Como uma onda de luz se transforma em magnetismo estático em 300 femtossegundos, e o que isso muda para a próxima geração de memória que entra no caixa da sua loja
A Cornell publicou em 14 de setembro uma metassuperfície de germânio que aprisiona luz infravermelha e a converte em campo magnético persistente; a Everspin (NASDAQ: MRAM) já entrega MRAM embarcada para automação industrial, fechou em abril...
Em 14 de setembro de 2026, a Universidade Cornell publicou na Advanced Science um experimento que soa estranho em palavras simples: uma metassuperfície de germânio, iluminada por dois feixes de laser em frequências diferentes, gerou campo magnético estático por cerca de 300 femtossegundos. O número é tão curto que não cabe na intuição (um femtossegundo é um milionésimo de bilionésimo de segundo), mas a tradução em moeda de PME vem depois: a técnica mostra que dá para escrever magnetismo em material dielétrico sem ímã, sem corrente e sem metal, e isso é o caminho que a indústria de memória não-volátil está seguindo para a próxima geração de chip que entra em caixa eletrônico, terminal de pagamento e controlador de automação. A explicação está na primeira página do paper de Shivaksh Rawat, Samyobrata Mukherjee e Gennady Shvets, do Grupo Shvets, traduzida pelo site Inovação Tecnológica no mesmo dia. O que importa para o dono de negócio é entender o mecanismo em três passos verificáveis, e reconhecer o nome da tecnologia que começa a aparecer nas especificações dos equipamentos que ele compra.

O mecanismo em três passos: luz, alteração súbita do meio, magnetismo persistente
O ponto central do paper é que o magnetismo estático não vem de um ímã. Vem de uma mudança ultrarrápida nas propriedades ópticas do material por onde a luz passa. Os autores chamam essa mudança de "interface temporal". É a mesma lógica de uma onda de água que bate numa superfície e se divide em parte refletida e parte transmitida, mas agora o que muda é o tempo, não o espaço. Quando o índice de refração do meio se altera em femtossegundos, parte da energia da onda vira novas ondas com frequência deslocada, e outra parte vira energia cinética de elétrons livres em movimento circular. Esse movimento é uma corrente elétrica, e corrente elétrica é o que produz campo magnético.
O experimento da Cornell usa três elementos verificáveis. Primeiro, uma metassuperfície dielétrica, malha de blocos minúsculos de germânio sobre substrato transparente, que aprisiona luz no infravermelho médio. Segundo, um pulso curto e intenso de fótons no infravermelho próximo que arranca elétrons dos átomos de germânio, criando nuvem de cargas livres em fração de ciclo óptico. Terceiro, a interface temporal em si: a mudança no índice de refração causada por esses elétrons, que redistribui a energia da onda entre novas ondas com desvio para o vermelho e uma corrente persistente. O resultado é campo magnético que dura cerca de 300 femtossegundos nos pontos de maior intensidade, equivalente a 20 ciclos da onda que o gerou.
Por que a equipe da Cornell afirma que a técnica é "agnóstica quanto ao material"
A frase mais importante do paper é do professor Shivaksh Rawat, autor sênior: "uma das contribuições importantes do nosso trabalho é que nossa abordagem é agnóstica em relação ao material. Qualquer superfície não-metálica funcionará." A frase importa porque métodos anteriores de magnetização por luz, como o Efeito Faraday Inverso, dependiam das propriedades não-lineares do material, o que limitava a escolha de substratos. Cornell mostrou que a interface temporal funciona em dielétricos comuns, desde que a estrutura aprisione luz e gere pares elétron-lacuna em femtossegundos. Não é truque de laboratório. É uma classe de mecanismo.
Quando a MRAM (Magnetoresistive Random Access Memory) foi proposta nos anos 1990, o magnetismo vinha de uma junção túnel magnética, sanduíche de camadas metálicas ultrafinas que exige processos compatíveis com CMOS avançado e consome energia significativa para comutar. Cornell mostra que a mesma conversão de energia luminosa em magnetismo pode acontecer em material dielétrico simples, sem metal, sem processo de deposição caro. A rota está desenhada.
A conta da Everspin em 2026: 60% da MRAM embarcada e o contrato de US$ 40 milhões
O caso concreto mais próximo do leitor brasileiro vem da Everspin Technologies, listada na NASDAQ com o ticker MRAM e sediada em Chandler, Arizona. A participação da empresa no mercado de MRAM embarcada foi estimada em 60% em 2023 e em torno de 27% em volume total em 2024, segundo a Mordor Intelligence. Em abril de 2026, a Everspin assinou contrato de US$ 40 milhões com uma contratante principal dos EUA para fornecimento de Toggle MRAM destinado à base industrial de defesa do país, com qualificação AEC-Q100 Grau 1 anunciada no mesmo período. AEC-Q100 é o padrão de confiabilidade da indústria automotiva, e foi adotado em automação industrial, terminal de pagamento e controlador de PDV justamente por causa dele.
A Everspin não está sozinha. A Samsung Electronics, com cerca de 22% do mercado de MRAM em valor, anunciou em 2023 aumento de 70% na capacidade de produção e lançou módulo STT-MRAM (Spin-Transfer Torque MRAM) para data center e IA. A Avalanche Technology lançou em 2024 MRAM tolerante a radiação com retenção 70% maior em condições extremas. A Intel integra MRAM em microcontroladores selecionados, e a TSMC reportou em 2026 processo de 22 nm e 28 nm com MRAM embarcada para microcontroladores automotivos. Segundo a Mordor Intelligence, essas cinco empresas respondem por mais de 65% da oferta global em valor e mais de 80% das remessas em volume. O que vendem é o tipo de memória que sobrevive sem bateria.
Onde essa memória aparece, e por que o dono de PME vai esbarrar com ela
A MRAM tem três propriedades que interessam à automação comercial: é não-volátil (não perde dados quando falta energia); é rápida, com leitura e gravação em nanossegundos, próxima da DRAM; e tem endurance alta, com mais de 10 elevado a 15 ciclos de escrita segundo a Mordor Intelligence. Terminal de pagamento, controlador de PDV e leitor de cartão dependem, cada vez mais, de memória que não dependa de bateria para reter o estado em queda de energia ou validação offline. O HDD usa magnetismo em disco giratório, mas é lento. A NAND usa carga elétrica em célula, mas degrada. A MRAM usa magnetismo em junção sólida, sem parte móvel, sem degradação, sem bateria de backup. Por isso está entrando em automação comercial, em controlador industrial e em terminal automotivo.
A Mordor Intelligence projeta o mercado global de MRAM em US$ 4,43 bilhões em 2026, com crescimento anual composto de 32,72% até 2031, chegando a US$ 18,24 bilhões. A Future Market Insights projeta US$ 912 milhões em 2025 para US$ 4,77 bilhões em 2035, com CAGR de 18%. Os números divergem por metodologia, mas concordam em uma direção: a MRAM saiu da fase de adoção em nicho aerospacial e de defesa e está entrando em volume em IoT industrial, automotivo e edge AI. Seul alocou US$ 27 milhões em 2025 para 48 projetos de memória avançada, e a NXP liderou em novembro de 2025 rodada Série A de US$ 17,5 milhões na RAAAM Memory.
O que esse mecanismo significa para a próxima geração de equipamento que entra na loja
Em termos práticos, três pontos separam a MRAM de hoje da tecnologia que a Cornell ajudou a abrir caminho. Primeiro, a MRAM atual usa junção túnel magnética metálica; o experimento de Cornell abre a porta para a mesma conversão de energia em material dielétrico, sem metal, com processo de fabricação potencialmente mais barato. Segundo, a comutação por interface temporal é óptica, não elétrica; em vez de mandar corrente para virar o sentido do magnetismo, manda-se luz, o que pode reduzir o consumo de energia em chips densos. Terceiro, o fato de a técnica funcionar em qualquer superfície não-metálica significa que a MRAM pode ser integrada em substratos que hoje não conseguem hospedá-la, abrindo caminho para uso em silício padrão e em substratos para IoT de borda.
Para o dono de PME que vai comprar equipamento nos próximos dois anos, a recomendação prática é simples: perguntar ao fornecedor se o equipamento usa memória não-volátil baseada em MRAM, e em qual capacidade e qualificação. AEC-Q100 Grau 1 indica uso automotivo e industrial; Grau 0 indica uso em condição mais severa. Quando o fornecedor não souber responder, vale pesquisar a especificação técnica no site do fabricante, ou consultar a base de dados da Everspin para ver se o componente é da família STT-MRAM, Toggle MRAM ou PERSYST. A escolha errada de memória em terminal de pagamento que precisa reter transações em queda de energia é uma das causas de perda de dados mais comuns em PME, e o mercado brasileiro não padronizou a especificação técnica exigida na compra.
O limite do que dá para afirmar com o paper de Cornell e o que ainda não dá
Vale registrar o que o paper de Cornell não entrega. O experimento é teórico-analítico com simulação eletromagnética, não é um chip MRAM comercial funcionando em um terminal de pagamento. O tempo de persistência é de femtossegundos, escala adequada para prova de conceito, mas distante da retenção de dez anos que a MRAM comercial exige. O paper explicita que a técnica é "agnóstica quanto ao material", mas isso é uma promessa de generalidade, não demonstração em múltiplos materiais. A transferência para um chip em escala CMOS com litografia de 22 nm ou inferior exige P&D de cinco a dez anos, segundo a Mordor Intelligence. Quem ler a manchete do paper e achar que vai comprar memória óptica no próximo trimestre vai se frustrar.
O que dá para afirmar, com base no paper de Cornell e nos relatórios setoriais publicados até setembro de 2026, é o seguinte: a próxima geração de memória não-volátil para automação comercial, controle industrial e terminal de pagamento está sendo desenhada em cima do princípio de conversão de luz em magnetismo que a equipe de Rawat demonstrou. Everspin, Samsung, Avalanche, Intel, TSMC e NXP já fabricam ou financiam MRAM em escala comercial, com contratos assinados e qualificação automotiva em andamento. O paper de 14 de setembro não muda o produto que está no mercado, mas indica por onde a tecnologia vai nos próximos cinco anos. Para o dono de PME que usa terminal de pagamento, PDV e controlador industrial, vale ficar atento ao nome MRAM nas especificações técnicas.
Três perguntas para levar na próxima cotação de equipamento
Antes de comprar terminal de pagamento, controlador de PDV ou gateway IoT novo, vale aplicar três perguntas concretas ao fornecedor, com base no que se sabe hoje sobre MRAM. Primeiro: "Qual é o tipo de memória não-volátil usada para reter transações em caso de queda de energia?" Se for NAND flash com supercapacitor, é a configuração atual da maioria. Se for MRAM, é a configuração de próxima geração. Segundo: "O componente de memória tem qualificação AEC-Q100 Grau 0 ou Grau 1?" Se sim, o equipamento foi projetado para uso automotivo e industrial severo. Se não, vale pesquisar qual padrão foi usado. Terceiro: "O fabricante do componente de memória publica relatório de endurance e de tempo de retenção de dados?" Everspin, Samsung e Avalanche publicam. Fabricantes que não publicam costumam vender memória de segunda linha.
Aplicar essas três perguntas em três cotações leva cerca de quinze minutos, e o resultado é uma escolha mais informada do que a comparação de preço isolada. O paper de Cornell não muda a cotação de hoje. Mas a MRAM que ele ajuda a explicar já está mudando, e o dono de PME que souber o nome da tecnologia antes do fornecedor oferecer é quem vai escolher bem.
Fontes consultadas
- Generation and Enhancement of Persistent Nanoscale Magnetization in All-Dielectric Metasurfaces by Optically Injected and Localized Free Carriers (Advanced Science, Wiley, 14 set 2026, DOI 10.1002/advs.76635)
- Luz gera magnetismo sem ímãs (Inovação Tecnológica, 14 set 2026)
- Everspin Technologies (NASDAQ: MRAM), comunicado de resultados 2T 2026 e anúncio de contrato de US$ 40 milhões com base industrial de defesa dos EUA (abr 2026)
- Mercado de RAM Magneto Resistiva (MRAM), Mordor Intelligence, edição 2026 (US$ 4,43 bi em 2026, CAGR 32,72% até 2031)
- MRAM Market, Future Market Insights, set 2025 (US$ 912 mi em 2025, CAGR 18% até 2035)
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