No Leonardo da Vinci, a redação começou no caderno e terminou em 128 notas acima de 900

A escola de Brasília combinou escrita manual, reuniões entre unidades e governança familiar para sustentar o desempenho enquanto crescia

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No Leonardo da Vinci, a redação começou no caderno e terminou em 128 notas acima de 900

O resultado de mais de 128 alunos acima de 900 na redação do Enem não veio de uma ação isolada no último ano. No Leonardo da Vinci, escola particular de Brasília, a escrita foi tratada como rotina desde os primeiros anos, enquanto a expansão para quase 5 mil estudantes obrigou a família fundadora a criar processos, indicadores e uma sucessão planejada. A tese que aparece nos números de 2026 é direta: o desempenho só se manteve quando a escola deixou de depender exclusivamente do talento de professores ou da memória dos donos.

O levantamento divulgado pela escola e publicado pela Exame registra 585 aprovações em universidades nos processos seletivos de 2026. Destas, 508 foram em instituições públicas, incluindo 383 na Universidade de Brasília e 86 em medicina. Também houve 28 primeiros lugares. Os dados são da própria instituição, portanto não equivalem a uma classificação nacional independente, mas ajudam a mostrar a escala do caso.

A escola reduziu a distância entre alfabetização e vestibular

O Leonardo da Vinci nasceu em 1969 como um cursinho criado por jovens professores, entre eles Jorge Manzur. A primeira sede própria veio em 1975. Durante parte da sua história, o negócio carregou a lógica de preparação para processos seletivos. A mudança mais difícil apareceu quando a instituição começou a atender crianças e passou a oferecer o ensino fundamental, em vez de trabalhar apenas com alunos próximos do vestibular.

Hoje, são três unidades, na Asa Sul, na Asa Norte e em Taguatinga, com quase 5 mil alunos e cerca de 500 funcionários, segundo a reportagem. Michelle Manzur, filha do fundador, assumiu a direção executiva depois de entrar na escola em 2014. O caso mostra uma empresa educacional que precisou resolver uma tensão comum em negócios familiares: preservar a identidade original sem administrar uma operação maior usando somente relações pessoais.

Na redação, a resposta foi antecipar o hábito. A direção afirma que os alunos são incentivados a ler e escrever desde os primeiros anos. Depois da pandemia, a escola identificou estudantes chegando sem lápis e caderno, muito ligados às telas, segundo Michelle. A instituição passou a cobrar novamente o registro escrito e reduziu o uso de equipamentos em determinados momentos. A diretora associa a escrita à mão ao modo como o cérebro processa a informação, mas o resultado publicado não prova sozinho uma relação de causa e efeito. Ele mostra a escolha pedagógica feita pela escola e o desempenho que a instituição atribui a esse conjunto de práticas.

O dado mais específico está no Programa de Avaliação Seriada da UnB, o PAS. Na primeira etapa, alunos da escola obtiveram 3 das 11 notas máximas de redação. Na segunda, foram 2 de 13. Na terceira, 6 de 22. Somadas, as três etapas tiveram 11 notas máximas da escola em um universo de 46, ou 23,9%. A conta é feita sobre os números publicados pela reportagem e ajuda a traduzir a afirmação de que mais de 20% das notas máximas saíram do Leonardo da Vinci.

Cinco pessoas sentadas ao redor de uma mesa analisam documentos em biblioteca.

O crescimento expôs o limite de uma gestão concentrada na família

A segunda unidade trouxe um problema operacional: como entregar a mesma experiência pedagógica em endereços diferentes. A escola criou o Qualivinci, programa próprio com processos mapeados, reuniões de alinhamento e avaliação de desempenho. Quando a terceira unidade foi aberta, em 2003, a administração passou a acompanhar indicadores financeiros, de desempenho e de absenteísmo com apoio de um programa da Fundação Dom Cabral.

A dificuldade não era somente manter o conteúdo das aulas. Era fazer com que decisões tomadas em uma unidade chegassem às outras sem depender de uma conversa informal entre sócios. Os professores de cada disciplina passaram a se reunir para planejar aulas e avaliações das três unidades. As coordenações pedagógicas se encontram mais de uma vez por semana. Ao final de cada bimestre ou trimestre, direção e equipe analisam gráficos para localizar falhas no conteúdo, na aula ou no trabalho de um professor específico.

Esse arranjo tem um custo que a própria diretora descreve como alto, porque exige tempo fora do horário de aula. O investimento, porém, ataca um problema típico de empresas que crescem: a unidade nova pode copiar a marca, o material e o uniforme, mas não necessariamente repete o padrão de execução. No Leonardo da Vinci, a reunião entre professores virou uma infraestrutura de qualidade. O resultado de uma turma passou a orientar as outras, em vez de ficar guardado na coordenação.

O passo mais sensível veio em 2018. Com os sócios ainda ativos, a escola contratou uma consultora externa para desenhar um modelo de governança corporativa e sucessão. A estrutura passou a incluir comitê de estratégia, comitê de sucessão e governança, conselho consultivo com membros externos e fórum de diretoria. Michelle se tornou diretora executiva nesse processo. O fundador continuou na escola, assim como Dalvo Cardoso, professor dos primeiros anos que se tornou sócio.

A inovação só entrou quando conseguiu responder a uma dificuldade de aprendizagem

A escola criou um comitê de inovação com integrantes da direção, uma especialista da equipe e ex-alunos que hoje têm uma startup. A regra relatada por Michelle é que uma novidade precisa melhorar o aprendizado. Isso mudou o tipo de projeto aceito. Em vez de comprar tecnologia para produzir uma imagem de modernização, o grupo trabalha a partir de um conteúdo que os alunos não entenderam bem.

O exemplo citado é o ensino de fuso horário. O professor leva a dificuldade ao comitê, que pode propor uma atividade com sucata ou uma ferramenta digital. Para filosofia, o grupo criou um jogo de tabuleiro com os principais filósofos. Para o 9º ano, ajudou a montar uma competição de conhecimento nos recreios, com provas e desafios por QR code. Os projetos são concretos porque começam por uma lacuna observada na sala, e não por uma tecnologia escolhida antes do problema.

A escola também organiza cursos rápidos sobre ferramentas de inteligência artificial e certificações de ferramentas do Google para professores e funcionários. A tecnologia aparece ainda na preparação de aulas, na análise de provas e simulados e em plataformas adaptativas. Essas plataformas identificam fragilidades individuais e permitem retomar conteúdos. O modelo não substitui o professor: fornece uma leitura mais rápida do ponto em que cada aluno parou.

Há uma contradição produtiva na estratégia. A escola restringiu telas em parte da rotina, mas usa inteligência artificial nos bastidores e em atividades específicas. A decisão não é tratar todo dispositivo como inimigo ou solução. É separar o uso que ajuda a encontrar uma lacuna daquele que apenas ocupa a atenção. Essa distinção ganhou respaldo legal em 2025, quando a Lei 15.100 proibiu o uso de aparelhos eletrônicos pessoais durante aulas, recreios e intervalos na educação básica, preservando exceções pedagógicas, de acessibilidade, inclusão e saúde.

A escrita manual enfrentou uma rotina em que 98% acessam a internet pelo celular

O problema que a escola encontrou não era exclusivo de Brasília. O Cetic.br, ligado ao NIC.br, acompanha o acesso de crianças e adolescentes à internet e publica as tabelas da pesquisa TIC Kids Online Brasil. No guia sobre usos de dispositivos digitais, publicado pelo Ministério da Educação em cooperação com a UNESCO, o governo registra que o celular se tornou o principal dispositivo de acesso à internet entre usuários de 9 a 17 anos. Na edição de 2024 citada no documento, 98% usavam o telefone para entrar na rede e 23% acessavam exclusivamente por ele nas classes DE.

Esse dado não permite concluir que o celular tenha causado piora na escrita de alunos do Leonardo da Vinci. Permite, porém, entender a pressão operacional que a escola descreve: o equipamento está presente na vida dos estudantes e compete pela atenção com o caderno. A resposta da instituição foi estabelecer uma regra pedagógica para o papel, o lápis e o registro das ideias, sem abandonar os recursos digitais quando eles ajudam o professor a localizar um erro de aprendizagem.

A própria lei federal exige que escolas criem estratégias sobre sofrimento psíquico e uso imoderado de telas, além de oferecer espaços de escuta e acolhimento. Isso desloca o tema da disciplina individual do aluno para a responsabilidade de gestão da escola. A instituição precisa definir quando o aparelho entra, quando fica fora e como a decisão será aplicada por professores diferentes em unidades diferentes.

As 585 aprovações mostram escala, mas não eliminam o risco do caminho

Os resultados de 2026 foram distribuídos por 104 cursos em mais de 70 universidades, segundo o levantamento da escola. Houve 149 aprovações em engenharias, 86 em medicina e seis ex-alunos aprovados em instituições de Portugal, dos Estados Unidos e da Itália. A escola afirma ainda que seus alunos ficaram com metade das vagas de Ciência da Computação, Jornalismo e Odontologia na UnB, 60% das vagas de Arquitetura e Urbanismo e 70% das de Design.

A multiplicação dos números não resolve uma questão de interpretação. A escola divulga os próprios resultados, enquanto o Inep oferece painéis e microdados do Enem para consulta das notas, perfis e informações do exame. O painel oficial serve como base pública do teste, mas os dados da reportagem sobre a quantidade de alunos acima de 900 e as aprovações pertencem ao levantamento do Leonardo da Vinci. Essa diferença precisa ser mantida para que o caso não vire uma promessa de desempenho replicável.

O que pode ser observado por outros donos de negócio é o desenho da operação. A escola enfrentou pelo menos três pontos de atrito: crianças que chegaram sem o hábito de registrar, unidades que precisavam ensinar com o mesmo padrão e uma família que precisava preparar a sucessão antes da saída dos fundadores. A empresa respondeu com caderno, reuniões, gráficos, comitês e conselho externo. Nenhuma dessas medidas aparece como atalho. Elas formam uma rotina que pode ser cobrada e revisada.

Na segunda-feira, a pergunta começa nos indicadores que já existem

Para uma escola ou empresa de serviços, a aplicação prática do caso não é comprar uma plataforma de inteligência artificial nem copiar o Qualivinci. O primeiro passo é escolher um resultado que já seja medido, como nota de redação, evasão, absenteísmo ou prazo de entrega. Depois, separe o dado por unidade, equipe ou etapa do processo. Sem essa abertura, a média esconde onde o problema começa.

O segundo passo é levar um caso concreto à reunião responsável. No Leonardo da Vinci, a dificuldade de fuso horário, o conteúdo de filosofia e os gráficos de desempenho dão material para decidir. Uma reunião produtiva termina com uma alteração observável, um responsável e uma data de revisão. Se o resultado não mudar, a equipe descarta a solução ou ajusta a aula. Se melhorar, registra o procedimento para que outra unidade consiga repeti-lo.

Há uma pergunta que o dono do negócio pode responder olhando para os próprios números: qual resultado depende hoje da memória de uma pessoa e ainda não virou processo que outra equipe consegue executar e medir?

Fontes consultadas

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