O número que decide se o próximo cliente vale o investimento que você fez para trazê-lo
Em 2025, 8,5 milhões de micro e pequenas empresas estavam inadimplentes no Brasil; no mesmo ano, o Nubank atendeu 127 milhões de clientes a um custo unitário mensal inferior a um dólar
Em dezembro de 2025, o Brasil tinha 8,9 milhões de empresas inadimplentes, o maior volume já registrado pela Serasa Experian desde o início da série histórica do indicador. Desse total, 8,5 milhões eram micro e pequenos negócios, que juntos acumulavam R$ 185,4 bilhões em dívidas. A média era de 6,7 contas em atraso por CNPJ, com ticket médio de R$ 3.380,90 por pendência. Em janeiro do mesmo ano, a economista-chefe da Serasa, Camila Abdelmalack, já tinha alertado que o ano seria marcado por crédito mais restrito e custo financeiro elevado, duas condições que reduzem a capacidade de qualquer empresa de alongar dívida e recompor capital de giro. A inadimplência, portanto, não é efeito colateral: é a fotografia do funil de aquisição de clientes de quem está do lado de cá.
No mesmo 2025, do outro lado da equação, o Nubank encerrou o terceiro trimestre com 127 milhões de clientes, adicionou 4,3 milhões só nos últimos noventa dias, e fechou com lucro líquido recorde de US$ 783 milhões, alta de 39% sobre o mesmo período do ano anterior. O custo médio mensal de atendimento por cliente ativo caiu para US$ 0,9. A receita média mensal por cliente ativo, o ARPAC, subiu para US$ 13,4. A taxa de atividade mensal ficou acima de 83%. Tudo isso vem do mesmo release trimestral da companhia, divulgado em 18 de novembro de 2025 e republicado na newsletter institucional NuHeadlines #41.
Os dois números não pertencem à mesma história por acaso. Pertencem porque giram em torno da mesma pergunta, que todo negócio responde todo dia sem perceber: o que cada cliente deixa de valor ao longo do tempo que permanece na base, comparado ao que foi gasto para trazê-lo. A métrica tem nome, Lifetime Value, e a razão entre ela e o Custo de Aquisição de Cliente, o CAC, virou o termômetro mais importante do crescimento sustentável. Em um país onde 96% das empresas inadimplentes são micro e pequenas, ela também virou o termômetro de quem vai sobreviver até 2026.

Quanto vale, em reais, um cliente que continua comprando
Customer Lifetime Value é a projeção da receita que um cliente gera enquanto permanece comprando de uma empresa. A fórmula mais usada por pequenas e médias empresas brasileiras multiplica o ticket médio pela frequência de compra no período pelo tempo médio de retenção, segundo a definição operacional da HubCount e do blog da Serasa Experian. Para uma loja de bairro com ticket de R$ 80, três compras por cliente por mês e oito meses de permanência média, o LTV por cliente é de R$ 1.920. O CAC de um negócio que fatura pouco e depende de Instagram e indicação costuma ficar entre R$ 30 e R$ 80 por cliente novo, segundo a mesma referência. A proporção entre os dois, LTV sobre CAC, fica entre 24 e 64, e qualquer coisa acima de 3 já é considerado saudável para o varejo brasileiro, conforme o benchmark repetido por PipeRun e CRM Piperun.
Nenhum desses números é teórico. A economista-chefe da Serasa Experian, no mesmo release de abril de 2026 que registrou o recorde histórico de R$ 213 bilhões em dívidas de empresas, lembrou que 55,2% das CNPJs negativados eram do setor de Serviços, justamente o que mais depende de recorrência para fechar a conta. Serviços lideram também na concentração da dívida: R$ 67 bilhões de um total de R$ 213 bilhões em dezembro de 2025. A mensagem que vem da fonte primária é direta. Quem trabalha com assinatura, recorrência ou manutenção tem mais a perder por cliente perdido, e por isso tem mais a ganhar em medir.
O caso Nubank: 127 milhões de clientes a US$ 0,9 por mês para atender
Em 2024, o Nubank cruzou a marca de 100 milhões de clientes no Brasil, segundo a retrospectiva institucional publicada pela companhia em 11 de dezembro daquele ano. Em 2025, chegou a 118,6 milhões no primeiro trimestre, divulgado no earnings release do 1T25 arquivado na SEC. No encerramento do terceiro trimestre, 127 milhões. O detalhe que interessa para a conta de LTV é que o custo médio mensal de atendimento por cliente ativo ficou em US$ 0,9, equivalente a aproximadamente R$ 4,80 no câmbio do período. Multiplicado por doze meses, dá cerca de R$ 57 por cliente por ano para o banco operar o relacionamento. O ARPAC de US$ 13,4, perto de R$ 71 ao mês, multiplicado por doze, alcança R$ 852 anuais por cliente ativo. Mesmo descontando custo de servir, a margem por cliente permanece em patamares que nenhum negócio físico brasileiro consegue replicar, e essa é a razão pela qual o ROE anualizado ficou em 31%.
A tradução prática vem do fundador. No mesmo comunicado, David Vélez afirmou que a empresa está se tornando AI-first, com integração profunda de foundation models nas operações para criar uma interface nativa em inteligência artificial. O movimento responde a um problema antigo: crescer mantendo a conta do LTV saudável exige que cada cliente adicional custe pouco para ser atendido, caso contrário o crescimento come a margem. Em 2024, a Klarna, fintech sueca, tornou pública a decisão de usar um agente de IA para reduzir o tempo médio de resolução de 11 minutos para menos de 2 minutos, em 2,3 milhões de conversas mensais. O caso foi depois relativizado pelo CEO Sebastian Siemiatkowski em entrevista à Bloomberg, citada no blog Gosh Digital em maio de 2025, quando admitiu que o corte de custos foi longe demais e que parte do atendimento humano voltou a ser contratada. A lição ficou nos números, não na narrativa: a IA derrubou o custo de servir por cliente, mas não eliminou o longo caudal de casos complexos que exigem humano.
Como o LTV mudou o que se mede em vendas no Brasil
A relação LTV/CAC se consolidou como referência no mercado B2B brasileiro nos últimos anos, segundo os relatórios públicos do PipeRun e da HubCount. O PipeRun, em 2024, citou dados da SaaS Capital mostrando que a empresa SaaS mediana gasta R$ 2,00 para adquirir cada R$ 1,00 de nova receita recorrente anual. Em tradução prática, uma operação SaaS que fature R$ 100 mil por mês precisa gastar cerca de R$ 200 mil em aquisição ao longo de doze meses para repor a base que perdeu, antes de começar a crescer. A conta fecha com LTV pelo menos três vezes maior que CAC, proporção abaixo da qual qualquer métrica de crescimento vira crescimento deficitário.
O mesmo vale para o varejo. Em 2025, o Panorama PME 2025 da RD Station, estudo construído com 3.877 respondentes de empresas de todo o Brasil, apontou que 57% dos profissionais de marketing apontaram o Custo de Aquisição por Cliente como um dos indicadores mais difíceis de analisar, e 58% disseram o mesmo do Custo de Aquisição por Lead. Mais da metade do mercado, portanto, declara não conseguir medir o número que decide se o investimento em captação vai dar retorno. Em paralelo, o CX Trends 2026 da Opinion Box e Octadesk, baseado em mais de 2 mil entrevistas com consumidores brasileiros, mostrou que 56% dos consumidores desistem de comprar quando não confiam na marca, e que 49% pesquisam no Reclame Aqui antes da compra. O custo de conquistar esse cliente é maior porque o consumidor tem mais informação. Logo, retê-lo passa a ser a única alavanca de receita que não exige nova campanha.
Três alavancas práticas para a segunda-feira
Para um pequeno negócio que ainda não calculou o próprio LTV, três movimentos cabem no início da semana sem investimento extra em ferramenta. O primeiro é levantar três números do próprio caixa: ticket médio dos últimos três meses, frequência de compra por cliente e tempo médio entre a primeira e a última compra registrada. Esses três valores, multiplicados, devolvem o LTV atual, mesmo que de forma aproximada. O cálculo sai em qualquer planilha, e a Serasa Experian, no próprio conteúdo institucional sobre o indicador, ensina a fórmula em três passos.
O segundo movimento é separar os clientes dos últimos doze meses em dois grupos: os que compraram uma única vez e os que voltaram ao menos duas vezes. O LTV do segundo grupo costuma ser entre quatro e sete vezes maior que o do primeiro, e isso aparece em qualquer base de CRM, conforme documentado em estudo da Universidade Federal de Uberlândia publicado em 2024 no repositório acadêmico da instituição. Quem já comprou duas vezes e foi bem atendido na segunda compra tem probabilidade muito maior de comprar a terceira. A terceira alavanca é cortar o que não converte. Os Panoramas RD Station 2025, estudo construído com 3.877 respondentes brasileiros, mostraram queda em todos os indicadores analisados em relação ao ano anterior, e o recorte por segmento de ecommerce indicou que 60% dos respondentes apontaram o CAC como o indicador mais complexo. Cortar canal que não converte antes de aumentar orçamento é a forma mais rápida de melhorar a relação LTV/CAC sem inflar o denominador.
O que une esses movimentos é o mesmo que aparece no release do Nubank e no boletim da Serasa Experian: não existe crescimento sustentável sem medir o que cada cliente deixa de valor pelo tempo que permanece na base. Em 2025, a fatura veio para 8,5 milhões de micro e pequenas empresas brasileiras, em R$ 185,4 bilhões de dívida acumulada. Para quem opera do lado de lá do balcão, a conclusão é a mesma que o mercado entendeu ao longo da década: o número que importa não é quantos clientes novos entraram na semana passada, mas quanto cada um deles ainda vai deixar até decidir sair.
Fontes consultadas
- Serasa Experian. Recorde histórico: Empresas encerraram 2025 com R$ 213 bilhões em dívidas e inadimplência no maior patamar já registrado. Sala de Imprensa, abril de 2026. https://www.serasaexperian.com.br/sala-de-imprensa/indicadores/recorde-historico-empresas-encerraram-2025-com-rdollar-213-bilhoes-em-dividas-e-inadimplencia-no-maior-patamar-ja-registrado-aponta-serasa-experian/
- Nubank. NuHeadlines edição 41, com resultados do 3T25. Novembro de 2025. https://cdn.nubank.com.br/newsletter/nuheadlines-editions/41/nuheadlines-41-pt.html
- Salesforce Brasil. Customer Lifetime Value (LTV): O que é e como otimizar. Blog Salesforce BR, 14 de setembro de 2026. https://www.salesforce.com/br/blog/customer-lifetime-value-o-que-e/
- HubCount. Seu cliente vale o que você investe? Descubra usando CAC e LTV. https://www.hubcount.com.br/artigo/entenda-cac-e-ltv
- Opinion Box e Octadesk. CX Trends 2026: dados e tendências de customer experience no Brasil. Abril de 2026. https://blog.opinionbox.com/tendencias-de-customer-experience/amp/
- Universidade Federal de Uberlândia. Implementação e Análise dos Indicadores de CAC e LTV em uma Empresa de ERP. Repositório UFU, 2024. https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/42259/1/Implementa%C3%A7%C3%A3oAn%C3%A1liseIndicadores.pdf
- InfoMoney. Rodrigo Bessa assume como gerente geral da Salesforce no Brasil. 1 de agosto de 2025. https://www.infomoney.com.br/business/rodrigo-bessa-assume-como-gerente-geral-da-salesforce-no-brasil/
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