IA do Nevo chega ao Sabin para ampliar a triagem de sinais de câncer de pele

Ferramenta da AI Pathology analisa imagens de pintas e manchas, aciona teleconsulta quando identifica suspeita e começa pelos clientes do Sabin em Brasília

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IA do Nevo chega ao Sabin para ampliar a triagem de sinais de câncer de pele
IA do Nevo chega ao Sabin para ampliar a triagem de sinais de câncer de pele

O valor do Nevo não está em prometer um diagnóstico instantâneo, mas em atacar um gargalo anterior: fazer a pessoa com uma lesão suspeita chegar mais rápido a um dermatologista. A ferramenta da healthtech AI Pathology, oferecida aos clientes do Sabin em Brasília, combina coleta de imagens, análise por inteligência artificial e teleconsulta quando aparece um sinal de alerta. O desenho importa porque uma triagem só produz benefício clínico quando existe um caminho definido depois do resultado.

Médica aponta para exame de pele na tela enquanto conversa com paciente em consultório.

A escala do problema ajuda a entender a aposta. Na estimativa do Instituto Nacional de Câncer para o triênio de 2023 a 2025, o câncer de pele não melanoma representava 31,3% dos casos novos de câncer no Brasil. O número não transforma qualquer pinta em câncer, mas mostra por que a identificação de alterações e o encaminhamento correto são problemas de saúde relevantes.

O Nevo foi desenhado para reduzir o tempo perdido antes da consulta

O Nevo não entrega ao paciente uma sentença médica. O sistema funciona como uma etapa de priorização: registra a lesão, processa a imagem e, quando identifica um achado suspeito, aciona uma teleconsulta com dermatologista. A decisão clínica continua nas mãos do profissional, que pode orientar nova avaliação, encaminhamento ou investigação.

O serviço começa pelo e-commerce do Sabin para clientes de Brasília. Após a contratação, uma equipe treinada vai ao endereço informado e coleta as imagens. O procedimento usa um smartphone com lente de magnificação e iluminação por luz polarizada, recurso que ajuda a revelar estruturas da pele que não aparecem com a mesma clareza em uma fotografia comum.

Cada atendimento avalia até cinco lesões. Esse limite foi apresentado por Willian Boelcke, cofundador e CEO da AI Pathology, como uma decisão metodológica para a fase inicial. Um protocolo fixo permite comparar operações, regiões e versões do modelo. A empresa reconhece que alguns casos exigem mais imagens e afirma que pretende adaptar versões futuras.

Essa escolha também delimita a promessa do produto. O Nevo não resolve sozinho a fila de dermatologia, não substitui biópsia e não transforma uma fotografia em laudo. Seu resultado depende da qualidade da coleta, da avaliação médica e da continuidade do cuidado depois da teleconsulta.

Uma perda familiar levou Willian Boelcke a estudar o acesso ao cuidado

Boelcke perdeu o pai para um câncer de pele quando tinha 16 anos. A experiência permaneceu como uma pergunta sobre o que poderia ser feito para que outras famílias não passassem pela mesma situação. Ele se formou em odontologia, seguiu para o doutorado na FOP-Unicamp e passou quase uma década estudando oncologia.

O fundador afirma que o problema observado não era só tecnológico. Uma imagem pode ser analisada, mas essa leitura pouco muda o desfecho se a pessoa não consegue chegar ao médico no momento adequado. Foi dessa combinação entre ferramenta e acesso que surgiu a proposta da AI Pathology.

A empresa nasceu em 2023, com o Dr. Lucas Lacerda à frente da inteligência artificial ao lado de Boelcke. Em 2024, o sistema já funcionava, mas os fundadores concluíram que um algoritmo isolado não mudaria a assistência. A parceria com uma rede de diagnóstico permitiria conectar captura, triagem, especialista e orientação ao paciente.

Antes do Sabin, o Nevo havia sido testado com trabalhadores rurais no interior de Goiás e com colaboradores de grandes empresas. A entrada no varejo diagnóstico cria um teste diferente. Em vez de depender de um programa corporativo ou de uma ação localizada, a solução passa a enfrentar a rotina de contratação, coleta e atendimento de uma operação voltada ao consumidor.

O piloto em Goiás produziu um caso concreto para a expansão

O principal caso divulgado pela empresa veio de um piloto com trabalhadores rurais realizado pelo SENAR em Goiás. A operação ocorreu entre setembro de 2025 e maio de 2026, em quatro municípios, e alcançou 2.058 rastreamentos. Segundo o relato de Boelcke, 75 casos de câncer de pele foram confirmados por biópsia.

O dado mais importante desse caso está no perfil dos participantes. Eles não estavam necessariamente procurando atendimento nem apresentavam uma queixa que os levasse espontaneamente ao dermatologista. A triagem serviu para colocar uma avaliação no caminho de pessoas que poderiam continuar sem investigação.

A empresa divulgou assertividade de até 95% em sua comunicação, enquanto Boelcke detalhou 93% no piloto de campo contra o padrão de referência. A diferença entre os dois números precisa aparecer na leitura da matéria: são medidas apresentadas em contextos diferentes, e nenhuma delas equivale à garantia de que todo resultado individual estará correto.

Também foi divulgada uma estimativa de custo evitado de cerca de R$ 31 milhões. O cálculo considera aproximadamente R$ 147 mil por paciente de alto risco tratado a tempo. Fazendo a conta com os próprios parâmetros apresentados, 75 pacientes multiplicados por R$ 147 mil chegam a R$ 11.025.000, não a R$ 31 milhões. Isso indica que a estimativa maior usa uma população ou premissas adicionais que não estão detalhadas no material público consultado. O número, portanto, deve ser tratado como projeção da empresa, não como economia comprovada no piloto.

Essa diferença é precisamente o tipo de detalhe que separa um resultado promissor de uma conclusão exagerada. Os 2.058 rastreamentos, os 75 casos confirmados e o índice de 93% descrevem uma experiência específica. Eles ainda não demonstram o desempenho do serviço em todos os clientes do Sabin, em todas as condições de iluminação ou em todos os tipos de lesão.

A base de imagens tenta enfrentar um viés conhecido da dermatologia digital

Boelcke afirma que a AI Pathology mapeou os 30 principais conjuntos públicos de dados de dermatologia. Segundo ele, fototipos V e VI da escala de Fitzpatrick, os mais escuros, representam 5,8% das imagens desse conjunto, enquanto uma linha de base global de consultas dermatológicas citada pela empresa chega a cerca de 43,8%.

A comparação aponta um risco técnico: um modelo treinado com pouca representação de pele escura pode apresentar desempenho desigual quando encontra pacientes fora do perfil dominante de sua base. O problema pode aparecer como falso negativo, quando uma lesão relevante recebe baixa prioridade, ou como falso positivo, quando o sistema encaminha casos sem necessidade proporcional.

A empresa diz que a base do Nevo reúne cerca de 1 milhão de imagens coletadas no Brasil, em cinco regiões, incluindo a Amazônia, e cobre os fototipos I a VI. A companhia também compara esse volume com a soma de 1.145.893 imagens nos 30 maiores conjuntos públicos citados por Boelcke.

O tamanho da base é um indicador, não uma validação completa. Para avaliar segurança, seria necessário conhecer a distribuição das imagens, a qualidade das etiquetas, a separação entre treino e teste, a quantidade de pacientes únicos, os critérios de inclusão e o desempenho por fototipo. Também seria necessário acompanhar o comportamento do modelo em operação real, com resultados médicos posteriores.

O ponto positivo da proposta é colocar a diversidade da população dentro do problema de engenharia. O ponto que continua em aberto é a publicação independente dos dados de validação. O Times Brasil registrou que a empresa preparava artigos científicos, mas que os dados ainda não estavam divulgados em estudo revisado por pares na data da reportagem.

O médico continua responsável pela decisão clínica

Rafael Jácomo, médico e diretor técnico do Grupo Sabin, afirma que o Nevo não substitui o julgamento médico. Todas as análises passam por um dermatologista, responsável pela orientação final. Boelcke reforça que a ferramenta faz triagem, não diagnóstico, e que o diagnóstico de câncer de pele depende do médico, de laudo e de exame histopatológico.

Essa distinção define o que o serviço pode e não pode oferecer. A inteligência artificial pode ajudar a ordenar a urgência e diminuir o intervalo até uma conversa com especialista. Ela não deve ser usada para autorizar o paciente a ignorar uma lesão que mudou, sangrou, coçou ou não cicatrizou. Uma avaliação remota também não elimina a necessidade de exame físico ou de confirmação laboratorial quando o médico julgar necessário.

Há ainda uma etapa regulatória. A AI Pathology informou que está em fase final de registro do Nevo na Anvisa e busca validar o modelo nos Estados Unidos sob o padrão da FDA. O status regulatório é relevante porque software usado em decisões de saúde precisa demonstrar requisitos de segurança, desempenho e controle compatíveis com sua finalidade.

Brasília funciona como laboratório operacional antes de uma expansão maior

A escolha de Brasília tem uma razão prática. A capital é sede do Grupo Sabin e concentra uma parte importante da estratégia e da base de clientes da empresa. Em uma operação ainda em construção, testar o fluxo perto da estrutura de decisão pode acelerar ajustes na coleta, no agendamento e na resposta aos resultados.

O Sabin também já desenvolvia um portfólio de testes digitais. Segundo Jácomo, o primeiro produto disponibilizado foi o Biologix, desenvolvido por uma startup investida pelo fundo de venture capital Kórtex. A integração futura do Nevo a Rita Saúde e Amparo Saúde está nos planos, mas a empresa não apresentou uma meta fechada de expansão.

Essa cautela é coerente com a natureza do lançamento. A expansão não depende apenas de instalar o software. Cada cidade precisa de equipe para coletar imagens, dermatologistas disponíveis para teleconsulta, regras de proteção de dados, suporte ao paciente e caminho para encaminhar quem precisa de atendimento presencial.

O Grupo Sabin informa ter 7.500 colaboradores, presença em 14 estados e no Distrito Federal, atuação em 78 cidades e 366 unidades. Esses números mostram o potencial de distribuição da rede, mas não significam que o Nevo já esteja disponível em todo esse território. Por enquanto, o serviço começa em Brasília e depende dos resultados dessa primeira operação.

O leitor deve tratar a triagem como porta de entrada, não como resposta final

Para quem considera contratar o serviço, o passo prático é registrar a evolução da lesão antes da coleta. Fotografe a pinta ou mancha em boa luz, anote quando percebeu a mudança e reúna informações sobre sangramento, coceira, dor ou alteração de tamanho. Leve esse histórico para a equipe e para o dermatologista, sem usar a imagem caseira como substituta do exame profissional.

Também vale confirmar quatro pontos antes da contratação: quantas lesões serão avaliadas, como o resultado será entregue, em quanto tempo a teleconsulta será acionada quando houver suspeita e qual será o encaminhamento se o dermatologista indicar exame presencial ou biópsia.

Esse procedimento transforma a tecnologia em uma ferramenta de cuidado mais responsável. O ganho potencial não vem de uma porcentagem isolada de acurácia, mas da combinação entre identificação, contato médico e continuidade. Se uma dessas etapas falhar, a fotografia pode apenas produzir mais uma informação sem cuidado efetivo.

O Nevo chega ao Sabin com um caso de uso concreto, uma base brasileira e uma tese clara sobre acesso. Ainda precisa acumular validação externa, publicar dados completos e provar que o fluxo funciona fora do piloto. A expansão poderá ser relevante se mantiver o médico no centro da decisão e medir resultados reais, inclusive os casos que a tecnologia não conseguiu priorizar.

Fontes consultadas

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