Livro da ABA reúne 29 trajetórias de mulheres na liderança e no associativismo
Obra lançada em São Paulo transforma experiências de dirigentes em registro compartilhado sobre escolhas, desafios e construção de legado
O livro Mulheres na Liderança: Desafio e Legado nasce para enfrentar um problema que os discursos sobre representatividade costumam esconder: mulheres chegam a posições de decisão, mas continuam sendo minoria no topo das empresas e das entidades. A obra lançada pela Associação Brasileira de Anunciantes (ABA) reúne 29 capítulos escritos por integrantes da Confraria das Mulheres Dirigentes de Entidades e transforma experiências individuais em conhecimento que pode circular, ser comparado e orientar novas lideranças.
A tese é objetiva. Registrar trajetórias não resolve sozinho a desigualdade, mas reduz a falta de referências que mantém muitas profissionais isoladas diante das mesmas barreiras. O valor do livro está nessa passagem do relato pessoal para uma memória coletiva de gestão, carreira, influência e participação feminina em espaços de decisão.
Os números mostram que o topo ainda é uma barreira de acesso
O contexto da publicação é medido pelo Panorama Mulheres 2025, estudo realizado pelo Instituto Talenses Group em parceria com o Insper. A pesquisa analisou 310 empresas respondentes e encontrou 39 mulheres na presidência, o equivalente a 17,4% do total. Nos conselhos administrativos, a participação feminina ficou em 17,1%.
Minha conta a partir desses dois dados produz um contraste pequeno, mas relevante: a diferença entre a presença feminina nas presidências e nos conselhos é de apenas 0,3 ponto percentual. Em termos relativos, os 17,1% dos conselhos correspondem a cerca de 98,3% dos 17,4% registrados nas presidências. Isso indica que não basta abrir uma porta de entrada para a governança. O acesso aos diferentes níveis do poder continua comprimido em uma faixa muito estreita.
O próprio estudo descreve um funil de liderança. Mulheres aparecem mais na diretoria do que na vice-presidência e encontram menor presença em áreas como finanças e operações, justamente setores que costumam levar à presidência. A questão, portanto, não se resume à quantidade de mulheres que trabalham ou ocupam algum cargo de gestão. A trajetória até a decisão final passa por áreas, promoções e redes de influência distribuídas de forma desigual.
Esse dado dá ao lançamento uma dimensão prática. Cada capítulo pode ser lido como um registro de escolhas feitas dentro desse funil. A publicação não apresenta uma fórmula de ascensão e não promete que inspiração substitua política institucional. Ela oferece algo mais concreto: nomes, percursos e aprendizados que ajudam a identificar como dirigentes construíram autoridade em setores diferentes.

O lançamento transformou uma comemoração institucional em registro público
A ABA lançou o livro em 27 de agosto de 2026, na Livraria Líder, na Avenida Pompéia, 691, em São Paulo. O evento ocorreu em parceria com a Editora Leader e reuniu mais de 200 pessoas, entre integrantes da Confraria, representantes do associativismo, lideranças de mercado, familiares e amigos das coautoras.
A data foi escolhida um dia depois do Dia Internacional da Igualdade Feminina, celebrado em 26 de agosto. A proximidade reforça o tema, mas o livro não depende de uma data comemorativa para justificar sua existência. A obra se apoia em um problema mensurável e em uma experiência organizada ao longo de três anos pela Confraria das Mulheres Dirigentes de Entidades.
O lançamento também revela como uma obra coletiva pode cumprir duas funções ao mesmo tempo. No plano institucional, celebra a história de uma iniciativa da ABA. No plano editorial, cria uma fonte de consulta sobre mulheres que dirigem associações, sindicatos e entidades de classe. Ao levar os relatos para um livro, a organização permite que as experiências saiam do encontro presencial e cheguem a leitoras, gestores e profissionais que não participam da Confraria.
A noite de autógrafos teve conversas, conexões e registros das autoras. A cena importa porque o livro foi apresentado como resultado de uma rede, não como a biografia isolada de uma dirigente. A presença de mais de 200 participantes dá uma medida do interesse pelo encontro, mas o efeito duradouro está no conteúdo que permanece depois do evento.
Uma rede de 40 dirigentes sustenta os 29 capítulos publicados
A Confraria foi criada em novembro de 2023 por Sandra Martinelli, CEO da ABA, e reúne 40 mulheres à frente de associações, sindicatos e entidades de classe. O livro não reproduz o grupo inteiro. Ele reúne capítulos de 29 integrantes que decidiram compartilhar desafios e aprendizados construídos na carreira, na gestão associativa e na vida pessoal.
Essa diferença entre o tamanho da rede e o número de autoras ajuda a entender o projeto. A Confraria funciona como espaço de troca; a publicação é uma seleção de vozes convertida em registro editorial. São 29 capítulos para representar um universo de 40 dirigentes. A obra não pretende falar em nome de todas as mulheres líderes do país, e a ABA não apresenta essa amostra como retrato estatístico da liderança feminina brasileira.
Entre as autoras estão Sandra Martinelli e Nelcina Tropardi, da ABA; Marcia Esteves e Mariana Panhoni, da ABAP; Alyne Freitas Silva, da Abas; Claudia Campos, da ABEMD; Gislene Cardozo, da Abiad; Silvia Roizenblatt, da Abifra; Juliana Marra, da ABIPLA; Andrea Weiss, da ABOOH; e Erika Sillá, da ABPI.
A lista continua com Cristiane Foja, da ABRABE; Sheila Magri, da ABRACOM; Carolina Morales, da ABRADI; Marici Ferreira, da ABRAL; Cassia Lebrão, da Abrasorvete; Cibele Zanotta, da Acessa; Heloisa Santana, da AMPRO; Regina Bucco, da ANER; Marianna Souza, da APRO; Melissa Voguel e Regina Augusto, do CENP; Fabi Soriano, da Central de Outdoor; Juliana N. Albuquerque, do CONAR; Patricia Beber, da ESOMAR; Denise Porto Hruby, do IAB; Patricia Blanco, do Instituto Palavra Aberta; Juliana Pereira, do IPS Consumo; e Patricia Alexandre, do Sinapro.
A composição mostra que o debate não está restrito a um único ramo. Publicidade, anunciantes, pesquisa, consumo, relações públicas, mídia, varejo e entidades profissionais aparecem na mesma obra. Essa variedade é importante para quem administra uma organização porque permite comparar problemas de governança que surgem em ambientes diferentes, sem tratar liderança feminina como uma experiência homogênea.
Sandra Martinelli conecta liderança àquilo que acontece antes do cargo
Na apresentação do projeto, Sandra Martinelli afirma que reunir as trajetórias serve para mostrar o que existe por trás de uma posição de liderança. A declaração desloca o foco do cargo para o caminho percorrido até ele. Uma presidente ou CEO aparece no momento em que ocupa a função, mas o capítulo de um livro pode registrar as decisões, mudanças, perdas e aprendizados que não cabem em um organograma.
Essa escolha editorial aumenta a utilidade do conteúdo. Um perfil centrado no cargo informa quem a pessoa é hoje. Um relato de trajetória pode mostrar como ela construiu legitimidade, quais dificuldades enfrentou e quais experiências considera decisivas. Para profissionais em ascensão, a diferença é relevante: referências concretas ajudam a transformar uma posição distante em uma sequência de etapas que pode ser analisada.
O projeto também expõe uma responsabilidade da própria liderança. Compartilhar uma história não serve somente para celebrar uma conquista. Serve para deixar visíveis os caminhos, as dúvidas e as decisões que outras pessoas podem estudar. Esse é o sentido de legado que aparece no título: aquilo que continua disponível para orientar alguém depois que o evento, o cargo ou o ciclo de gestão termina.
Representatividade precisa produzir referência e política de acesso
Nelcina Tropardi, presidente da ABA, vice-presidente do Carrefour e integrante da Confraria, relaciona representatividade à ampliação de referências. A ideia é especialmente importante diante dos 17,4% de mulheres na presidência encontrados pelo Panorama Mulheres 2025. Quando poucas mulheres chegam ao topo, cada trajetória pública cumpre uma função adicional: torna visível uma possibilidade que ainda é estatisticamente rara.
Existe, porém, uma diferença entre ver uma mulher em um cargo e conseguir reproduzir as condições que permitiram sua chegada. O livro contribui para a primeira tarefa ao documentar experiências. A segunda depende de empresas e entidades criarem processos de promoção, sucessão e governança que não deixem a ascensão baseada somente em relações informais.
O estudo do Talenses Group e do Insper reforça esse ponto ao indicar que organizações com mais mulheres na liderança tendem a apresentar maior presença feminina em diferentes níveis e estruturas de governança. O relatório também aponta que a presença de uma mulher na presidência não se converte automaticamente em ações estruturadas de equidade. São necessárias políticas institucionais, compromissos públicos e planos de ação integrados.
A Confraria atua em uma camada complementar. Ela cria conexão entre dirigentes e permite que práticas, ideias e aprendizados circulem. Juliana N. Albuquerque, vice-presidente executiva do Conar e integrante do grupo, descreve o associativismo como mais forte quando experiências individuais se transformam em conhecimento compartilhado. O livro materializa essa transformação.
O caso da ABA mostra como uma entidade pode transformar rede em ativo de conhecimento
O caso concreto desta matéria é a própria ABA. Em novembro de 2023, Sandra Martinelli criou uma rede que hoje reúne 40 dirigentes. Em agosto de 2026, 29 delas assinaram capítulos de um livro apresentado a mais de 200 pessoas. A sequência mostra uma operação de conhecimento com três etapas identificáveis: formar a rede, manter encontros e converter parte do aprendizado em uma publicação.
O número também permite outra leitura. Os 29 capítulos representam 72,5% das 40 integrantes informadas pela ABA. Essa proporção é uma conta editorial, não um indicador de representatividade nacional. Ela mostra, porém, que o livro não nasceu de uma participação simbólica de poucas convidadas. Mais de sete em cada dez integrantes da rede aparecem como autoras, segundo os números divulgados pela própria associação.
Para outras entidades, a lição não é copiar o título do projeto. É criar um processo que não termine no evento. Uma reunião pode gerar conexão; um registro organizado pode gerar memória; a circulação dessa memória pode gerar aprendizagem para quem não estava presente. O valor aumenta quando o conhecimento é identificado, editado e disponibilizado com autoria clara.
O dono de negócio pode transformar o tema em ação na segunda-feira
O primeiro passo é levantar, em uma planilha, quantas mulheres ocupam presidência, vice-presidência, diretoria e conselho da organização. Separe os dados por área, porque o Panorama Mulheres 2025 indica que finanças e operações podem ter menor presença feminina e funcionam como caminhos relevantes para a presidência.
Depois, compare os percentuais por nível e escreva uma meta verificável para o próximo ciclo de gestão. Uma meta útil não diz apenas “aumentar a diversidade”. Ela informa qual posição será alterada, em qual prazo e por qual processo de sucessão. Registre também quem será responsável pela execução e como o conselho acompanhará o resultado.
O terceiro passo é entrevistar dirigentes e profissionais que já passaram por promoções, mudanças de área ou participação em conselhos. Pergunte quais experiências abriram portas, quais barreiras atrasaram a trajetória e quais competências foram decisivas. Com autorização das participantes, transforme as respostas em um documento interno com nomes, datas e aprendizados. O objetivo é criar referência para decisões futuras, não produzir propaganda.
Por fim, revise o acesso às áreas que alimentam a liderança. Se mulheres estão concentradas em funções sem poder de decisão ou sem exposição a orçamento, clientes e governança, a empresa precisa corrigir a distribuição de oportunidades. O livro da ABA inspira essa ação, mas a mudança acontece quando a organização mede o funil, define responsáveis e volta aos números no ciclo seguinte.
Fontes consultadas
- ABA: Mulheres na liderança, lançamento e lista das 29 coautoras
- ABA: convite oficial para o lançamento do livro
- Panorama Mulheres 2025, Instituto Talenses Group e Insper, PDF do estudo
- Propmark: cobertura do lançamento e declarações das dirigentes
- Metrópoles: informações sobre a Confraria e o evento
- Marramaque: contexto, participantes e propósito da publicação
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