Empreendedorismo feminino avança: dados do GEM 2025 sobre mulheres no negócio
Mulheres são 52% dos novos empreendedores no Brasil em 2024-2025, segundo o GEM Brasil. A reportagem mostra o que explica a virada, por que o negócio feminino dura mais e onde o crédito ainda trava. Reportagem de Roberto Silva.
por Roberto Silva
52%. É o número que o relatório Global Entrepreneurship Monitor, o GEM, trouxe este mês: mulheres respondem por mais da metade dos novos empreendedores brasileiros entre 2024 e 2025. A pesquisa é conduzida no país pelo IBQP com o Sebrae, e o recorte por gênero saiu agora em março. Para quem acompanha, o dado tem peso. Não é só estatística: é mudança de perfil do mercado.
Mas o 52% é só a manchete. Atrás dele, três tensões explicam por que essa virada aconteceu, por que ela tende a durar, e onde ela ainda trava. É o que esta reportagem mostra.
De 44% em 2021 a 52% em 2024: a curva que virou
Em 2019, mulheres eram 47% dos novos empreendedores no Brasil. Em 2021, em plena pandemia, o índice caiu para 44%. A retração pegou de surpresa: esperava-se que o trabalho remoto abrisse espaço, mas o que se viu foi sobrecarga. Muitas mulheres recuaram do mercado formal pra reorganizar casa, cuidado e renda no improviso.
O movimento começou a se inverter em 2023. E em 2024, a curva cruzou: pela primeira vez, mulheres passaram de 50% dos novos CNPJs abertos. O crescimento feminino supera o masculino há cinco anos consecutivos, segundo o GEM. Não é salto pontual, é tendência.
O número sozinho esconde a desigualdade
Celebrar 52% como vitória pode ser exatamente o que adia o debate que importa. Mulheres empreendem mais, sobrevivem mais, e mesmo assim recebem menos crédito. O Banco Central, no Relatório de Inclusão Financeira do primeiro trimestre de 2025, mostra que mulheres representam 53% dos pedidos de microcrédito, e só 34% dos aprovados. A diferença cai em linhas maiores, mas não desaparece.
É a contradição central: o desempenho do negócio feminino é melhor em quase toda métrica operacional. O gargalo está no financiamento. Tatiana Bretz, economista do IBQP e uma das coordenadoras do GEM no Brasil, resume: "O dado que o mercado precisa parar de ignorar é o da taxa de aprovação. Ela mostra que, mesmo sobrevivendo mais, a mulher empreendedora bate numa parede específica quando precisa crescer."
Por que o negócio feminino dura mais
O mesmo relatório mostra que 61% dos negócios liderados por mulheres seguem ativos depois de 24 meses. Entre homens, são 54%. Sete pontos percentuais de diferença sustentada. A reportagem ouviu, em Contagem (MG), uma das pessoas por trás desse número: Ana Claudia Oliveira, 38 anos, abriu em 2022 a Loja Verde Limpeza, de produtos de limpeza sustentáveis a granel. Está no terceiro ano de operação. "Eu só abri depois de ter seis meses de reserva", diz. "Minha primeira pergunta pra mim mesma foi: se isso der errado, em quanto tempo eu volto a ter renda? Parece óbvio. Mas a maioria dos negócios que quebra nos primeiros 12 meses pulou essa etapa."
Três fatores aparecem de forma recorrente nos dados do GEM, e conversei sobre cada um com Ana:
1. Pesquisa antes do lançamento. 68% das mulheres pesquisaram o mercado por mais de três meses antes de abrir CNPJ. Entre homens, são 41%. "Eu fiz planilha de fornecedor, de concorrente, de preço de gôndola. Quando abri, já sabia onde ia colocar o produto e a que preço", conta Ana.
2. Caixa separado desde o dia um. 73% dos negócios femininos mantêm conta jurídica separada da pessoal desde a abertura. Entre homens, 49%. Conta PF misturada com PJ é uma das principais causas de falência precoce, segundo Tatiana Bretz: "Quando a pessoa usa o cartão da empresa pra pagar a escola do filho, ela nunca sabe se o negócio está dando lucro. E não saber é o primeiro passo pra falir."
3. Cliente lembrado pelo nome. 58% das mulheres empreendedoras relatam manter base de clientes recorrentes há mais de dois anos. Entre homens, 39%. "Eu sei o nome de 80% das pessoas que compram comigo", diz Ana. "Quando alguém muda de bairro, mando mensagem perguntando como foi a mudança. Cliente que se sente lembrado não troca por dois reais mais barato."
O que o GEM 2024-2025 não mostra
Uma falha reconhecida: o GEM 2024-2025 não traz recorte sistemático por raça. A pesquisa tem presença regional, mas a desagregação por cor/etnia não aparece nos números publicados. O IBGE, na PNAD Contínua de 2023, mostra que mulheres negras lideram 38% dos negócios informais no país, mas a metodologia não é comparável à do GEM. É uma lacuna, e vale registrar.
Outra: os 52% são de novos negócios, não de estoque total. A maioria dos CNPJs ativos no Brasil ainda é de homem, porque o estoque acumulado é de décadas. O dado mostra velocidade de mudança, não ponto de chegada.
O que observar em 2026
Projeção do próprio GEM: se a tendência atual se mantiver, 2026 deve ser o primeiro ano com maioria feminina também no estoque total de pequenos negócios. É cedo pra cravar, mas a curva aponta pra lá.
Outro indicador a observar: a taxa de aprovação de crédito. Se ela continuar parada em 34%, a sustentabilidade da virada fica ameaçada. Microcrédito é onde a maioria dos negócios informais começa a se formalizar. Se a porta trava ali, trava o próximo passo.
52% é número de virada. Mas é também número de armadilha. A tentação de tratar como história fechada é grande, porque a métrica é fotogênica e o ângulo é positivo. Não é. A reportagem termina como começou: a desigualdade de crédito é o teste real. Se a taxa de aprovação não mexer, a curva de 2024-2025 vira estatística passageira. Se mexer, é a maior reorganização do empreendedorismo brasileiro em 20 anos.
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Reportagem: Roberto Silva · Fontes: GEM Brasil 2024-2025 (IBQP/Sebrae), Relatório de Inclusão Financeira Q1 2025 (Banco Central), PNAD Contínua 2023 (IBGE). Entrevistas: Ana Claudia Oliveira (Loja Verde Limpeza, Contagem/MG) e Tatiana Bretz (IBQP).
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