Um em cada sete jovens está fora do mercado: e a porta de entrada é mais estreita do que parece
O número dói na primeira leitura e dói mais na segunda: enquanto o desemprego geral do Brasil caiu para 6,1% no primeiro trimestre de 2026, entre os jovens de 18 a 24 anos a taxa chegou a 13,8% — mais que o dobro da média do país, segundo a Pnad...
A porta de entrada do mercado de trabalho brasileiro não está fechada por falta de vaga. Está fechada por falta de mecanismo de entrada, e o mecanismo existe, tem 25 anos, é obrigatório por lei e segue parcialmente ocioso. Os números cruzados desta reportagem mostram um desenho preciso do problema: os jovens de 18 a 24 anos representam 12,1% da população em idade de trabalhar, mas concentram 30,6% de todos os desempregados do país, segundo os microdados da Pnad Contínua do IBGE referentes ao primeiro trimestre de 2026. Estão sobrerrepresentados no desemprego duas vezes e meia em relação ao peso que têm na força de trabalho. A taxa de desocupação geral caiu para 6,1% no trimestre. Entre eles, parou em 13,8%, mais que o dobro da média nacional. Quase um em cada sete jovens procura trabalho e não encontra.
O obstáculo mais citado pelos próprios jovens é a exigência de experiência prévia, que ninguém oferece espaço para construir. Para trabalhar, é preciso experiência. Para ter experiência, é preciso trabalhar. A reportagem foi atrás de quem já destravou esse ciclo, dos dados de quem fiscaliza a principal ferramenta legal de primeira oportunidade e da conta que todo empresário deveria fazer antes de reclamar que "não acha gente".

Jovens são 12% da força de trabalho e 31% dos desempregados
O release trimestral do IBGE, publicado em 14 de maio de 2026, detalha o retrato. A taxa de desocupação de 6,1% subiu 1,0 ponto percentual frente ao quarto trimestre de 2025, pressionada pelo fim dos contratos temporários de fim de ano, mas recuou 0,9 ponto ante o mesmo período de 2025. A taxa composta de subutilização, que soma desocupados, subocupados e força de trabalho potencial, ficou em 14,3%. A informalidade atingiu 37,3% dos ocupados.
Dentro desse retrato, a faixa de 18 a 24 anos aparece em posição desproporcional. O volume de indicadores do IBGE mostra que esse grupo é 12,1% da população em idade de trabalhar e 30,6% das pessoas desocupadas. A divisão entre os dois percentuais dá 2,5: cada vaga de desemprego no país tem duas vezes e meia mais chance de pertencer a um jovem do que o tamanho do grupo justificaria. A informalidade nessa faixa ultrapassa 45%, contra 37,3% da média nacional, segundo levantamento reportado pela Exame a partir dos dados do IBGE.
O padrão se repete há anos. Em 2025, a desocupação entre os jovens de 18 a 24 anos foi de 11,4%, a menor da série histórica até então, e ainda assim quase o dobro da taxa dos adultos. A melhora do mercado como um todo existe. A distância entre quem entra e quem já está dentro persiste.
A exigência de experiência virou a porta mais estreita
Um estudo da consultoria MindMiners, divulgado em junho de 2026 e repercutido pela Federação das Indústrias de Santa Catarina, dá voz ao outro lado do balcão. Entre os integrantes da geração Z, de 18 a 28 anos, 59% avaliam o mercado de trabalho atual como pouco ou nada favorável. Os entraves apontados, em ordem, são baixos salários (48%), exigência de experiência prévia (39%), alta concorrência por vagas (35%) e falta de contatos profissionais (32%).
Três dos quatro obstáculos são barreiras de acesso, e não de competência. O mesmo levantamento mostra que 52% desses jovens ainda moram com os pais e que 80% consideram indispensável investir em educação para construir o futuro profissional. A diretora de Excelência do Cliente e Expansão da MindMiners, Rosana Camilotti, resume o desencontro: "Existe uma sensação de desalinhamento entre o que o mercado exige e o que ele oferece. Mesmo com qualificação, muitos jovens encontram dificuldade para acessar boas oportunidades."
O problema aparece até entre os formados. Parte dos jovens qualificados não encontra no mercado formal condições de se sustentar e acaba empurrada para o trabalho informal ou plataformizado. O diploma sem experiência virou meia entrada.
A lei que abre a porta existe desde 2000 e três quartos do potencial ficam sem uso
A Lei 10.097, de 2000, conhecida como Lei da Aprendizagem, obriga empresas de médio e grande porte a destinar de 5% a 15% das vagas que exigem formação profissional a jovens aprendizes de 14 a 24 anos. O contrato tem prazo máximo de dois anos, jornada reduzida de até seis horas diárias, remuneração por hora, FGTS com alíquota de 2%, 13º salário, vale-transporte e férias. A formação teórica fica por conta de instituições credenciadas, como Senac, Senai e CIEE, sem custo para a empresa.
Um relatório do Banco Mundial sobre o mercado de trabalho brasileiro, citado pela Exame, aponta que as empresas contrataram até agora apenas 23% do número potencial de aprendizes previsto na lei. Um estudo acadêmico publicado na Brazilian Review of Econometrics, da FGV, mede o cumprimento da cota pela raiz: entre os empregadores obrigados, o percentual que de fato contratou aprendizes foi de 2,42% em 2006 para 26,61% em 2019. Melhorou dez vezes em treze anos e continua abaixo de um terço. A mesma pesquisa de campo internacional aponta que quem passa por qualificação estruturada tem taxa de permanência no emprego até três vezes maior do que quem entra sem acompanhamento.
Tradução direta: a ferramenta que resolveria o paradoxo da experiência existe, é fiscalizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego e permanece subutilizada por escolha, não por desenho.
710 mil aprendizes no Caged provam que a porta funciona quando alguém abre
Os dados do próprio governo mostram o que acontece quando a lei é aplicada. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o Brasil fechou setembro de 2025 com 710.875 contratos ativos de aprendizagem, o maior número da série histórica iniciada em janeiro de 2020, quando havia 454.972. Foi o sétimo recorde mensal consecutivo. No acumulado de janeiro a setembro, o saldo foi de 111.976 novos aprendizes, e o salário médio da modalidade chegou a R$ 920 em setembro, contra R$ 704 no início da série.
O Centro de Integração Empresa-Escola, o CIEE, maior intermediador desses contratos no país, registrou em seu relatório de atividades de 2025 a inserção de 73.085 jovens aprendizes no mercado em um único ano, por meio de 27.679 empresas parceiras. Desde a fundação, há 62 anos, a entidade já inseriu 7 milhões de brasileiros no mundo do trabalho.
Um dos 73 mil tem nome e trajeto documentado. Gabriel de Jesus Padilha entrou pelo Programa Jovem Aprendiz do CIEE, foi bolsista do programa Somos CIEE, avançou para o Programa de Estágio e terminou efetivado. "O Programa de Aprendizagem foi o primeiro passo para muitas conquistas que tive. Através dele aprendi muitas coisas sobre o mundo do trabalho, que usei tanto na faculdade como também no estágio. O programa me ajudou a ter uma ideia do que queria e de todo o meu potencial", relatou ele à instituição. O caso de Gabriel é o desenho da escada que o mercado diz não existir: aprendizagem, estágio, efetivação.
Metade das vagas formais criadas em setembro foi para jovens de 18 a 24 anos
Existe um segundo número que quase ninguém cruza. O sumário executivo do Novo Caged de setembro de 2025, publicado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, registra saldo de 213.002 postos formais criados no mês. Desses, 110.953 foram para trabalhadores de 18 a 24 anos. Faça a divisão: 52% de todas as vagas com carteira abertas no país em setembro foram ocupadas por essa faixa etária, a mesma que concentra 31% do desemprego.
O cruzamento desses dois dados, que nenhuma das fontes publicou junto, muda a leitura do problema. Quando a vaga é de entrada, com custo de formação absorvido e jornada compatível com estudo, o jovem entra em volume. O gargalo não está na disposição dele para trabalhar. Está no desenho das vagas que o mercado oferece: posições que pedem experiência para funções de entrada e filtram fora exatamente quem precisa da primeira chance. O mercado reclama que não acha gente enquanto mantém três quartos da cota legal de aprendizes sem uso.
O que fazer com isso na segunda-feira
Se você é dono de empresa com sete ou mais empregados em funções que exigem formação profissional, a obrigação legal já vale para você, e a fiscalização do MTE existe. O passo concreto é um telefonema ou cadastro no CIEE, no Senac ou no Senai da sua cidade. A entidade monta o contrato, cuida da parte teórica e acompanha o jovem. O custo direto fica perto de R$ 920 por mês, o salário médio da modalidade em setembro, com FGTS de 2% em vez dos 8% do contrato comum. Em troca, você forma alguém no seu processo, na sua cultura e no seu ritmo, com dados oficiais mostrando retenção até três vezes maior. Antes da próxima vaga de entrada que sua empresa abrir pedindo experiência, faça a conta: um aprendiz por semestre custa menos que um processo seletivo malfeito com rotatividade de três meses.
Se a sua empresa é menor que isso, a cota não se aplica, mas o mecanismo do estágio está aberto a qualquer porte, inclusive com apoio do Sebrae para estruturar o programa. E se você é o jovem na entrada do funil, o caminho documentado pelos dados é o de Gabriel: procurar o programa de aprendizagem da sua cidade antes de procurar a vaga, tratar o primeiro emprego como escola paga e transformar cada entrega em evidência. Um perfil com três projetos reais descritos, com número e resultado, vence dez linhas de "proativo e dedicado".
Treze vírgula oito por cento não é uma estatística de espera. É uma geração parada na frente de uma porta que tem chave, tem lei e tem 710 mil exemplos de que funciona. Quem abre primeiro, colhe primeiro.
Fontes consultadas
- IBGE, Agência de Notícias, PNAD Contínua Trimestral: desocupação sobe em 15 das 27 UFs no 1º trimestre de 2026
- IBGE, Indicadores PNAD Contínua Trimestral, volume do 1º trimestre de 2026 (PDF)
- Ministério do Trabalho e Emprego, recorde histórico de jovens aprendizes
- Ministério do Trabalho e Emprego, Sumário Executivo do Novo Caged, setembro de 2025 (PDF)
- Gov.br, regras de contratação de jovem aprendiz por porte de empresa
- CIEE, Relatório de Atividades 2025
- Brazilian Review of Econometrics (FGV), The effect of the Apprenticeship Law on the employment of young apprentices in Brazil
- FIESC, Maioria dos jovens vê mercado de trabalho como fechado e desafiador, aponta estudo MindMiners
- Exame, Falta de experiência trava a carreira de 1 em cada 7 jovens, mostram dados do mercado
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