IA saiu do laboratório e entrou na operação: como empresas brasileiras passaram do teste ao resultado

70% das empresas reorganizaram áreas ou times por causa da inteligência artificial nos últimos 12 meses. 84% pretendem ampliar o investimento no ano que vem. Os números são da pesquisa "Inteligência Artificial nas Scale-Ups Brasileiras", da...

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IA saiu do laboratório e entrou na operação: como empresas brasileiras passaram do teste ao resultado
IA saiu do laboratório e entrou na operação: como empresas brasileiras passaram do teste ao resultado

Metade das scale-ups brasileiras está aumentando a aposta em inteligência artificial sem saber quanto essa aposta rende. É o que mostra o estudo "Inteligência Artificial nas Scale-Ups Brasileiras", publicado pela Endeavor em agosto de 2026 com respostas de 133 empreendedores de 125 empresas: 84% pretendem elevar o investimento em IA nos próximos 12 meses, mas 51% não têm nenhuma métrica de negócio atrelada à tecnologia. A tese que os dados sustentam é incômoda: o gargalo da IA no Brasil deixou de ser técnico e virou de gestão. Quem mede, ganha; quem investe no escuro, patina.

O levantamento ouviu fundadores e presidentes de empresas em escala, com algum grau de base tecnológica, e cruzou o questionário com 10 entrevistas e mais de 90 mentorias da rede Endeavor. O Índice de Percepção de adoção de IA calculado pelo estudo ficou em 6,0 numa escala de 0 a 10. O recorte completo foi detalhado pela Exame e apresentado no Startup Summit, com cobertura do portal Startups.

Metade do mercado investe sem medir o retorno

O desencontro entre ambição e controle aparece nos números centrais do estudo. Nos últimos 12 meses, 70% das empresas reorganizaram áreas ou times por causa da IA, e 76% reduziram contratações ou mantiveram o quadro estável em função da tecnologia. Ao mesmo tempo, só 49% possuem alguma métrica de negócio atrelada à IA. Dos 84% que planejam investir mais, 37% pretendem mais que dobrar o aporte atual, 10% querem manter o nível e apenas 1% fala em reduzir.

A percepção de resultado econômico segue modesta. Apenas 40% dos empreendedores relatam melhora na satisfação e retenção de clientes, 29% percebem impacto em margem ou EBITDA e 25% em receita. O efeito aparece primeiro na camada de eficiência operacional, e a maioria ainda amadurece a operação antes de sentir efeito em indicadores financeiros.

A partir de 5% da receita investida, a empresa sai do modo teste

O cruzamento entre faixa de investimento e percepção de resultado é o gráfico mais revelador do PDF. Entre as companhias que destinam menos de 1% da receita anual à IA, só 9% percebem aumento de receita. Na faixa de 3% a 5%, o índice sobe para 33%. Entre as que investem mais de 20% da receita, chega a 62%.

A conta que o estudo permite fazer, e não faz: a diferença entre o piso e o teto é de 53 pontos percentuais, uma razão de quase 7 vezes na probabilidade de enxergar ganho de receita. Há um ponto de inflexão visível. A partir de 5% da receita anual investida em IA, mais da metade das empresas passa a ter pelo menos uma métrica de negócio atrelada à tecnologia. Na faixa de 5% a 10%, 62% já medem; abaixo de 1% da receita, apenas 32% medem alguma coisa. Investimento baixo demais não compra nem resultado nem aprendizado mensurável.

Trabalhador com capacete amarelo e tablet aponta para caminhão em pátio industrial.

Empresas menores pontuam mais que as grandes

O índice médio de adoção é maior nas companhias enxutas. Empresas com receita de até R$ 30 milhões alcançam média de 6,3 no índice do estudo, contra 5,3 das que faturam acima de R$ 300 milhões. Companhias fundadas nos últimos 5 anos também se destacam na centralidade da IA no negócio, enquanto o principal obstáculo das empresas com mais de 15 anos é disseminar o uso dentro da organização.

A explicação dos autores do estudo é estrutural: companhias jovens redesenham produto e processo do zero; companhias antigas precisam encaixar a tecnologia em sistemas, integrações e rotinas construídos ao longo de anos. Para o dono de pequena empresa, o recado inverte o senso comum: o tamanho, aqui, é vantagem.

Ypê, Livelo e Positivo mostram o padrão: processo específico, dado estruturado

Os casos práticos reunidos no estudo seguem o mesmo desenho. Nenhum nasceu como chatbot genérico. Na Ypê, caminhões autônomos de Nível 4, desenvolvidos com a startup Lume Robotics e a Mercedes-Benz, operam no Centro de Distribuição 4.0 em Amparo (SP). Segundo o site oficial da companhia, o CD recebeu investimento de R$ 300 milhões e concentra 77 robôs; os caminhões autônomos ligam as fábricas ao centro de distribuição em menos de cinco minutos. Na Ultracargo, big data e simulações digitais embasam decisões de investimento, e uma solução contra corrosão em sistemas de ácido fosfórico tem potencial de cortar mais de 50% dos custos de manutenção corretiva. Na Unipar, a IA otimiza fornos de pirólise e antecipa interrupções na eletrólise.

Na ponta do cliente, a Livelo lançou em março de 2025 o Expert Livelo, assistente de IA generativa que monta estratégias de acúmulo de pontos para viagens. O release oficial da empresa informa que a ferramenta atende uma base de mais de 50 milhões de participantes e foi criada para reduzir a menos da metade o tempo até a próxima viagem do cliente. Em 2026, a ferramenta registrou alta de 138% em novos usuários e cerca de 40 mil planos de viagem estruturados; no Shopping Livelo, 22 agentes de IA integrados alcançam 98% de acurácia nas buscas.

Na Positivo Tecnologia, a assistente de service desk Pietra acumulou 318 mil interações no setor de seguros, dentro de um programa de 123 iniciativas de IA em produção que economizou mais de 42 mil horas por ano. A página de IA da Positivo S+ detalha números da linha de assistentes virtuais da companhia: mais de 475 mil interações e 76% dos chamados resolvidos sem interação humana. Na Autopass, operadora do bilhete TOP em São Paulo, cerca de 1,3 milhão de transações com cartões de gratuidade passaram por verificação de biometria facial desde maio, cruzando passageiro e titular do benefício, conforme a documentação oficial do serviço.

A IA desce do CEO para a base a passo lento

A adoção dentro das empresas é desigual por hierarquia e por área. Em 67% das companhias há alta adoção de IA entre as lideranças, índice que cai para 49% na gerência média e 33% na base. Por departamento, produto e engenharia lideram com 77% de automação, seguidos por atendimento e suporte (57%). Jurídico e recursos humanos aparecem com 10% cada.

A estrutura de responsabilidade muda o resultado. Em 26% das empresas há especialistas espalhados pelas áreas, e outros 26% têm uma pessoa liderando formalmente. Entre as companhias com um time formal de IA, 43% percebem ganho de receita; entre as que não definiram responsável, o índice cai para 27%. Em 12% das empresas, ninguém responde por IA.

O Brasil mede pior que a média global

O estudo compara o recorte brasileiro com dados globais: no mundo, apenas 39% das organizações atribuem algum impacto em EBIT à inteligência artificial, e a maioria estima contribuição inferior a 5% do resultado. No recorte das scale-ups brasileiras, 29% percebem impacto em margem ou EBITDA.

Cruzando os dois números que o próprio PDF coloca lado a lado, o grupo brasileiro fica 10 pontos percentuais abaixo da referência global de impacto atribuído ao resultado financeiro. A leitura mais provável é metodológica e comportamental ao mesmo tempo: com metade das empresas sem métrica nenhuma, parte do ganho existente simplesmente não é registrada.

O que fazer na segunda-feira

O estudo sugere um caminho objetivo para quem opera uma empresa menor e quer sair da estatística dos 51%:

  • Nomeie um responsável formal. A diferença entre ter e não ter dono para a IA aparece como 43% contra 27% de percepção de ganho de receita. Pode ser uma pessoa, não um departamento.
  • Defina uma métrica de negócio antes de ampliar o orçamento. Na fase de exploração, o estudo recomenda medir tração: agentes criados, tempo do piloto até a primeira versão em produção, tempo de ciclo por processo. Na fase madura, migrar para receita por colaborador, margem bruta, ROI por caso de uso, conversão e churn.
  • Comece pelo core, não pela periferia. Projetos centrais mobilizam a liderança e mudam a percepção da organização; projetos laterais recebem pouca atenção e morrem sem leitura.
  • Trate dados como obra anterior à IA. "Dados não integrados" é a barreira mais citada, por 30% dos empreendedores, seguida por falta de talento (29%) e qualidade dos outputs (25%). O estudo é direto: classificar a infraestrutura digital como gasto de IA distorce o orçamento e atrasa o retorno.
  • Fixe o investimento como percentual da receita. A régua do estudo mostra que abaixo de 1% a chance de perceber ganho é de 9%; o ponto de virada de mensuração aparece a partir de 5%.
  • Aplique o teste do desaparecimento. Pergunta sugerida pelo mentor Euro Beinat, da Prosus, no estudo: se o agente sumisse hoje, o que aconteceria com receita, custo ou operação? Se a resposta for "nada", o projeto é conveniência, não infraestrutura.

Fontes consultadas

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Silvio Cabral Jr

empreendedor na área de tecnologia, com atuação no desenvolvimento de produtos digitais, inovação e segurança da informação. Ao longo da sua trajetória, tem se dedicado a criar soluções que resolvem problemas reais, conectando tecnologia, mercado e comportamento. É fundador de diversas startups , onde desenvolve projetos que utilizam inteligência artificial e novas tecnologias para gerar impacto prático na vida das pessoas.

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