haiti, Honduras, Nicarágua, Guatemala e Bolívia) e 2 países da Europa (Moldávia e Macedônia do Norte).
O critério de vulnerabilidade combina 4 fatores: dependência de importações de energia (mais de 50% do consumo), dependência de importações de alimentos (mais de 30% do consumo), exposição ao frete marítimo pelo Estreito de Ormuz e baixa capacidade de resposta fiscal.
Segundo a UNCTAD: critério de vulnerabilidade combina 4 fatores em 2026, a maioria dos países listados tem PIB per capita abaixo de US$ 5 mil e reservas internacionais inferiores a 3 meses de importações.
Para esses países, a interrupção de Ormuz não é apenas uma alta de preços temporária, mas uma crise estrutural que pode levar à inflação de alimentos, instabilidade social e crises cambiais. O Iêmen, que importa 90% dos alimentos e 100% do petróleo, é o país mais vulnerável da lista.
A inflação de alimentos no Iêmen pode chegar a 240% nos próximos 12 meses, segundo projeções do Banco Mundial. Em Bangladesh, a inflação de alimentos pode chegar a 38%, afetando 170 milhões de pessoas.

Por que o impacto nos alimentos é mais duradouro que no petróleo?
O mercado de petróleo é líquido, com estoques em diversos países e capacidade de produção em várias regiões. Quando a oferta global cai, o preço sobe, mas a oferta se ajusta em 3 a 6 meses via aumento de produção em outros países (EUA, Canadá, Brasil, África).
O mercado de alimentos é menos flexível: a produção agrícola leva 6 a 12 meses para se ajustar, e o transporte marítimo tem capacidade limitada. A alta de frete, somada à alta de fertilizantes (cujas fábricas dependem de gás natural do Oriente Médio), mantém o custo de alimentos elevado por mais tempo.
Segundo a FAO: alta de alimentos por Ormuz pode durar 18 a 24 meses, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estima que a alta de alimentos por causa de Ormuz pode durar entre 18 e 24 meses. A entidade alerta que países com alta dependência de trigo importado do Mar Negro e do Mar Cáspio podem ter inflação de alimentos entre 30% e 90% no acumulado de 12 meses.
Para o consumidor brasileiro, o efeito é indireto. O Brasil é grande exportador de alimentos, e a alta de commodities agrícolas é positiva para o agronegócio. Mas o consumidor paga mais caro por trigo (90% importado da Argentina), fertilizantes (75% importados) e combustíveis.
O impacto direto no bolso é de R$ 35 a R$ 85 por mês em uma família de classe média, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).
Como os países podem se preparar para uma nova interrupção?
A recomendação da UNCTAD é que países vulneráveis diversifiquem fontes de importação, aumentem reservas estratégicas de alimentos e petróleo, e criem linhas de crédito de emergência com bancos multilaterais.
A entidade destaca que a interrupção de Ormuz não é um caso isolado, mas um sinal de que rotas marítimas estratégicas estão mais vulneráveis a conflitos geopolíticos. A adaptação passa por diversificação de fornecedores, aumento de produção doméstica e construção de estoques reguladores.
Para países com alta dependência da rota, a recomendação é negociar contratos de longo prazo com fornecedores alternativos (Rússia, EUA, Brasil) e investir em infraestrutura portuária e armazenagem.
A Jordânia, por exemplo, fechou em 2025 contrato de 10 anos com a Petrobras para fornecimento de petróleo, reduzindo sua dependência do Golfo Pérsico. A medida custou US$ 2,1 bilhões em subsídio, mas reduziu a vulnerabilidade em 40%.
Segundo o Banco Mundial: Banco Mundial tem US$ 18 bilhões em linhas emergenciais para 2026, o Banco Mundial disponibilizou US$ 18 bilhões em linhas emergenciais para 2026, voltadas a países vulneráveis a choques de preço de energia e alimentos.
O valor pode ser acessado por países elegíveis em até 30 dias após declaração de crise. A medida visa dar fôlego fiscal para que países importadores comprem alimentos e petróleo sem desabar o câmbio.
| Categoria de país | Número | Exemplos | Impacto estimado (inflação 12m) |
|---|---|---|---|
| África Subsaariana | 24 | Sudão, Mali, Burkina Faso | 40% a 90% |
| Ásia | 18 | Bangladesh, Camboja, Nepal | 20% a 50% |
| Oriente Médio e Norte da África | 12 | Jordânia, Líbano, Tunísia | 15% a 40% |
| América Latina e Caribe | 5 | Haiti, Honduras, Bolívia | 8% a 20% |
| Europa | 2 | Moldávia, Macedônia do Norte | 5% a 12% |
Quais são os erros mais comuns na gestão de crise de oferta de alimentos e energia?
O primeiro erro é não manter reserva estratégica. Países sem reserva de alimentos e petróleo entram em colapso de preços em 30 a 60 dias após a interrupção. O segundo erro é subsidiar indiscriminadamente o consumo. Subsídio de combustível e trigo sem focalização gera gasto fiscal insustentável e não chega aos mais vulneráveis.
- Não manter reserva estratégica de alimentos (90 dias mínimo)
- Subsidiar combustível sem focalização (beneficia classe alta)
- Não diversificar fornecedores (dependência de 1 país)
- Congelar preços sem compensar produtores (escassez em 90 dias)
- Ignorar impacto em fertilizantes (próxima safra comprometida)
- Não ativar linhas emergenciais do Banco Mundial (perda de tempo)
Para o Brasil, a recomendação é manter a política de estoques reguladores da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), que tem capacidade para 6 meses de consumo de arroz, milho e trigo.
A reserva é administrada por Aquisições do Governo Federal (AGF) e Contratos de Opção de Venda (COV), mecanismos que permitem ao governo comprar excedente em safra abundante e vender em safra escassa. A política evitou crises em 2008 (crise financeira global), 2020 (pandemia) e 2022 (guerra na Ucrânia).
Qual é a perspectiva para os próximos meses?
A interrupção de Ormuz, que começou há três semanas, tende a se estender por mais 2 a 3 meses segundo a UNCTAD. O cessar-fogo negociado pela ONU está em fase de implementação, mas a normalização do tráfego marítimo depende de garantias de segurança para os navios-tanque.
A expectativa é que o volume de petróleo transportado pela rota volte a 80% do normal em 90 dias, e 100% em 180 dias. Até lá, os preços do petróleo devem se manter acima de US$ 100 por barril.
Para o consumidor brasileiro, a perspectiva é de inflação adicional de 0,3 a 0,6 ponto percentual no acumulado de 12 meses, segundo o Banco Central. O impacto é mais sentido em combustível (gasolina e diesel) e alimentos dependentes de trigo importado.
A boa notícia é que o Brasil é exportador de petróleo, e a Petrobras pode aumentar a produção para aproveitar o preço alto, o que traz receita extra para o governo em royalties e participações especiais.
Segundo a EIA: EIA projeta normalização de Ormuz em 6 meses em 2026, a Energy Information Administration dos EUA projeta que o fluxo de Ormuz se normalize em 6 meses, com volume de petróleo recuperando 100% do nível pré-crise.
A alta de preços de petróleo deve recuar para US$ 85 a US$ 90 por barril no segundo semestre de 2027. A normalização depende de cessar-fogo duradouro e da retirada de minas marítimas plantadas na região.

Por onde começar se você é empreendedor ou gestor de risco no Brasil
Se você é empreendedor que depende de importação de trigo, fertilizantes ou petróleo, a medida mais prática é revisar a cadeia de suprimentos e identificar fornecedores alternativos.
Para trigo, a alternativa é a Argentina (responsável por 60% do trigo importado pelo Brasil) e o Paraguai. Para fertilizantes, Rússia e Marrocos são alternativas ao Oriente Médio. A diversificação de fornecedores reduz risco de ruptura e dá poder de negociação.
Se você é gestor de risco de empresa exportadora para a Ásia, a recomendação é fazer hedge cambial e revisar contratos de longo prazo.
A alta do dólar em relação ao real nos últimos 30 dias (de R$ 5,15 para R$ 5,48) trouxe ganho para exportadores, mas expôs a volatilidade do câmbio a eventos externos. O uso de contratos futuros na B3 e de operações de swap protege o fluxo de caixa contra oscilações abruptas.
Se você quer se manter atualizado sobre o tema, a recomendação é acompanhar relatórios da UNCTAD, do Banco Mundial, do FMI e do Banco Central do Brasil. O cenário de Ormuz continua evoluindo, e novas medidas podem ser anunciadas nas próximas semanas.
O próximo passo concreto é mapear a exposição da sua empresa ou negócio a petróleo, trigo e fertilizantes, e construir um plano de contingência para 90 a 180 dias de disrupção.
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