O que faz um AI Strategist e quais habilidades estão por trás dessa nova carreira em IA

Quando uma empresa decide investir em inteligência artificial, a primeira pergunta não deveria ser "qual ferramenta comprar". Antes disso, é preciso responder a questões mais básicas: qual problema queremos resolver, qual projeto entra primeiro e...

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O que faz um AI Strategist e quais habilidades estão por trás dessa nova carreira em IA
Cena de trabalho relacionada a Tecnologia e Inovação

O AI Strategist ganhou espaço porque a adoção de inteligência artificial deixou de ser uma conversa restrita ao departamento de tecnologia e passou a exigir decisões de negócio. A empresa precisa escolher problemas com potencial de retorno, ordenar projetos, definir limites para o uso de dados e fazer equipes diferentes trabalharem na mesma direção. A função responde a esse vazio de coordenação. Seu valor está menos em conhecer uma ferramenta específica e mais em transformar capacidade técnica em prioridade mensurável.

Essa mudança já aparece em três sinais concretos. O World Economic Forum projeta que 39% das competências atuais dos trabalhadores serão transformadas ou ficarão desatualizadas entre 2025 e 2030. Um estudo do IBM Institute for Business Value ouviu 3.000 CEOs em mais de 30 países e encontrou 51% dizendo que contratavam para funções de IA generativa que não existiam no ano anterior. E uma vaga da Kunumi, no Brasil, apresenta o AI Strategist como uma posição aberta, ainda sem uma definição única no mercado.

O cargo, portanto, não deve ser tratado como uma nova etiqueta para quem escreve bons comandos em um chatbot. Ele combina estratégia, análise de processos, fluência tecnológica, gestão de projetos e comunicação executiva. A pessoa que ocupa essa função ajuda a responder onde a IA pode gerar valor, qual caminho é viável e quais controles precisam existir antes de colocar uma solução em produção.

O AI Strategist transforma possibilidades técnicas em decisões de negócio

O trabalho começa antes da escolha do modelo, do fornecedor ou da plataforma. O estrategista investiga um problema operacional, estima o impacto financeiro e identifica as restrições de dados, segurança, legislação e capacidade interna. Depois, organiza as alternativas em uma sequência de iniciativas. O resultado esperado é uma agenda que permita comparar custo, risco, prazo, qualidade e retorno.

Em uma operação de atendimento, por exemplo, a equipe pode considerar um assistente para responder dúvidas frequentes, uma ferramenta para classificar solicitações ou uma automação para preencher registros. Cada alternativa exige dados, integração, revisão humana e indicadores diferentes. A decisão não pode depender da demonstração mais impressionante. Ela precisa considerar volume de atendimentos, taxa de erro aceitável, custo por interação, tempo de implementação e efeito sobre a experiência do cliente.

O AI Strategist também define quem participa da decisão. Tecnologia pode cuidar da arquitetura, operações pode explicar o fluxo real, jurídico pode avaliar obrigações, segurança pode limitar acessos e finanças pode testar a viabilidade econômica. Sem essa composição, o projeto tende a nascer isolado e encontrar resistência na hora de mudar a rotina.

O mercado já mostra que a função ultrapassou a descrição genérica

A página de carreiras da Kunumi lista uma vaga de AI Strategist no Brasil. A própria empresa descreve uma cultura baseada em colaboração interdisciplinar e pesquisa em inteligência artificial, contexto que ajuda a entender por que o título aparece em uma organização que atua na fronteira entre pesquisa e aplicação. A vaga não prova que exista uma descrição padronizada para todo o mercado. Ela prova que empresas brasileiras já usam o nome para buscar essa combinação de visão estratégica e conhecimento de tecnologia.

O mesmo título pode aparecer em áreas diferentes. Uma companhia pode colocar a função dentro de estratégia e inovação. Outra pode vinculá-la a produto, transformação digital, consultoria ou operações. Em alguns casos, o profissional conduz diagnóstico e roadmap. Em outros, acompanha a implantação junto do cliente. Por isso, quem procura a carreira deve ler as responsabilidades da vaga, e não decidir com base no título.

Uma vaga brasileira da CI&T para Data & AI Strategist, por exemplo, destaca adoção organizacional, alfabetização em dados, alinhamento de partes interessadas, gestão de relacionamento e identificação de novos produtos de dados. Esses itens mostram uma fronteira importante: o estrategista não entrega somente uma análise. Ele precisa fazer a organização absorver a mudança e conectar o trabalho a um resultado comercial ou operacional.

O caso do DBS mostra por que estratégia precisa acompanhar a execução

O DBS, banco com sede em Singapura, oferece um caso concreto de escala. Em comunicado publicado em setembro de 2024, a instituição informou que já utilizava mais de 800 modelos de IA em 350 casos de uso e estimava impacto econômico mensurado superior a 1 bilhão de dólares de Singapura em 2025. A informação foi divulgada pelo próprio banco ao apresentar um estudo de caso da Harvard Business School sobre sua estratégia de IA.

Esse exemplo ajuda a separar um projeto isolado de uma capacidade organizacional. O número de modelos, sozinho, não mostra qualidade. O que importa é a combinação entre portfólio de casos de uso, infraestrutura, governança, avaliação de resultados e continuidade da operação. Uma empresa pequena não precisa copiar a escala do DBS, mas pode copiar a lógica: manter uma visão do conjunto e decidir quais iniciativas merecem recursos.

Há uma conta simples que ajuda a dimensionar o caso. Se 800 modelos atendem 350 casos de uso, a razão é de aproximadamente 2,3 modelos por caso. Isso não significa que cada caso tenha exatamente essa quantidade, pois o banco não publicou essa distribuição. A conta apenas indica que uma estratégia madura costuma envolver camadas técnicas diferentes para atender processos distintos. Comprar uma única ferramenta e esperar que ela resolva toda a operação não segue essa lógica.

Para o AI Strategist, o aprendizado é direto. Cada caso de uso precisa ter dono, objetivo, métrica, fonte de dados, critério de qualidade e caminho de expansão. A função também deve identificar quando um piloto não merece avançar. Encerrar uma iniciativa sem resultado pode proteger orçamento e evitar que uma solução instável se espalhe pela empresa.

Mulher apresenta gráficos em uma tela para colegas de trabalho em sala de reunião.

Os dados do IBM Institute mostram que adoção depende de pessoas

O estudo do IBM Institute for Business Value traz uma medida importante para a carreira. Entre os 3.000 CEOs entrevistados, 64% disseram que o sucesso da IA generativa dependeria mais da adoção pelas pessoas do que da tecnologia. Ao mesmo tempo, 61% afirmaram pressionar a organização a avançar mais rapidamente do que alguns funcionários consideravam confortável. A diferença entre ambição executiva e capacidade de absorção cria um problema de liderança.

O levantamento também registra que 56% dos CEOs ainda não haviam avaliado o impacto da IA generativa sobre os empregados, enquanto 35% estimavam que sua força de trabalho precisaria de requalificação ou atualização nos três anos seguintes. Esses números mudam o escopo do AI Strategist. A pergunta deixa de ser somente qual ferramenta implantar e passa a incluir quem será afetado, quem precisa aprender, quais tarefas mudarão e como a empresa vai acompanhar a transição.

O estrategista participa dessa ponte ao definir treinamento por função, organizar testes controlados e criar canais para registrar falhas e sugestões. Uma solução pode funcionar tecnicamente e fracassar porque o usuário não confia na resposta, não entende quando revisar o resultado ou não recebe tempo para aprender o novo fluxo. A adoção precisa aparecer como indicador do projeto, ao lado de produtividade, qualidade, receita ou redução de custo.

O World Economic Forum coloca IA ao lado de pensamento analítico

O Future of Jobs Report 2025, publicado pelo World Economic Forum, aponta inteligência artificial e big data, redes e segurança cibernética e alfabetização tecnológica como as três categorias de competências com crescimento mais rápido até 2030. O relatório também mantém o pensamento analítico entre as habilidades centrais mais procuradas pelos empregadores. A combinação explica o perfil do AI Strategist: compreender a tecnologia sem abandonar a análise de causa, evidência e consequência.

O documento foi construído a partir das respostas de mais de 1.000 empregadores, que representam mais de 14 milhões de trabalhadores em 55 economias. A pesquisa estima 170 milhões de novos postos e o deslocamento de 92 milhões entre 2025 e 2030, com crescimento líquido de 78 milhões. São projeções globais, não uma previsão específica para o Brasil ou para o cargo de AI Strategist. Ainda assim, ajudam a mostrar por que a habilidade de conectar sistemas, pessoas e decisões ganhou importância.

O relatório informa também que 63% dos empregadores veem a lacuna de competências como uma barreira relevante à transformação. A consequência para as empresas é prática: contratar especialistas pode ser necessário, mas desenvolver pessoas que já conhecem os processos também pode reduzir o tempo entre diagnóstico e aplicação. Um AI Strategist que entende o negócio consegue identificar quais conhecimentos internos devem entrar no projeto e onde será preciso buscar apoio externo.

A McKinsey indica que a vantagem está no processo de decisão

Uma análise da McKinsey sobre IA no desenvolvimento de estratégias descreve usos para pesquisa, geração de insights, simulação, comunicação e identificação de riscos. O texto apresenta o caso de um banco regional do Sudeste Asiático que usou um modelo para analisar contexto de negócio e tendências da indústria, gerando relatórios interativos para orientar a pesquisa seguinte. A tecnologia acelerou a exploração, mas não eliminou a necessidade de síntese executiva.

A consultoria também alerta que modelos de IA interpretam dados existentes e não criam sinais novos por conta própria. Essa limitação é central para o cargo. Se o estrategista usa somente informações públicas e pede um plano genérico, pode produzir uma resposta bem escrita sem vantagem competitiva. A qualidade aparece quando ele combina dados próprios, observação de clientes, conhecimento de operação e hipóteses que possam ser testadas.

O AI Strategist precisa, portanto, saber perguntar e também contestar. Deve investigar a origem de um indicador, testar uma conclusão contra dados diferentes e registrar incertezas. A ferramenta pode resumir relatórios e comparar cenários, mas a decisão sobre fechar uma fábrica, alterar preço, automatizar uma etapa sensível ou mudar uma política exige responsabilidade humana e conhecimento do contexto.

A carreira exige cinco blocos de competência

O primeiro bloco é a fluência em IA. Não significa treinar modelos do zero. Significa compreender o que modelos generativos, automações, agentes, busca com contexto e análise preditiva conseguem fazer, onde falham e que tipo de dado cada solução exige.

O segundo é visão de negócio. O profissional precisa relacionar uma iniciativa a margem, receita, custo, produtividade, risco ou experiência do cliente. Uma proposta sem indicador de resultado não permite decidir se o investimento deve continuar.

O terceiro é análise de processos. Antes de automatizar, é necessário entender entradas, exceções, retrabalho, aprovações e pontos de controle. Muitos projetos falham porque tentam acelerar um fluxo mal desenhado.

O quarto é coordenação. A função envolve tecnologia, operações, finanças, jurídico, segurança, recursos humanos e liderança. O estrategista precisa registrar responsabilidades, prazos, dependências e critérios de aceite.

O quinto é comunicação. A mesma iniciativa deve ser explicada com detalhes técnicos para uma equipe de desenvolvimento e com impacto econômico para uma diretoria. Traduzir sem distorcer é parte do trabalho, assim como comunicar limites e riscos.

O dono de negócio pode testar a lógica na próxima segunda-feira

O primeiro passo é escolher um processo repetitivo que tenha volume e dono claro. Em uma folha, registre quantas vezes o processo ocorre por semana, quanto tempo consome, qual erro aparece com mais frequência e qual etapa depende de julgamento humano. Sem essa fotografia inicial, qualquer promessa de ganho será uma impressão.

O segundo passo é selecionar uma única hipótese. Em vez de implantar IA na empresa inteira, escreva algo verificável, como reduzir o tempo de classificação de solicitações sem elevar a taxa de erro. Defina um período de teste, um grupo responsável e um limite de risco. Se dados de clientes forem usados, estabeleça previamente quais informações podem entrar na ferramenta.

O terceiro passo é comparar três caminhos: manter o processo, automatizar uma parte ou adotar uma solução mais ampla. Para cada caminho, estime custo, prazo, necessidade de treinamento e resultado esperado. A comparação evita que a empresa confunda novidade com prioridade.

O quarto passo é criar uma regra de revisão humana. O teste deve indicar quando uma pessoa confere a saída, como um erro é corrigido e quem pode interromper a automação. Registre as respostas em uma planilha simples e faça uma reunião ao fim da primeira semana. O objetivo não é provar que a IA funciona em qualquer situação. É descobrir se aquele caso merece uma próxima etapa.

Esse método já aproxima o dono de negócio do raciocínio de um AI Strategist. A empresa começa pelo problema, mede o ponto de partida, testa uma hipótese, limita o risco e decide com evidência. Se o piloto gerar resultado, o próximo trabalho será documentar o fluxo e preparar a escala. Se não gerar, o aprendizado evita um gasto maior.

Fontes consultadas

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Silvio Cabral Jr

empreendedor na área de tecnologia, com atuação no desenvolvimento de produtos digitais, inovação e segurança da informação. Ao longo da sua trajetória, tem se dedicado a criar soluções que resolvem problemas reais, conectando tecnologia, mercado e comportamento. É fundador de diversas startups , onde desenvolve projetos que utilizam inteligência artificial e novas tecnologias para gerar impacto prático na vida das pessoas.

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