Crescer sem depender do fundador virou prioridade para pequenas agências

Uma agência pode aumentar o faturamento e, ainda assim, ficar mais frágil. Mais clientes trazem novas demandas, mas também podem ampliar o retrabalho, pressionar a equipe e manter todas as decisões concentradas em uma única pessoa. É nesse ponto...

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Crescer sem depender do fundador virou prioridade para pequenas agências
Crescer sem depender do fundador virou prioridade para pequenas agências

O crescimento de uma agência de publicidade pode destruir margem antes de aumentar o caixa. Quando a carteira avança sem controle de capacidade, preço, contratos e dependência do fundador, a receita maior compra complexidade, não autonomia. A OBST foi criada para atacar esse ponto específico: pequenas e médias agências que já vendem, mas ainda operam com decisões críticas concentradas em quem fundou o negócio.

O programa combina conselho consultivo, formação, mentorias e acompanhamento de indicadores. O público inicial são empresas com faturamento mensal a partir de R$ 100 mil. A proposta ganhou forma em um mercado que movimentou R$ 28,9 bilhões em mídia via agências em 2025, segundo o painel oficial Cenp-Meios, enquanto milhares de empresas classificadas como agências disputam clientes e profissionais.

O mercado cresceu quatro vezes mais que o PIB, mas isso não garante margem

O Cenp informou que o investimento publicitário realizado por meio de agências avançou 10% em 2025 e chegou a R$ 28,9 bilhões. O painel reuniu dados de 330 agências, entre matrizes e filiais, e considera Pedidos de Inserção efetivamente veiculados e consolidados. A aferição de integridade do sistema foi realizada pela KPMG, conforme a publicação do próprio Cenp.

O crescimento ficou distante do ritmo da economia brasileira. A comparação divulgada pelo Cenp aponta que o avanço do setor foi aproximadamente quatro vezes superior à variação de 2,3% do Produto Interno Bruto no mesmo período. A conta direta dá 10 dividido por 2,3, ou 4,35 vezes. Esse resultado mostra expansão da verba movimentada, mas não revela quanto sobrou para cada agência, nem quanto custou entregar as campanhas.

Há uma segunda conta útil para dimensionar o número do painel. Se os R$ 28,9 bilhões fossem divididos de forma uniforme pelas 330 empresas consideradas, a média simples seria de aproximadamente R$ 87,6 milhões por agência. Essa não é uma média de faturamento típico, porque o painel reúne empresas de tamanhos diferentes e mede mídia veiculada, não lucro ou receita total. Mesmo assim, a conta evidencia por que um número agregado do setor não resolve a gestão de uma agência individual.

Mulher em pé fala para equipe sentada ao redor de mesa com notebooks em escritório.

Uma agência de R$ 100 mil já precisa decidir o que não pode continuar centralizado

O corte de entrada da OBST, faturamento mensal a partir de R$ 100 mil, identifica uma fase concreta da operação. Nesse patamar, o dono costuma conviver com contratos recorrentes, equipe, fornecedores, atendimento e decisões financeiras simultâneas. A agência deixou de ser um trabalho individual, mas pode ainda não ter caixa para manter uma diretoria completa de negócios, operações, marca e jurídico.

O caso concreto disponível é a própria OBST. O programa foi criado por Brunna Casagrande, da 6B Partners, David V. Bydlowski e Georgia Aliperti, da Rosh, e Rodrigo Báez, da Brand Lock. A empresa apresentada ao mercado não vende uma ferramenta isolada. Ela organiza quatro especialistas para atender uma situação empresarial definida: agências a partir de R$ 100 mil mensais que precisam crescer sem manter todas as decisões na mesa do fundador.

O lançamento foi anunciado para 2 de setembro de 2026, em uma aula online e gratuita chamada “É surto ou é o mercado?”. O encontro teria cerca de uma hora e meia e 30 vagas. Também foram divulgadas atividades presenciais em São Paulo, reuniões trimestrais com os quatro conselheiros e participação em ações ligadas ao Agency Club. Esses dados descrevem a oferta anunciada, não comprovam por si só o resultado futuro para os participantes.

A pulverização das agências torna a gestão um problema de sobrevivência

O Observatório do Sebrae apresenta a atividade de agências de publicidade associada ao CNAE 7311-4/00 e informa dados de empresas, emprego e remuneração com base em registros oficiais. A página setorial consultada registra 36.307 empregados em 2025 e remuneração média de R$ 5.461,59 para o trabalhador da atividade. O número de estabelecimentos exibido pelo sistema pode variar conforme o recorte, a data de atualização e a definição usada para empresas ou estabelecimentos.

Essa ressalva é importante porque a reportagem original usava 32,9 mil estabelecimentos ativos até fevereiro de 2026, dado atribuído ao Observatório do Sebrae. A página pública atualmente localizada do Observatório apresenta outro recorte e não deve ser misturada automaticamente ao número anterior. O fato consistente é a existência de uma base ampla e heterogênea de negócios, com diferentes portes, modelos de serviço e graus de formalização.

O IBGE enquadra no CNAE 7311-4/00 atividades como criação e produção de campanhas, colocação de material publicitário em veículos e serviços de merchandising. Portanto, o rótulo agência de publicidade reúne operações que podem ter estruturas muito distintas. Uma agência focada em mídia, uma empresa de branding e uma operação de conteúdo podem compartilhar o código de atividade sem apresentar o mesmo custo, ciclo de venda ou capacidade de entrega.

Os quatro pilares atacam gargalos que aparecem juntos na mesma decisão

A OBST divide o acompanhamento em negócios, operações, posicionamento e jurídico. A divisão evita tratar cada dor como um departamento isolado. Um contrato mal definido muda a margem; uma oferta sem diferenciação aumenta a pressão por desconto; um fluxo de aprovação confuso cria retrabalho; e uma sociedade sem regras claras concentra risco em poucas pessoas.

  • Negócios: David V. Bydlowski conduz temas como modelo de receita, liderança, expansão, diversificação e estrutura societária.
  • Operações: Georgia Aliperti trabalha processos, capacidade produtiva, indicadores, rentabilidade, formação de sucessores e redução de retrabalho.
  • Posicionamento: Brunna Casagrande trata de diferenciação, precificação, metodologias próprias e desenvolvimento de produtos.
  • Jurídico: Rodrigo Báez aborda contratos, propriedade intelectual, registro de marcas, segurança societária e modelos de partnership.

A soma dessas frentes muda a pergunta principal. Em vez de perguntar somente quanto a agência vendeu, o gestor precisa verificar qual cliente gerou margem, quanto da equipe foi consumido por cada entrega, quantas decisões voltaram para correção e quais atividades ainda dependem exclusivamente do fundador.

Faturamento, margem e capacidade precisam ser lidos na mesma planilha

Uma agência pode fechar novos contratos e piorar sua posição financeira se o preço não cobrir horas, terceiros, impostos, atendimento e retrabalho. O faturamento bruto é uma fotografia incompleta. Para saber se a expansão é saudável, o gestor precisa cruzar receita por cliente, margem operacional, horas consumidas, prazo de recebimento e capacidade disponível da equipe.

O exemplo divulgado nas informações sobre a OBST ajuda a separar crescimento de rentabilidade: uma empresa que fatura R$ 200 mil por mês, mas opera com margem próxima de 5%, pode continuar com dificuldade de caixa. Nesse caso, acrescentar vendas sem rever preço, escopo, custo e capacidade tende a aumentar a exposição. O número é um exemplo apresentado na comunicação do programa, não um resultado atribuído a uma agência participante.

O mesmo raciocínio vale para a concentração de clientes. Uma agência pode ter receita recorrente e ainda estar vulnerável se um único contrato representar parcela relevante do caixa. O indicador precisa ser acompanhado junto com prazo contratual, margem e esforço de atendimento. Perder um cliente pouco rentável é diferente de perder o contrato que sustenta a folha, e as duas situações exigem decisões diferentes.

O desenho da mentoria transforma conselho em capacidade de execução

O programa prevê aulas online mensais, mentorias individuais de 30 minutos, sessões coletivas de hot seat, reuniões trimestrais com os quatro conselheiros, encontros presenciais em São Paulo e uma comunidade exclusiva. A comunicação também informa uma capacidade de até 64 sessões individuais por mês para uma turma inicial de aproximadamente 30 participantes.

A conta dessa capacidade é reveladora. Sessenta e quatro sessões divididas por 30 participantes equivalem a 2,13 sessões por participante em um mês, em uma distribuição teórica. Na prática, a quantidade dependeria de agenda e disponibilidade. Ainda assim, o cálculo mostra que o formato foi desenhado para combinar discussão coletiva com intervenções individuais, em vez de depender somente de aulas gerais.

O valor do modelo estará no que acontece depois da reunião. Se o diagnóstico apontar margem baixa, a tarefa precisa ser revisar uma proposta comercial e medir o resultado. Se o gargalo for aprovação, alguém deve receber autoridade formal e um prazo para assumir a etapa. Se o risco for contratual, a agência precisa mapear cláusulas, escopos e responsabilidades. Sem uma ação observável, o conselho produz opinião, não mudança operacional.

A autonomia do fundador precisa aparecer em decisões delegadas

A metodologia anunciada pela OBST é organizada em quatro etapas: objetivar, buscar, superar e tentar novamente. A sequência pode ser lida como um ciclo de gestão: definir o problema, levantar alternativas, executar uma mudança e revisar o resultado. O ganho não está no nome da etapa, mas na capacidade de registrar uma hipótese e conferir se a rotina melhorou.

Uma agência mais autônoma não elimina a participação do fundador. Ela estabelece limites para que a mesma pessoa não seja, ao mesmo tempo, responsável por vender, aprovar criação, cobrar cliente, contratar profissional, negociar fornecedor e decidir o caixa. A delegação precisa vir acompanhada de regra: quem decide, com qual informação, até qual valor e em quanto tempo.

Esse controle também protege a qualidade. Tirar o fundador de uma aprovação sem definir padrão, prazo e responsável apenas desloca o problema. A agência precisa transformar conhecimento informal em processo acessível à equipe. O indicador de autonomia, portanto, pode ser concreto: quantas decisões relevantes foram tomadas sem intervenção do fundador e quantas precisaram voltar por erro ou falta de informação.

O dono de agência pode começar na segunda-feira com cinco números

O primeiro passo é escolher os cinco clientes que mais movimentaram receita nos últimos 90 dias e registrar, para cada um, valor faturado, horas consumidas, custos diretos, margem estimada e quantidade de retrabalhos. Não é necessário comprar uma plataforma para iniciar. Uma planilha com fonte dos dados e data de atualização já permite comparar percepção com operação.

  1. Liste a receita recebida e a receita contratada por cliente, separando recorrência, projeto avulso e verba que apenas passa pela agência.
  2. Registre as horas da equipe em atendimento, estratégia, criação, produção e revisão. Se não houver histórico, comece na segunda-feira e não reconstitua números no chute.
  3. Calcule uma margem inicial descontando custos diretamente ligados à entrega. Marque como estimativa qualquer valor ainda não fechado.
  4. Conte as aprovações e refações de cada projeto. O objetivo é encontrar onde o tempo está sendo consumido, não culpar uma área.
  5. Escolha uma decisão para delegar, com responsável, limite de autoridade e prazo de sete dias para revisar o resultado.

Ao fim da primeira semana, o gestor deve responder três perguntas: qual cliente gera margem, qual processo consome mais horas e qual decisão continua presa ao fundador sem necessidade. Esse diagnóstico não substitui uma análise financeira ou jurídica, mas cria uma base verificável para buscar ajuda especializada e definir uma prioridade real.

O programa responde a uma lacuna de gestão, mas o resultado dependerá da execução

A OBST chega a um segmento que cresce em volume e continua fragmentado em modelos muito diferentes. O painel do Cenp mede a força da publicidade na economia; os dados do Sebrae ajudam a visualizar a amplitude da atividade; e a classificação do IBGE mostra que o nome agência reúne serviços variados. Nenhuma dessas bases, sozinha, informa se uma empresa específica tem preço correto, equipe suficiente ou contrato seguro.

É nesse espaço entre o tamanho do mercado e a rotina do negócio que o programa pretende atuar. O caso da OBST tem nome, público e valor de entrada definidos: quatro fundadores, agências a partir de R$ 100 mil mensais e uma estrutura anunciada com até 64 mentorias individuais por mês. A prova de valor virá quando as decisões acompanhadas produzirem margem melhor, menos retrabalho ou menor dependência do fundador.

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Redação

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