Livro reúne trajetórias de mulheres e transforma liderança em legado
A publicação reúne relatos de 29 coautoras para discutir os desafios da liderança feminina e preservar experiências que normalmente ficam dispersas.
O livro “Mulheres na Liderança: Desafio de Legado” chega ao mercado com uma função que ultrapassa a celebração de 29 trajetórias: tornar visível uma rede de liderança feminina enquanto os dados ainda mostram que mulheres ocupam uma parcela pequena do poder econômico. A publicação da Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), lançada em 27 de agosto de 2026, registra experiências de dirigentes, mas também expõe uma questão prática para empresas e entidades: referências só mudam o acesso à liderança quando viram critério de contratação, sucessão, crédito e promoção.
O contraste aparece nos próprios números reunidos nesta apuração. Segundo a ABA, apenas 17,4% das empresas brasileiras com presidência formalizada eram lideradas por mulheres e elas ocupavam 17,1% das cadeiras em conselhos administrativos, conforme o Panorama Mulheres 2025. No empreendedorismo, o Sebrae registrou 10,4 milhões de donas de negócio em dezembro de 2025, mas elas representavam 34,3% dos donos de negócio. A presença cresce na base e continua estreita no topo.
O livro documenta uma rede que já reúne 40 mulheres
A obra foi lançada na Livraria Líder, em São Paulo, em evento com mais de 200 participantes. O livro celebra os três anos da Confraria das Mulheres Dirigentes de Entidades, criada em novembro de 2023 por Sandra Martinelli, CEO da ABA. A iniciativa reúne 40 mulheres que estão à frente de associações, sindicatos e entidades de classe.
A ABA informa que a publicação tem 29 capítulos escritos por integrantes da Confraria. As autoras compartilham desafios, escolhas e aprendizados ligados à carreira, à gestão associativa e à vida. Entre os nomes listados pela entidade estão Nelcina Tropardi, presidente da ABA e vice presidente do Carrefour; Sandra Martinelli, CEO da ABA; Marcia Esteves, presidente da ABAP; Andrea Weiss, CEO da ABOOH; e Patricia Blanco, presidente executiva do Instituto Palavra Aberta.
O detalhe relevante é a passagem de uma conversa restrita a uma rede para um registro consultável. Reuniões e mentorias podem produzir confiança entre participantes, mas desaparecem quando não deixam documentação. Um livro cria um ponto de entrada para outras profissionais, estudantes e empresas examinarem decisões que normalmente aparecem apenas em eventos fechados. O valor editorial está nessa memória organizada, desde que ela seja usada para discutir práticas e não somente para produzir imagens de celebração.
Sandra Martinelli explicou, no texto de lançamento da ABA, que a ideia era levar para além da Confraria experiências sobre o que existe por trás de uma posição de liderança. Nelcina Tropardi afirmou que a representatividade amplia referências e mostra que mulheres podem ocupar diferentes espaços de decisão. As duas falas sustentam a tese central da obra: a visibilidade de uma trajetória tem utilidade quando ajuda outra profissional a identificar um caminho possível e uma organização a reconhecer barreiras que antes pareciam naturais.
Os dados mostram uma distância entre participação e comando
O indicador citado pela ABA não descreve uma ausência total de mulheres nos negócios. Ele mostra uma concentração desigual. Se 17,4% das presidências formalizadas estão com mulheres, 82,6% continuam com homens. Nos conselhos, a proporção feminina de 17,1% também deixa 82,9% das cadeiras fora desse grupo. A conta é simples, mas muda a leitura da notícia: a questão não é somente quantas mulheres trabalham ou empreendem, e sim em quais pontos elas conseguem participar da decisão final.
O IBGE organiza as estatísticas de gênero em cinco domínios: estruturas econômicas e acesso a recursos, educação, saúde, vida pública e tomada de decisão, além de direitos humanos. A publicação reúne 38 indicadores e usa fontes como PNAD Contínua, Censo, registros administrativos e pesquisas de saúde. Essa estrutura é importante porque impede que liderança seja medida por um único retrato. Educação, renda, tempo de cuidado, participação pública e acesso a recursos formam uma cadeia.
O material do IBGE também registra uma correção metodológica em indicadores de participação feminina em posições de gestão. Isso é um lembrete útil para qualquer empresa que queira acompanhar sua própria evolução: a planilha precisa ter definição, período, população analisada e método. Um percentual sem essas informações pode parecer preciso e ainda assim comparar grupos diferentes.
A própria ABA descreve o cenário corporativo com base no Panorama Mulheres 2025. O número de 17,4% para presidências formalizadas e 17,1% para conselhos funciona como fotografia do topo empresarial. Já o Sebrae oferece outro ângulo, focado em pessoas à frente de negócios. As duas fontes não medem a mesma população, portanto não devem ser somadas. Juntas, elas mostram que a porta de entrada para empreender pode se abrir mais rapidamente que a porta de acesso a conselhos e presidências.
O empreendedorismo feminino avançou, mas a renda ainda fica atrás
O estudo do Sebrae, construído com dados trimestrais da PNAD Contínua, encontrou crescimento de 27% no empreendedorismo feminino em dez anos. O número de donas de negócio passou de 8,2 milhões em 2015 para 10,4 milhões em dezembro de 2025. Entre os homens empreendedores, o crescimento no período foi de aproximadamente 11%, com 19,9 milhões à frente de negócios no fim de 2025.
Há uma conta que ajuda a dimensionar o avanço sem transformá-lo em propaganda. O aumento absoluto entre as mulheres foi de 2,2 milhões de donas de negócio. Dividindo 2,2 milhões pelo ponto de partida de 8,2 milhões, chega-se a 26,8%, arredondamento compatível com os 27% informados pelo Sebrae. O crescimento, portanto, não representa somente uma impressão de expansão: ele corresponde a mais de dois milhões de mulheres no universo medido pelo estudo.
O avanço numérico convive com desigualdade de rendimento. Em dezembro de 2025, o rendimento médio das mulheres donas de negócio foi de R$ 2.929,94, contra R$ 3.864,12 entre os homens. Subtraindo os dois valores, a diferença média chega a R$ 934,18 por mês. Dividindo essa diferença pelo rendimento masculino, a distância calculada é de aproximadamente 24,2%, resultado que confirma o hiato de 24% informado pelo Sebrae.
O estudo também aponta que a diferença caiu 9,5 pontos percentuais entre 2012 e 2025. A redução é um sinal de melhora, mas não elimina o problema. Para quem administra um pequeno negócio, R$ 934,18 por mês pode significar estoque, contratação de serviço, parcela de crédito ou reserva de caixa. A discussão sobre liderança precisa incluir capacidade de investimento, porque uma empreendedora com menor rendimento tem menos margem para testar, contratar e crescer.
O perfil educacional mudou no mesmo período. A participação de mulheres donas de negócio com ensino superior incompleto ou mais aumentou 18,6 pontos percentuais entre 2012 e 2025, enquanto a faixa com ensino fundamental incompleto caiu 17,3 pontos. O Sebrae informa ainda que as mulheres com ensino superior ou mais superam os homens nesse recorte em 13 pontos percentuais. Escolaridade maior amplia repertório e acesso a informação, mas o dado de renda mostra que formação, sozinha, não distribui poder econômico.
Formalização e crédito definem quanto uma trajetória consegue crescer
Entre as mulheres donas de negócio, 37% possuíam CNPJ segundo o estudo do Sebrae. A proporção era quase quatro pontos percentuais superior à dos homens. A participação feminina na contribuição para a Previdência também era maior, 43% contra 39%. Esses dados indicam uma relação mais forte com a formalização e a proteção contributiva, mas não permitem concluir que todas as empreendedoras estejam em condições estáveis.
O crédito mostra a diferença entre estar formalizada e conseguir financiar uma expansão. O Sebrae informou que negócios liderados por mulheres acessaram R$ 734 milhões em crédito com garantia do Fampe em 2025. Esse é um caso concreto de política de acesso a recurso: há uma instituição identificada, um programa identificado, um período definido e um valor divulgado. O número não mede todo o crédito recebido por empreendedoras no país. Mede o montante acessado por meio da garantia mencionada pelo Sebrae.
Para a dona de negócio, a conexão entre crédito e liderança é direta. Uma empresa que não consegue financiar equipamento, estoque ou contratação permanece dependente do trabalho da própria proprietária. Isso limita a delegação, reduz tempo disponível para estratégia e torna a sucessão improvável. O livro da ABA fala de mulheres que dirigem entidades; os dados do Sebrae ajudam a perguntar quantas conseguem transformar a atividade que comandam em uma organização menos dependente de uma única pessoa.
A desigualdade também aparece na taxa de empreendedorismo. As mulheres eram 51,8% da população em idade ativa, mas correspondiam a 34,3% dos donos de negócio. A taxa de empreendedorismo feminina era de 11,5%, enquanto a masculina chegava a 23,6%. O dado não prova uma causa única. Ele mostra que a maioria populacional não se converte automaticamente em presença proporcional entre proprietários de negócios.
Referência só vira política quando a empresa mede sucessão
O Global Gender Gap Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, compara 148 economias em dimensões como participação econômica, educação, saúde e liderança política. O relatório informa que o índice global de paridade chegou a 68,8% dos gaps fechados em 2025 e alerta para barreiras persistentes na chegada de mulheres à liderança sênior. Em outra passagem, registra média de 42,9% de mulheres em posições de liderança econômica sênior na região analisada, com diferenças superiores a 32 pontos percentuais entre economias.
O dado global não substitui a fotografia brasileira da ABA nem a série nacional do Sebrae. Ele serve para colocar o caso em escala comparável. A presença de mulheres em posições de comando depende de um fluxo que começa na entrada, passa por remuneração e desenvolvimento, chega à promoção e termina em conselhos, presidências e sucessão. Se a empresa só mede a contratação, pode celebrar diversidade sem perceber a saída no meio do caminho.
É nesse ponto que um livro de trajetórias pode ter uso empresarial. Cada capítulo pode ser lido como material para uma conversa sobre decisão, negociação, rede de apoio e barreira institucional. A leitura deixa de ser decorativa quando a organização registra quais práticas aparecem nos relatos e cruza essas práticas com seus próprios indicadores. Quantas mulheres foram promovidas no último ciclo? Quantas receberam orçamento? Quantas foram incluídas na sucessão? Quantas deixaram a empresa antes de chegar à gerência?
A ABA informa que a Confraria reúne 40 mulheres e que 29 integrantes escreveram capítulos. Essa diferença de 11 pessoas não deve ser interpretada como falha ou como ausência de contribuição. A fonte não explica por que todas as integrantes não são autoras, então o dado precisa ficar no limite do que é possível afirmar: existe uma rede de 40 dirigentes e uma publicação com 29 coautoras. A precisão também é parte da representatividade.

O dono de negócio pode transformar a leitura em uma rotina na segunda-feira
A aplicação prática começa com uma planilha de uma página. Na segunda-feira, o dono ou dona do negócio deve listar, sem nomes expostos, quatro números dos últimos 12 meses: mulheres contratadas, mulheres promovidas, mulheres que deixaram a empresa e mulheres incluídas em projetos com orçamento ou responsabilidade de decisão. Depois, deve separar os dados por área e nível hierárquico.
O segundo passo é escolher um ponto de ação com prazo. Se houve contratação, mas nenhuma promoção, o gestor pode criar uma revisão trimestral de critérios de promoção e registrar quais competências faltam para cada profissional. Se há mulheres na operação, mas nenhuma no orçamento, pode delegar a uma delas a responsabilidade por uma verba definida, com objetivo e prestação de contas. Se a saída é concentrada entre mães ou cuidadoras, deve medir horários, reuniões e regras que dificultam a permanência, em vez de atribuir o problema à falta de ambição.
O terceiro passo é comparar o resultado com o dinheiro. Para uma empreendedora, isso significa registrar faturamento, rendimento, crédito aprovado, contribuição previdenciária e proporção de clientes recorrentes. O Sebrae oferece referências nacionais, mas o diagnóstico da empresa precisa usar seus próprios dados. A meta não deve ser uma frase genérica sobre inspiração. Deve ser algo verificável, como elevar a participação de mulheres em funções de decisão, reduzir uma diferença de rendimento ou acompanhar quantas receberam recursos para crescer.
Depois de 90 dias, a equipe deve revisar o que mudou e o que não mudou. O livro pode voltar à mesa nesse momento, com cada pessoa escolhendo um relato e relacionando-o a uma decisão tomada pela organização. Se a discussão termina em elogios às autoras, faltou a etapa de gestão. Se termina com um indicador, uma responsável e uma data de revisão, a memória ganhou consequência.
O legado precisa aparecer nos indicadores de poder
“Mulheres na Liderança: Desafio de Legado” tem um mérito específico: registra experiências de 29 mulheres ligadas a entidades brasileiras e coloca a representatividade no centro de uma conversa empresarial. A apuração amplia esse mérito ao mostrar o tamanho do trabalho restante. A ABA aponta baixa presença feminina em presidências e conselhos. O IBGE oferece uma base para acompanhar desigualdades de gênero em diferentes dimensões. O Sebrae mostra crescimento do empreendedorismo feminino, avanço educacional, diferença de renda e acesso a crédito. O Fórum Econômico Mundial ajuda a comparar a distância com outros países.
Os números não autorizam dizer que o livro produzirá mudança por si só. Eles sustentam uma conclusão mais útil: trajetórias documentadas são matéria prima para formar referência, mas a liderança só se distribui quando a empresa modifica quem decide, quem recebe orçamento, quem é promovida e quem entra no plano de sucessão. O legado começa no registro e precisa terminar em uma decisão observável.
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