O descarte eletrônico virou uma decisão operacional para pequenos negócios
A campanha de 20 anos do Vivo Recicle expõe um problema que também chega ao estoque, ao caixa e à rotina de empresas com até 20 funcionários
O lixo eletrônico deixou de ser um assunto restrito à área ambiental das grandes companhias. Para uma empresa com 1 a 20 funcionários, celular antigo, carregador quebrado, roteador trocado, impressora sem uso e bateria estufada já representam uma decisão operacional: guardar, vender, devolver ao fornecedor ou encaminhar para um ponto de coleta. A nova campanha da Vivo para marcar os 20 anos do programa Vivo Recicle recoloca essa escolha no cotidiano, em um país onde pouco mais de 3% dos resíduos eletrônicos são reciclados, segundo dados da Green Eletron apresentados pela companhia à Exame.
A tese prática é direta: o pequeno negócio não precisa criar uma operação ambiental complexa para reduzir esse desperdício, mas precisa parar de tratar equipamento sem uso como material neutro. O custo aparece quando o aparelho ocupa espaço, contém dados, perde valor de revenda e acaba no lixo comum. O ganho começa quando existe uma regra simples para separar, proteger e encaminhar cada item.
O programa da Vivo mostra como uma ação pequena ganha escala
O Vivo Recicle foi criado em 2006, antes da Política Nacional de Resíduos Sólidos. De acordo com os números divulgados pela empresa e reproduzidos pela Exame, o programa recolheu mais de 5,3 milhões de itens, equivalentes a 232 toneladas de resíduos eletrônicos. Em 2025, a companhia informou ter reciclado 45 toneladas e estabeleceu a meta voluntária de chegar a 375 toneladas coletadas até 2035.
O caso é útil para o pequeno empresário por uma razão que vai além da marca envolvida. A empresa não depende de uma única grande ação anual. Usa lojas como pontos de coleta, mantém uma campanha de comunicação e levou iniciativas para escolas. Em 2026, ações ligadas ao voluntariado da Fundação Telefônica Vivo alcançaram cerca de 32 mil alunos e educadores de 33 escolas públicas em 12 cidades, com arrecadação informada de 37 toneladas, conforme a reportagem da Exame.
O modelo sugere uma rotina que cabe em uma empresa pequena: um local conhecido para receber os equipamentos, uma pessoa responsável por conferir o material e uma data definida para a entrega. Sem essa sequência, a caixa de eletrônicos cresce no canto do almoxarifado e vira um passivo esquecido.
O programa também ajuda a separar duas decisões que costumam ser misturadas. Um equipamento ainda funcional pode ser reutilizado ou vendido depois de passar por uma limpeza segura de dados. Um equipamento sem condição de uso deve seguir para logística reversa ou reciclagem. Colocar os dois no mesmo saco faz a empresa perder valor e aumenta o risco de descarte errado.

A gaveta de aparelhos revela onde o processo costuma falhar
Uma pesquisa nacional encomendada pela Green Eletron e realizada pela Radar Pesquisas mostra que o obstáculo não é somente a falta de interesse. O estudo ouviu 2.075 pessoas, entre 14 e 24 de maio de 2021, em 13 Estados e no Distrito Federal. O relatório pode ser consultado no PDF da pesquisa. Quase 90% dos entrevistados disseram guardar algum eletroeletrônico sem utilidade em casa, e 30% afirmaram mantê-lo por mais de um ano, segundo os resultados apresentados pela entidade.
Esse comportamento doméstico tem uma versão empresarial. O aparelho não é jogado fora porque alguém sabe que há materiais reaproveitáveis, mas também não é encaminhado porque ninguém definiu o próximo passo. Em negócios pequenos, a decisão costuma ficar com o dono, com o responsável pelo estoque ou com quem troca os equipamentos. Se a tarefa não tem nome, prazo e lugar, ela perde para a venda, o atendimento e a entrega.
A pesquisa encontrou outro ponto relevante: 71% dos participantes disseram que não há muita informação na mídia sobre lixo eletrônico e descarte correto. Entre jovens de 18 a 25 anos, 14% não souberam responder o que é lixo eletrônico, contra 5% na faixa de 26 a 45 anos e 3% entre 46 e 65 anos. O dado não serve para rotular funcionários por idade. Serve para mostrar que uma instrução curta, colocada no procedimento interno, vale mais que a expectativa de que todos já saibam o que fazer.
O pequeno negócio pode transformar essa lacuna em uma regra de inventário. Na troca de um computador, roteador, telefone ou impressora, o item antigo recebe uma etiqueta interna com a data, o responsável e o destino previsto. A empresa registra se o equipamento será reutilizado, doado, vendido ou descartado. O registro não precisa ser sofisticado. Uma planilha com cinco colunas já evita que o aparelho desapareça no fluxo da operação.
O risco está nos dados, nas baterias e no lixo comum
O primeiro risco é de informação. Celulares, computadores, tablets, impressoras e roteadores podem armazenar contas, contatos, documentos, senhas e históricos de navegação. A reciclagem não substitui a limpeza dos dados. Antes de entregar o equipamento, a empresa precisa fazer cópia do que deve ser preservado, remover contas, restaurar o aparelho quando possível e retirar cartões de memória e chips. Em computadores, a medida deve seguir a política interna de segurança e o tipo de informação armazenada.
O segundo risco envolve baterias danificadas. Bateria estufada, aquecida, perfurada ou com vazamento não deve ser comprimida, desmontada ou misturada com papelão e plástico. O item precisa ficar isolado, em local seco, ventilado e protegido contra impacto, até receber orientação do ponto de coleta ou de um operador especializado. A equipe não deve tentar recuperar o material por conta própria.
O terceiro risco é jurídico e ambiental. A Política Nacional de Resíduos Sólidos atribui responsabilidades ao longo do ciclo de vida dos produtos. O texto da Lei nº 12.305 trata da gestão integrada de resíduos e da logística reversa. Para eletroeletrônicos de uso doméstico, o Decreto nº 10.240 regulamenta o sistema e define o descarte como a entrega dos produtos em pontos de recebimento destinados à logística reversa.
Isso não significa que toda pequena empresa tenha a mesma obrigação documental de uma fabricante ou importadora. Significa que jogar eletrônicos no lixo comum não é uma política de descarte. A empresa deve verificar o canal adequado para o tipo de item, guardar comprovante quando houver coleta formal e registrar o destino em seu controle interno. Em caso de dúvida sobre equipamento com risco, a orientação do operador deve prevalecer sobre improvisos.
O valor reaparece quando o equipamento é separado no momento certo
A Green Eletron explica que os equipamentos são formados por plástico, vidro, metais e outros materiais que podem ser desmontados e transformados em matéria-prima para a indústria. A definição e as categorias aparecem no guia publicado pela entidade, disponível em seu site oficial. A consequência para a pequena empresa é financeira e operacional: um lote organizado é mais fácil de encaminhar, conferir e documentar do que uma mistura de aparelhos inteiros, cabos, pilhas e sucata.
Os números do Vivo Recicle permitem uma conta simples. As 232 toneladas recolhidas desde 2006 correspondem a uma média histórica de aproximadamente 11,6 toneladas por ano, considerando os 20 anos informados pela empresa. As 45 toneladas recicladas em 2025 equivalem a quase quatro vezes essa média anual. A comparação não mede a performance de todo o setor, porque os períodos e os critérios podem variar, mas mostra a diferença que uma rede contínua de coleta pode produzir quando o volume deixa de depender de ações isoladas.
Para um negócio de até 20 funcionários, a meta não é replicar a escala da Vivo. É impedir que o equipamento fique sem dono. Uma loja de assistência técnica pode separar aparelhos abandonados por ordem de serviço. Um escritório pode consolidar periféricos e cabos em uma única coleta mensal. Um restaurante pode tratar maquininhas, roteadores e celulares corporativos em um fluxo próprio, sem misturá-los com resíduos orgânicos ou embalagens.
O caso da operadora também mostra que comunicação faz parte da operação. A campanha criada pela Africa Creative usa um MP3 player transportado por formigas até uma loja para tornar visível uma tarefa que costuma parecer pequena. Para uma empresa menor, o equivalente pode ser uma instrução no grupo interno, uma caixa identificada e uma pessoa que confira o material toda sexta-feira. A mensagem precisa dizer o que entra, o que não entra e quem aciona a coleta.
Na segunda-feira, o primeiro passo é fechar o destino de cada aparelho
O dono ou gestor pode começar com uma triagem de 30 minutos. Reúna celulares, cabos, fontes, baterias, computadores, impressoras e equipamentos de rede sem uso. Separe o que ainda funciona, o que precisa de conserto e o que não tem condição de reaproveitamento. Remova dados dos itens que deixarão a empresa e registre marca, modelo, número de patrimônio, estado e destino.
Depois, consulte um canal de logística reversa que aceite aquele tipo de resíduo. O SINIR, sistema do Ministério do Meio Ambiente, informa que o módulo de logística reversa reúne dados sobre pontos de entrega voluntária, pontos de consolidação e resultados dos sistemas. O Ministério também documentou a implantação de ecopontos e centrais para eletroeletrônicos em diferentes cidades, como na notícia sobre a central de São Luís.
Por fim, estabeleça uma frequência. Uma coleta trimestral pode bastar para um escritório pequeno; uma assistência técnica ou loja de eletrônicos pode precisar de revisão semanal. O critério deve ser o volume e o risco, não uma data simbólica do calendário. A empresa que registra o que entrou, protege os dados, isola baterias danificadas e comprova o destino já saiu da lógica da gaveta. O trabalho é pequeno, mas a decisão deixa de ser invisível.
Fontes consultadas
- Exame, campanha do Vivo Recicle e dados divulgados pela Vivo
- Green Eletron e Radar Pesquisas, Resíduos Eletrônicos no Brasil, 2021
- Green Eletron, guia sobre lixo eletrônico
- Planalto, Lei nº 12.305/2010
- Planalto, Decreto nº 10.240/2020
- SINIR, logística reversa
- Ministério do Meio Ambiente, central de logística reversa de eletroeletrônicos
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