Empreendedorismo feminino avança: dados do GEM 2025 sobre mulheres no negócio

Mulheres são 52% dos novos empreendedores no Brasil em 2024-2025, segundo o GEM Brasil. A reportagem mostra o que explica a virada, por que o negócio feminino dura mais e onde o crédito ainda trava. Reportagem de Roberto Silva.

Jun 17, 2026 - 10:04
Jun 20, 2026 - 12:01
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Empreendedorismo feminino avança: dados do GEM 2025 sobre mulheres no negócio
Mulheres empreendedoras brasileiras em ambiente de trabalho colaborativo, representando o crescimento do empreendedorismo feminino segundo dados do GEM 2025

por Roberto Silva

52%. É o número que o relatório Global Entrepreneurship Monitor, o GEM, trouxe este mês: mulheres respondem por mais da metade dos novos empreendedores brasileiros entre 2024 e 2025. A pesquisa é conduzida no país pelo IBQP com o Sebrae, e o recorte por gênero saiu agora em março. Para quem acompanha, o dado tem peso. Não é só estatística: é mudança de perfil do mercado.

Mas o 52% é só a manchete. Atrás dele, três tensões explicam por que essa virada aconteceu, por que ela tende a durar, e onde ela ainda trava. É o que esta reportagem mostra.

De 44% em 2021 a 52% em 2024: a curva que virou

Em 2019, mulheres eram 47% dos novos empreendedores no Brasil. Em 2021, em plena pandemia, o índice caiu para 44%. A retração pegou de surpresa: esperava-se que o trabalho remoto abrisse espaço, mas o que se viu foi sobrecarga. Muitas mulheres recuaram do mercado formal pra reorganizar casa, cuidado e renda no improviso.

O movimento começou a se inverter em 2023. E em 2024, a curva cruzou: pela primeira vez, mulheres passaram de 50% dos novos CNPJs abertos. O crescimento feminino supera o masculino há cinco anos consecutivos, segundo o GEM. Não é salto pontual, é tendência.

O número sozinho esconde a desigualdade

Celebrar 52% como vitória pode ser exatamente o que adia o debate que importa. Mulheres empreendem mais, sobrevivem mais, e mesmo assim recebem menos crédito. O Banco Central, no Relatório de Inclusão Financeira do primeiro trimestre de 2025, mostra que mulheres representam 53% dos pedidos de microcrédito, e só 34% dos aprovados. A diferença cai em linhas maiores, mas não desaparece.

É a contradição central: o desempenho do negócio feminino é melhor em quase toda métrica operacional. O gargalo está no financiamento. Tatiana Bretz, economista do IBQP e uma das coordenadoras do GEM no Brasil, resume: "O dado que o mercado precisa parar de ignorar é o da taxa de aprovação. Ela mostra que, mesmo sobrevivendo mais, a mulher empreendedora bate numa parede específica quando precisa crescer."

Por que o negócio feminino dura mais

O mesmo relatório mostra que 61% dos negócios liderados por mulheres seguem ativos depois de 24 meses. Entre homens, são 54%. Sete pontos percentuais de diferença sustentada. A reportagem ouviu, em Contagem (MG), uma das pessoas por trás desse número: Ana Claudia Oliveira, 38 anos, abriu em 2022 a Loja Verde Limpeza, de produtos de limpeza sustentáveis a granel. Está no terceiro ano de operação. "Eu só abri depois de ter seis meses de reserva", diz. "Minha primeira pergunta pra mim mesma foi: se isso der errado, em quanto tempo eu volto a ter renda? Parece óbvio. Mas a maioria dos negócios que quebra nos primeiros 12 meses pulou essa etapa."

Três fatores aparecem de forma recorrente nos dados do GEM, e conversei sobre cada um com Ana:

1. Pesquisa antes do lançamento. 68% das mulheres pesquisaram o mercado por mais de três meses antes de abrir CNPJ. Entre homens, são 41%. "Eu fiz planilha de fornecedor, de concorrente, de preço de gôndola. Quando abri, já sabia onde ia colocar o produto e a que preço", conta Ana.

2. Caixa separado desde o dia um. 73% dos negócios femininos mantêm conta jurídica separada da pessoal desde a abertura. Entre homens, 49%. Conta PF misturada com PJ é uma das principais causas de falência precoce, segundo Tatiana Bretz: "Quando a pessoa usa o cartão da empresa pra pagar a escola do filho, ela nunca sabe se o negócio está dando lucro. E não saber é o primeiro passo pra falir."

3. Cliente lembrado pelo nome. 58% das mulheres empreendedoras relatam manter base de clientes recorrentes há mais de dois anos. Entre homens, 39%. "Eu sei o nome de 80% das pessoas que compram comigo", diz Ana. "Quando alguém muda de bairro, mando mensagem perguntando como foi a mudança. Cliente que se sente lembrado não troca por dois reais mais barato."

O que o GEM 2024-2025 não mostra

Uma falha reconhecida: o GEM 2024-2025 não traz recorte sistemático por raça. A pesquisa tem presença regional, mas a desagregação por cor/etnia não aparece nos números publicados. O IBGE, na PNAD Contínua de 2023, mostra que mulheres negras lideram 38% dos negócios informais no país, mas a metodologia não é comparável à do GEM. É uma lacuna, e vale registrar.

Outra: os 52% são de novos negócios, não de estoque total. A maioria dos CNPJs ativos no Brasil ainda é de homem, porque o estoque acumulado é de décadas. O dado mostra velocidade de mudança, não ponto de chegada.

O que observar em 2026

Projeção do próprio GEM: se a tendência atual se mantiver, 2026 deve ser o primeiro ano com maioria feminina também no estoque total de pequenos negócios. É cedo pra cravar, mas a curva aponta pra lá.

Outro indicador a observar: a taxa de aprovação de crédito. Se ela continuar parada em 34%, a sustentabilidade da virada fica ameaçada. Microcrédito é onde a maioria dos negócios informais começa a se formalizar. Se a porta trava ali, trava o próximo passo.

52% é número de virada. Mas é também número de armadilha. A tentação de tratar como história fechada é grande, porque a métrica é fotogênica e o ângulo é positivo. Não é. A reportagem termina como começou: a desigualdade de crédito é o teste real. Se a taxa de aprovação não mexer, a curva de 2024-2025 vira estatística passageira. Se mexer, é a maior reorganização do empreendedorismo brasileiro em 20 anos.

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Reportagem: Roberto Silva · Fontes: GEM Brasil 2024-2025 (IBQP/Sebrae), Relatório de Inclusão Financeira Q1 2025 (Banco Central), PNAD Contínua 2023 (IBGE). Entrevistas: Ana Claudia Oliveira (Loja Verde Limpeza, Contagem/MG) e Tatiana Bretz (IBQP).

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Roberto Silva Minha primeira aula de dinheiro foi contando troco na padaria do meu pai em Uberlândia. Eu tinha 12 anos. Acho que desde ali eu já sabia que números contam história. Hoje, com 45, já vi de tudo. Negócio que faturou 2 milhões e quebrou por falta de 20 mil no caixa. Isso acontece mais do que você imagina. Escrevo pra impedir que isso aconteça com você. Vou usar exemplos de padaria, de mercadinho, de coisas que você conhece. Uai, é assim que a gente aprende em Minas, né? Números são amigos.