De um bolo de 35 quilos a R$ 800 milhões: como Cleusa Maria construiu a Sodiê Doces
A fundadora saiu de uma loja de 20 metros quadrados em Salto para uma rede com 396 unidades no Brasil e duas nos Estados Unidos
Cleusa Maria da Silva transformou uma oportunidade doméstica em uma rede que faturou R$ 800 milhões em 2025. O ponto central da história não está em uma receita secreta, nem em um plano de expansão desenhado antes da primeira venda. Está na sequência documentada de decisões: aprender uma tarefa que nunca havia feito, usar R$ 5 mil da rescisão para abrir uma loja de 20 metros quadrados, testar o produto por cinco anos e só depois franquear a operação.
O resultado foi a Sodiê Doces, marca que hoje reúne 396 lojas no Brasil e duas em Orlando, nos Estados Unidos, segundo o perfil de Cleusa publicado pela EY. A cifra de 2025 foi divulgada pela própria empresária ao Seu Dinheiro. Entre um número e outro existe uma escolha que explica melhor a escala: Cleusa demorou a transformar o negócio em franquia porque primeiro precisou provar que a loja funcionava sem depender apenas da sua presença.
O primeiro bolo nasceu de uma emergência, não de um plano
Cleusa nasceu em Bandeirantes, no norte do Paraná, em uma família de dez filhos. Começou a trabalhar aos nove anos e passou pela atividade de boia-fria antes de se mudar para São Paulo aos 16. A trajetória aparece em diferentes entrevistas e perfis, mas a reportagem da UOL registra a virada com mais precisão: ela trabalhava em uma fábrica de alto-falantes quando a antiga patroa, que vendia doces, pediu ajuda para preparar um bolo de aniversário.
A patroa havia quebrado a perna e ensinou o passo a passo. Cleusa nunca tinha preparado um bolo. A encomenda tinha 35 quilos, conforme o relato reproduzido pelo PEGN. O resultado foi suficiente para que ela recebesse uma batedeira da antiga chefe, com a possibilidade de pagar quando pudesse. Durante o dia, Cleusa trabalhava na fábrica. À noite, produzia bolos em casa.
A cena é simples, mas tem uma consequência empresarial concreta. O equipamento recebido reduziu a barreira de entrada e permitiu que a produção começasse antes de existir capital para montar uma cozinha comercial. O primeiro ativo do negócio não foi uma loja, foi uma combinação de conhecimento transferido, equipamento e demanda já existente. A cliente que encomendou o bolo também funcionou como a primeira validação do produto.
R$ 5 mil compraram uma loja de 20 metros quadrados
Em 1997, Cleusa deixou a fábrica e usou cerca de R$ 5 mil da rescisão dela e do irmão para alugar um espaço de 20 metros quadrados em Salto, no interior de São Paulo. O estabelecimento recebeu o nome Sensações Doces. O valor da rescisão e o tamanho da loja foram relatados pela UOL e também aparecem na descrição da trajetória publicada pela EY.
A operação inicial exigia uma rotina que hoje seria difícil de imaginar em uma rede de centenas de unidades. Cleusa fazia os bolos em casa e os levava a pé para a loja pela manhã, de acordo com o relato do Seu Dinheiro. A produção era artesanal, o cardápio nasceu das receitas aprendidas com a antiga patroa e a própria fundadora acumulava funções de confeiteira, transportadora e dona do ponto.
Em vez de abrir várias unidades logo no primeiro ano, ela passou cinco anos ajustando o negócio. A EY informa que, dentro de quatro anos, a Sodiê havia ocupado um espaço maior e aberto lojas em cidades próximas. A sequência indica uma forma de expansão baseada em repetição operacional: primeiro a loja, depois a filial, então o modelo que poderia ser entregue a outro operador.
O nome também precisou mudar. Quando a rede já tinha 74 lojas franqueadas, segundo o Seu Dinheiro, a marca Sensações Doces entrou em conflito com um registro da Nestlé. A solução foi combinar os nomes dos filhos de Cleusa, Diego e Sofia, formando Sodiê. A troca mostra uma parte menos celebrada de uma história de crescimento: marcas que avançam precisam resolver problemas jurídicos e de identidade antes de continuar vendendo.

O modelo só virou franquia depois de cinco anos de pesquisa
A primeira franquia não foi uma decisão tomada para levantar dinheiro rapidamente. A página da EY informa que Cleusa passou cinco anos fazendo cursos e pesquisas antes de transformar a Sodiê em franquia, em 2007. A primeira unidade franqueada foi aberta em São Paulo. A entrevista à UOL acrescenta que, dois anos depois da abertura da primeira franquia, a rede já somava 50 lojas franqueadas.
O intervalo entre a loja original e a franquia ajuda a entender a virada. Franquear exige transformar uma habilidade individual em método. A fundadora precisava definir receitas, padrão de atendimento, abastecimento, treinamento e critérios para que o bolo chegasse ao consumidor com o mesmo posicionamento em pontos diferentes. A Sodiê manteve uma característica operacional relevante: segundo o Seu Dinheiro, cada loja conserva sua própria cozinha e os produtos não são congelados.
Esse detalhe limita a comparação com redes que concentram a fabricação em uma planta central, mas também explica a promessa de produto fresco. A cozinha local aumenta a responsabilidade de cada unidade. Em contrapartida, permite que a loja finalize a produção perto do cliente e mantenha a lógica artesanal que estava presente no primeiro ponto de Salto.
A decisão de reinvestir também aparece no depoimento de Cleusa à UOL. Ela afirmou que destinou à empresa todo o dinheiro recebido das taxas de franquia no período inicial. A empresária disse que mantinha um carro simples e evitava ostentação enquanto colocava recursos na operação. Não é possível atribuir todo o crescimento a uma única escolha, mas o registro mostra uma regra financeira objetiva: o dinheiro da expansão voltou para a estrutura antes de ser tratado como renda pessoal.
R$ 800 milhões divididos por 396 lojas dão a dimensão média da rede
A Sodiê informou faturamento de R$ 800 milhões em 2025, enquanto a EY registrou 396 lojas no Brasil e duas em Orlando. Dividindo a receita divulgada pelo número de unidades brasileiras, chega-se a aproximadamente R$ 2,02 milhões por loja em média anual. A conta é uma aproximação editorial, não representa o faturamento de cada franqueado e não separa as duas operações nos Estados Unidos. Ainda assim, ela transforma a cifra total em uma ordem de grandeza que ajuda a compreender o tamanho alcançado.
O número ganha contexto quando comparado com os dados setoriais da Associação Brasileira de Franchising. Na Pesquisa de Desempenho do Franchising Brasileiro 2025, a ABF registrou faturamento de R$ 301,7 bilhões no setor, 202.444 operações e 3.297 redes. A pesquisa informa que a amostra representou 38% do faturamento e que os dados foram extrapolados para o universo de marcas que operam no país.
A comparação não serve para dizer que todas as lojas da Sodiê faturam R$ 2,02 milhões. Serve para mostrar que uma marca de alimentação conseguiu levar uma operação criada em 20 metros quadrados a uma escala que, na média simples, equivale a uma empresa de porte multimilionário em cada unidade brasileira. O setor de alimentação, que inclui food service e comercialização e distribuição, somou R$ 79,8 bilhões na pesquisa da ABF. A Sodiê está inserida em um mercado grande, mas sua história continua ligada a uma unidade pequena e a uma produção feita fora de uma fábrica central.
Também existe uma diferença entre faturamento da rede e dinheiro que fica com a franqueadora. A receita das lojas envolve custos de ingredientes, equipe, aluguel, impostos, taxas e despesas locais. O dado de R$ 800 milhões, portanto, não deve ser lido como lucro de Cleusa. A informação disponível sustenta o tamanho da operação, não uma margem líquida que não foi divulgada nas fontes consultadas.
O crescimento profissionalizou a gestão sem apagar a origem familiar
O reconhecimento veio depois da expansão. Em 2024, Cleusa foi escolhida pela EY como vencedora da categoria Master do programa Empreendedor do Ano Brasil. A PEGN informou que a premiação incluía fundadores de empresas consolidadas em seus mercados. Em 2025, a ABF anunciou a Sodiê como vencedora do Prêmio ABF Destaque Franchising de Franqueador do Ano, com base, entre outros critérios, na pontuação da Pesquisa do Selo de Excelência em Franchising.
A mudança de escala trouxe uma estrutura de gestão mais ampla. A PEGN informou que a empresa ganhou novo comando operacional em agosto de 2023, com a entrada de Fabio Araujo como gerente geral. De acordo com Cleusa, a alteração fortaleceu processos e alinhou inovação com solidez financeira. O dado é importante porque separa duas etapas que costumam ser confundidas: fundar uma empresa é uma competência; administrar uma rede com centenas de operações exige sistemas, lideranças e padrões que não cabem na rotina de uma única dona.
A família permaneceu ligada ao negócio. O filho Diego aparece associado à linha de salgados e a filha Sofia acompanhou Cleusa na cerimônia da ABF, segundo a entidade. A presença familiar, porém, não substitui a gestão profissional. A história documentada aponta para a convivência das duas coisas: a origem continua visível na marca, enquanto a operação precisa de processos capazes de funcionar longe da primeira cozinha.
Cleusa resumiu a própria visão ao UOL ao dizer que empreendedorismo exige manter os pés no chão e acreditar em resultados de médio e longo prazo. A frase faz sentido quando colocada ao lado dos fatos, não como conselho solto. A empresária passou de uma produção noturna para uma loja, esperou anos antes de franquear, reinvestiu taxas e só depois chegou a centenas de unidades. A velocidade apareceu na expansão depois que o modelo tinha sido testado.
O passo de segunda-feira é medir a operação antes de copiar a expansão
Para um dono de negócio que olha para a Sodiê como referência, a aplicação prática não é abrir uma franquia ou ampliar o ponto imediatamente. É registrar durante quatro semanas os dados que precisam ser repetidos: vendas por produto, desperdício, tempo de produção, margem por item, compras, horas da equipe e retorno dos clientes. Sem essa base, uma segunda unidade apenas multiplica uma operação que ainda não foi entendida.
O segundo passo é separar o que depende da pessoa fundadora do que pode virar procedimento. A receita precisa ter ficha técnica. O atendimento precisa ter sequência definida. A compra precisa indicar quantidade, prazo e fornecedor. A qualidade precisa de critérios observáveis, como peso, validade, acabamento e temperatura. Na história de Cleusa, o intervalo de cinco anos antes da franquia mostra o valor de testar esses pontos antes de entregar o modelo a terceiros.
O terceiro passo é fazer uma conta conservadora. Some o faturamento mensal, subtraia custos variáveis, despesas fixas, impostos e pró-labore. Depois simule a operação com uma pessoa diferente no balcão e na produção. Se o resultado desaparecer quando o fundador tira as mãos da rotina, ainda existe um trabalho de padronização pela frente. A expansão sustentável começa quando a empresa consegue explicar como entrega o produto, quanto custa e quais números indicam que uma nova unidade deve ser aberta.
Cleusa Maria não começou com experiência em confeitaria nem com capital abundante. Começou com uma encomenda, uma batedeira emprestada e uma decisão de usar a rescisão em um ponto de 20 metros quadrados. A Sodiê alcançou R$ 800 milhões porque essas etapas foram acumuladas e convertidas em processo. O caso não oferece uma fórmula pronta para qualquer empresa, mas deixa uma evidência útil: escala veio depois da repetição controlada, não antes dela.
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