O dinheiro do agro mudou de papel, e a XP mostra como a nova rota funciona
A queda dos certificados veio acompanhada por uma mudança regulatória e por fundos que passaram a concentrar operações de crédito, terras e recebíveis do setor
O mercado de financiamento do agronegócio não ficou sem dinheiro. Ele mudou de instrumento. Entre janeiro e setembro de 2026, as emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio, os CRAs, caíram para R$ 11,1 bilhões, recuo de 62,3% sobre o mesmo período de 2025. Na outra ponta, as Cédulas de Produto Rural Financeiras, as CPR-F, subiram de R$ 3,9 bilhões para R$ 11,8 bilhões, e os Fiagros chegaram a R$ 10,2 bilhões. Os dados são da reportagem do Seu Dinheiro baseada nos números da Anbima.
A leitura correta não é que o CRA desapareceu. O que mudou foi a porta de entrada para o crédito. A regra de enquadramento ficou mais estreita, as empresas passaram a combinar títulos diferentes e os fundos ganharam capacidade para reunir essas operações em uma única carteira. O caso do novo Fiagro da XP, lançado em outubro com previsão de aplicar R$ 5,3 bilhões em 19 empresas, ajuda a enxergar esse mecanismo com nomes, valores e conflitos concretos.
A regra do CRA ficou menor quando o CMN mudou o lastro
O primeiro movimento veio da regulação. A Resolução CMN nº 5.212, publicada em 22 de maio de 2025, alterou a norma que define os lastros elegíveis para CRAs, CRIs e CDCAs. No caso do CRA, o texto passou a exigir que a pessoa jurídica tenha o agronegócio como setor principal de atividade. A mudança não atingiu ofertas que já tinham sido distribuídas ou que já tinham pedido registro na Comissão de Valores Mobiliários antes da vigência.
Na explicação apresentada pela Anbima, a consequência prática foi a saída de empresas que dependiam do CRA, mas não conseguiam mais provar que o agro representava mais de dois terços da receita consolidada. Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da entidade, afirmou que parte dessas companhias buscou a CPR-F para continuar captando dentro da cadeia agroindustrial. A CPR já existia. O que mudou foi sua frequência como alternativa de financiamento para empresas que perderam o enquadramento anterior.
Essa distinção é relevante para quem analisa uma emissão. O CRA é um certificado de recebíveis, normalmente estruturado por uma companhia securitizadora com créditos do agronegócio como lastro. A CPR-F é um título emitido para representar uma obrigação financeira ligada à atividade rural. São instrumentos diferentes, com devedores, garantias, prazos e formas de análise próprios. A isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas, quando obedecidos os requisitos legais aplicáveis ao emissor e à operação, não elimina essa diferença.
Os números da Anbima mostram a dimensão da troca. O volume de CPR-F cresceu R$ 7,9 bilhões entre os nove primeiros meses de 2025 e o mesmo intervalo de 2026. Nesse cálculo, R$ 11,8 bilhões menos R$ 3,9 bilhões resultam em uma expansão nominal de R$ 7,9 bilhões. No mesmo período, os CRAs encolheram R$ 18,4 bilhões, de R$ 29,5 bilhões para R$ 11,1 bilhões, valor aproximado obtido a partir da queda de 62,3% informada pela entidade. A CPR absorveu parte do espaço perdido, mas não todo ele.
A XP montou uma carteira com CRA, CPR-F e conflito de interesses declarado
O novo produto da XP deixa a migração visível. Em reportagem publicada pelo Globo Rural em 6 de outubro de 2026, a XP Vista Asset Management aparece como responsável pelo lançamento de um Fiagro de R$ 5,3 bilhões. O prospecto previa investimentos em títulos emitidos por 19 empresas do agronegócio. A carteira não foi desenhada em torno de um papel único.
O planejamento reservava cerca de R$ 415 milhões, pouco mais de 10% do fundo, para um CRA da Seara, produtora de carnes controlada pela JBS. O mesmo CRA poderia receber outros R$ 194,7 milhões do fundo, com uma diferença de taxa. Para a Suzano, estavam previstos R$ 330,5 milhões em uma CPR-F, equivalentes a 8% dos recursos, além de outros R$ 228,1 milhões por meio de outra CPR-F. A Cocal aparecia com previsão de receber R$ 280 milhões, ou 6,9% do dinheiro.
O restante da programação incluía CRAs de empresas como JF Citrus, CMAA, Nardini, Mantiqueira, Pluma, UISA, Eldorado, BRF, Lar Cooperativa, Agroterenas, 3tentos, Jalles Machado, Zilor, Usina Batatais e Boa Safra. O exemplo mostra a função prática do Fiagro: reunir ativos que, individualmente, poderiam chegar ao investidor por emissões separadas, e organizá-los dentro de uma estrutura com classes diferentes de cotas.
O prospecto também registrou um ponto que não pode ser escondido pela embalagem do produto. A XP informou que as contrapartes dos ativos listados eram pessoas direta ou indiretamente ligadas à administradora ou à gestora. Por isso, as aquisições tinham potencial conflito de interesses e dependiam de aprovação em assembleia. O documento dividiu o fundo em quatro subclasses seniores, de A1 a A4, e duas subordinadas, B e C. A subclasse B tinha rentabilidade-alvo de CDI mais 4,5% ao ano. A C não tinha rentabilidade-alvo.

O Fiagro deixou de ser uma vitrine de terras e virou estrutura de crédito
A expansão dos Fiagros não depende só de uma mudança de preferência dos investidores. Ela também está ligada ao que esse tipo de fundo pode comprar. A cartilha sobre Fiagro disponibilizada pela CVM explica que a estrutura pode investir em ativos financeiros, títulos de crédito e valores mobiliários emitidos por integrantes das cadeias agroindustriais. Também pode adquirir direitos creditórios do agronegócio, títulos de securitização, imóveis rurais e participações em sociedades da cadeia.
Isso permite que o fundo funcione em mais de uma etapa do negócio. Pode comprar um CRA, uma CPR ou outro recebível. Pode deter terra rural para arrendamento ou alienação. Pode participar de empresas. Cada escolha muda o risco, o prazo de retorno e a maneira pela qual o investidor acompanha a carteira. Chamar todo Fiagro de “FII do agro” simplifica justamente o ponto que passou a explicar seu crescimento: a possibilidade de combinar ativos diferentes.
A Anbima registrou que as ofertas de Fiagros subiram de R$ 2,7 bilhões para R$ 10,2 bilhões entre janeiro e setembro de 2025 e 2026. A alta foi de 274,7%. A quantidade de operações também avançou, de 31 para 95. Minha conta a partir desses dados é direta: o volume médio por operação caiu de aproximadamente R$ 87,1 milhões para R$ 107,4 milhões. O cálculo usa R$ 2,7 bilhões divididos por 31 e R$ 10,2 bilhões divididos por 95. O valor médio aumentou cerca de R$ 20,3 milhões, embora o número de operações tenha mais que triplicado.
O dado indica que o salto não veio de uma única emissão gigantesca. Houve mais operações e, na média, elas foram maiores. A XP é um caso expressivo, com R$ 5,3 bilhões previstos, mas não explica sozinha a série. Em agosto, a própria Anbima informou que os Fiagros movimentaram cerca de R$ 1,4 bilhão, volume 26 vezes superior ao de agosto de 2025.
O crescimento dos substitutos não compensou toda a perda do mercado
A troca de instrumentos tem um limite. De acordo com os dados apresentados na matéria do Seu Dinheiro, o mercado de títulos do agronegócio somou R$ 33,1 bilhões no acumulado de janeiro a setembro de 2026, queda de 8,2%. Portanto, a alta de CPR-F e Fiagros não significa que cada real retirado dos CRAs reapareceu em outro papel. Parte do financiamento deixou de ser captada, ou passou por estruturas que não entram nessa comparação específica.
O Boletim de Finanças do Agro do Ministério da Agricultura, publicado em 14 de outubro, ajuda a separar fluxo e estoque. Em setembro, havia R$ 597 bilhões em CPR registradas, distribuídas por 333 mil cédulas, com valor médio de R$ 1,79 milhão. Entre julho e setembro, os três primeiros meses da safra 2026/2027, novas CPRs somaram R$ 98 bilhões. O mesmo boletim apontou R$ 175 bilhões em estoque de CRA e patrimônio líquido de R$ 73 bilhões nos Fiagros, com 301 fundos em operação.
Esses valores não devem ser somados como se fossem dinheiro independente. Uma CPR pode servir de lastro para um CRA. Um CRA pode entrar na carteira de um Fiagro. A própria divulgação do Mapa alerta para essa sobreposição. O estoque mostra o tamanho dos instrumentos em circulação, enquanto os dados da Anbima sobre emissões mostram o movimento de novas ofertas em um período. Misturar os dois produz uma fotografia errada do crédito disponível.
O problema de crédito do agro também aparece no contexto da mudança. Produtores e empresas enfrentam inadimplência e dificuldade para fechar novas operações. Quando o risco percebido aumenta, o investidor exige mais proteção, e o emissor precisa oferecer garantias, subordinação ou remuneração compatível. A migração para CPR-F e Fiagros modifica a forma da captação, mas não remove o risco de quem precisa pagar a dívida.
A conferência do papel começa no prospecto, não na isenção
Para o dono de negócio que busca financiamento, o passo prático é montar uma conferência antes de escolher o instrumento. Primeiro, identifique a atividade principal da empresa e verifique se ela atende à regra de enquadramento do CRA. A Resolução CMN nº 5.212 está no site do Banco Central e deve ser lida junto com os documentos da oferta, porque o texto regulatório define o requisito geral, enquanto o prospecto descreve a operação concreta.
Depois, separe quatro informações no documento: quem é o devedor, qual recebível sustenta o pagamento, quais garantias existem e qual é o prazo. Em uma CPR-F, confira a obrigação financeira e o emissor. Em um CRA, procure a securitizadora, o lastro e os mecanismos de proteção. Em um Fiagro, leia a política de investimento, as classes de cotas, a subordinação e as regras de assembleia. O produto da XP mostra por que essa leitura importa: havia classes seniores e subordinadas, além de potencial conflito de interesses declarado.
Por último, compare o valor que será captado com a finalidade do negócio. R$ 330,5 milhões em uma CPR-F da Suzano não têm o mesmo significado que R$ 330,5 milhões destinados a uma empresa menor, ainda que o nome do título seja igual. O risco está no emissor, no fluxo que paga a dívida, nas garantias e na capacidade de execução. A isenção tributária altera o retorno líquido, mas não transforma uma obrigação de crédito em aplicação sem risco.
O mapa de 2026, portanto, é de substituição parcial. Os CRAs perderam volume depois da mudança regulatória. As CPR-F absorveram parte da demanda. Os Fiagros cresceram porque conseguem empacotar crédito, imóveis e participações em carteiras com diferentes camadas de risco. A XP não encerra a história, mas oferece um caso documentado de como o dinheiro do agronegócio passou a circular por mais de um caminho.
Fontes consultadas
- Seu Dinheiro, dados da Anbima sobre CRA, CPR-F e Fiagro, 20 de outubro de 2026
- Banco Central, Resolução CMN nº 5.212, de 22 de maio de 2025
- Anbima, mercado de capitais em agosto de 2026
- CVM e IBDA, Cartilha Fiagro, conceito, características gerais e tributação
- Globo Rural, Fiagro da XP com alocações previstas em 19 empresas, 6 de outubro de 2026
- Ministério da Agricultura e Pecuária, Boletim de Finanças do Agro, 14 de outubro de 2026
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