IT Forum defende liderança capaz de orquestrar pessoas, dados e inteligência artificial
A discussão do IT Forum desloca a liderança da simples conexão para a coordenação de pessoas, dados e sistemas em busca de resultados comuns.
O IT Forum Praia do Forte mostrou que a dificuldade da inteligência artificial nas empresas não está mais em encontrar uma ferramenta, mas em coordenar pessoas, dados, infraestrutura e decisões para que o investimento produza resultado. A edição reuniu 160 CIOs, 90 parceiros e mais de mil participantes entre 19 e 22 de agosto, segundo o balanço publicado pelo próprio IT Forum. A discussão sobre orquestração só faz sentido quando sai do vocabulário de liderança e chega a três pontos verificáveis: qual processo será alterado, quem responde pela decisão e qual número provará que a mudança funcionou.
A orquestração virou o problema central da adoção de IA
O tema da 35ª edição foi “O poder do ecossistema: quem não conecta, não cresce”. A frase poderia ficar restrita à comunicação de um evento, mas os debates deram a ela uma consequência operacional. O uso de IA envolve modelos, dados, fornecedores, áreas de negócio e profissionais que precisam revisar saídas. Quando cada parte trabalha com uma meta diferente, a empresa pode até colocar um sistema em produção sem entregar valor ao cliente ou ao demonstrativo financeiro.
O IT Forum registrou que a programação colocou a inteligência artificial no centro das discussões sobre liderança, dados e agentes. Na abertura, Adelson de Sousa, presidente e fundador do ecossistema Itaqui, resumiu o movimento com uma distinção importante: “Conectar é o primeiro passo; orquestrar é fazer essa conexão gerar valor”, conforme a cobertura do Propmark. A diferença está no verbo. Conectar reúne recursos. Orquestrar estabelece uma ordem de ação, um responsável e um resultado esperado.
Neil Redding, palestrante de abertura, levou a discussão para a estratégia. Segundo a cobertura do IT Forum, ele afirmou que o maior risco não é avançar devagar demais, mas otimizar um modelo de negócio de que o futuro não precisará. A observação muda a pergunta que o gestor deve fazer. Antes de comprar uma ferramenta para acelerar o processo atual, é preciso verificar se o processo ainda merece ser acelerado.

Os números do evento mostram que conexão precisa produzir trabalho concreto
O balanço publicado pelo Portal Radar informa que o encontro promoveu mais de 2.300 conversas entre empresas e CIOs participantes. Com 160 CIOs na edição, a conta simples é de pelo menos 14,375 conversas por CIO, se o total for distribuído de maneira uniforme. Essa média não descreve o conteúdo de cada reunião, mas ajuda a dimensionar o desafio: relacionamento não é um resultado final. Cada conversa precisa avançar para uma hipótese de parceria, uma validação técnica ou uma decisão que possa ser acompanhada depois.
A mesma matéria informa que 90 parceiros participaram do evento. Dividindo 2.300 conversas pelos 90 parceiros, chega-se a uma média aproximada de 25,56 conversas por parceiro. A conta também não significa que todos tiveram o mesmo volume. Ela serve para tornar visível a escala de coordenação necessária quando uma empresa tenta transformar encontros em oportunidades. Sem registro de pauta, próximo passo e responsável, a agenda vira memória dispersa.
Esse ponto se conecta à pesquisa “Antes da TI, a Estratégia”, produzida pelo IT Forum. Em conteúdo sobre o estudo, o portal informa que 243 empresas haviam respondido à edição de 2026 e que 52% apontaram a dificuldade de estabelecer um caso de uso eficiente como desafio para uma iniciativa de IA. O dado é primário para esse recorte porque a pesquisa foi produzida pelo próprio IT Forum, em vez de ser apenas comentada por uma reportagem externa.
Se 52% de 243 respondentes representam aproximadamente 126 empresas, a dificuldade não parece ser falta de interesse. Ela está na passagem entre a demonstração e a rotina. A empresa testa um recurso, mas não define qual decisão será melhorada, qual dado alimentará o sistema, quem revisará a saída e qual indicador determinará a continuidade. Sem esses quatro elementos, o piloto pode gerar entusiasmo sem criar evidência.
O caso da Lecom mostra como integração depende de pessoas e órgãos reais
Um caso concreto citado pelo Portal Radar ajuda a afastar a discussão da abstração. A Lecom, empresa especializada em automação de processos, participou de um projeto de digitalização do GOV.BR que envolveu cerca de 900 serviços e quase 80 órgãos federais. O número não prova que toda automação gera o mesmo resultado, mas mostra a dimensão de um trabalho em que tecnologia, processos públicos e usuários precisam funcionar em conjunto.
Tiago Amor, CEO da Lecom, afirmou, segundo a publicação, que a evolução tecnológica precisa considerar as pessoas que utilizam e dão sentido às soluções. Esse detalhe é decisivo. Um sistema pode integrar bases de dados e ainda assim falhar se o usuário não entender a mudança, se a equipe não souber corrigir exceções ou se o cidadão não encontrar uma orientação clara. A automação amplia a escala do processo, inclusive quando o desenho original contém um problema.
O caso também mostra por que a palavra ecossistema não deve servir para esconder responsabilidades. Um projeto que envolve 900 serviços e quase 80 órgãos precisa de regras para acesso, manutenção, segurança e atendimento. A coordenação não pode depender de boa vontade entre equipes. Ela precisa aparecer em contratos, indicadores, canais de suporte e decisões registradas.
Não há base, nas fontes consultadas, para afirmar que o projeto eliminou determinado custo ou reduziu um prazo específico. Essa lacuna importa. O dado verificável é a escala da digitalização, não um retorno financeiro que as fontes não divulgaram. Diferenciar o que foi publicado do que ainda não foi medido é parte da governança que a adoção de IA exige.
O CIO passa a responder pela qualidade das decisões fora da área de tecnologia
A agenda do evento incluiu discussões sobre dados, governança, educação e a relação entre tecnologia e conselho. O balanço do IT Forum descreve o novo papel do CIO como uma função que precisa transformar dados e tecnologia em decisões de negócio sem perder o controle do processo. Isso amplia a responsabilidade da liderança de TI. Não basta escolher uma arquitetura. É preciso ajudar outras áreas a formular perguntas que possam ser respondidas com dados confiáveis.
O estudo do IT Forum reforça a pressão por resultado. Uma publicação do portal sobre a pesquisa informa que aumentar a eficiência operacional era objetivo da agenda de IA para 92% dos CIOs, enquanto validar o retorno sobre o investimento aparecia entre os principais desafios para 36% dos respondentes. Os dois percentuais podem conviver sem contradição. Muitas empresas sabem onde desejam chegar, mas não conseguem provar quanto da melhora veio da tecnologia e quanto veio de uma mudança no processo.
Essa distinção evita um erro comum. Se o objetivo é eficiência, o indicador não deve ser “usar IA”. Pode ser tempo médio de atendimento, taxa de retrabalho, custo por transação ou quantidade de casos resolvidos na primeira tentativa. A ferramenta é o meio. O indicador mede a consequência.
A infraestrutura precisa seguir a carga de trabalho, não o entusiasmo
O painel “Eficiência como estratégia: a nova infraestrutura da IA” reuniu Cleber Morais, da AWS Brasil, André Ribeiro, da Intel Brasil, e João Moressi Junior, da Opah IT, conforme a agenda e a cobertura do IT Forum. A discussão tratou de como sustentar o avanço da IA sem multiplicar a conta de infraestrutura. O problema não é simplesmente comprar mais capacidade, porque uma arquitetura maior também pode aumentar custos, complexidade e dependência de fornecedores.
André Ribeiro projetou que, até 2028, a maior parte das cargas de IA será de inferência, ampliando a relevância das CPUs em determinados cenários. A frase deve ser lida como projeção atribuída ao executivo, não como fato consumado. Ela oferece uma hipótese para planejamento, mas não substitui a medição da carga específica de cada empresa.
Para uma operação pequena, a pergunta prática é mais simples. Quantas requisições existem, em que horários elas se concentram, qual modelo responde ao problema e qual latência o usuário tolera? Sem essa ficha, a compra de infraestrutura vira aposta. Um piloto bem delimitado pode comparar custo por resposta, tempo de processamento, taxa de erro e necessidade de revisão humana antes de ampliar o ambiente.
A infraestrutura também inclui governança. Dados sensíveis, registros de acesso, versionamento de prompts e controle de permissões fazem parte do custo real. Ignorar esses elementos cria um sistema que parece barato enquanto está em teste, mas se torna caro quando precisa atender requisitos de segurança, auditoria e continuidade.
Qualificação transforma uma ferramenta disponível em capacidade organizacional
Cleber Morais apresentou no evento o compromisso da AWS de treinar um milhão de pessoas em nuvem no Brasil, segundo o IT Forum e o Propmark. A iniciativa foi citada como resposta à necessidade de qualificar equipes. O ponto para o pequeno negócio não é replicar a escala de uma grande empresa, mas reconhecer que a compra de uma solução não transfere conhecimento automaticamente para quem deverá operá-la.
A própria AWS mantém páginas de treinamento e certificação com trilhas para iniciantes, desenvolvedores, arquitetos de soluções e especialistas. Essa fonte institucional confirma que a formação é organizada por funções e níveis, mas não prova que uma equipe específica terá resultado após concluir um curso. Para avaliar o efeito, o gestor precisa observar se a pessoa consegue executar uma tarefa real, identificar uma falha e explicar quando a ferramenta não deve ser usada.
O alerta de Neil Redding sobre o pensamento crítico também se encaixa aqui. Delegar uma decisão a um agente não elimina a necessidade de julgamento. A equipe precisa saber conferir uma resposta, reconhecer dado ausente e interromper um fluxo quando a consequência for relevante. A qualificação que interessa não é somente aprender comandos. É entender o limite da automação.
O retorno da IA precisa aparecer em uma linha da operação
O debate sobre monetização e P&L, relatado pelo Propmark, aproximou a IA das perguntas financeiras que normalmente definem a continuidade de um projeto. Uma iniciativa pode aumentar receita, reduzir custo, proteger uma margem ou diminuir um risco. Se ninguém consegue dizer qual dessas quatro hipóteses está sendo testada, o projeto ainda é uma experiência tecnológica, não uma decisão de negócio.
A forma mais segura de calcular o retorno é estabelecer uma linha de base antes do piloto. Suponha que uma equipe registre o tempo médio necessário para concluir uma tarefa durante duas semanas, incluindo volume, erros e retrabalho. Depois, ela repete a medição com a ferramenta em condições semelhantes. A diferença só pode ser atribuída à tecnologia com cautela, porque treinamento, sazonalidade e mudança de demanda também interferem. Mesmo assim, a comparação é mais útil do que uma impressão de produtividade.
O estudo do IT Forum informa que 52% dos respondentes viam a definição de um caso de uso eficiente como desafio e 36% apontavam a validação do retorno sobre o investimento. A diferença entre os percentuais é de 16 pontos percentuais. Minha leitura é que a escolha do caso vem antes da conta: não existe ROI confiável quando a empresa ainda não definiu qual atividade pretende melhorar.
A integração com formação profissional amplia o resultado do ecossistema
O Portal Radar informa que empresas participantes ofereceram 302 oportunidades de estágio para estudantes da SPTech durante o IT Forum Praia do Forte. Somadas às vagas da edição de Trancoso, foram 631 oportunidades em 2026, acima da meta inicial de 500. A diferença foi de 131 vagas. Em relação à meta, o total representa 26,2% a mais, cálculo que ajuda a dimensionar a escala da iniciativa sem transformar o número em promessa de contratação.
O dado acrescenta uma camada importante à discussão. Um ecossistema tecnológico não é composto somente por plataformas e compradores. Ele também depende da formação de profissionais capazes de operar, questionar e melhorar essas plataformas. A conexão entre estudantes e empresas não resolve sozinha a falta de talentos, mas cria um canal concreto para aproximar demanda e aprendizagem.
Também aqui é preciso separar o que a fonte permite afirmar. O número de oportunidades não equivale ao número de contratações, nem informa a permanência dos estudantes nas empresas. O que está documentado é a oferta de vagas dentro da iniciativa apresentada. A avaliação do impacto exigiria acompanhamento posterior, com dados de seleção, contratação e desenvolvimento profissional.
Um piloto de IA precisa começar com quatro decisões registradas
Para aplicar as discussões do evento sem transformar a matéria em recomendação genérica, o gestor pode iniciar com um processo de baixo risco e registrar quatro decisões antes de escolher a ferramenta. Primeiro, escreva o problema em uma frase mensurável, como reduzir o tempo de classificação de solicitações. Segundo, defina a linha de base com volume, prazo, erro e retrabalho. Terceiro, indique a pessoa responsável pela revisão e o limite para interromper o teste. Quarto, estabeleça uma data para comparar o resultado com a linha de base.
Na prática, o passo desta semana é reunir os dados de dez dias do processo escolhido e separar uma amostra para teste. Não inclua informação pessoal desnecessária. Faça a equipe classificar a mesma amostra com e sem a ferramenta, registre o tempo e conte os erros. Só depois compare os resultados. Se o ganho não aparecer no indicador definido, encerre o piloto ou reformule a hipótese. Se aparecer, documente o custo, a revisão humana e as condições para ampliar o uso.
Essa sequência traduz a tese do IT Forum. Orquestrar não significa deixar pessoas e sistemas trabalharem juntos de maneira informal. Significa definir a função de cada agente, estabelecer uma regra de decisão e conferir o resultado. A empresa pode mudar a ferramenta depois, mas não deveria mudar o critério de sucesso no meio do teste.
Por Silvio Cabral Jr.
Fontes consultadas
- IT Forum, balanço do IT Forum Praia do Forte 2026
- IT Forum, painel sobre infraestrutura de IA com AWS, Intel e Opah IT
- IT Forum, abertura com Neil Redding e dados do estudo Antes da TI, a Estratégia
- IT Forum, dados e IA, eficiência operacional e retorno sobre investimento
- IT Forum Inteligência, estudo Antes da TI, a Estratégia
- Propmark, cobertura do IT Forum Praia do Forte 2026
- Portal Radar, integração entre tecnologia, negócios e pessoas no evento
- Agenda oficial do IT Forum Praia do Forte 2026
- AWS, treinamento e certificação em nuvem
Comentários (0)