Os 41% que usam IA em tarefas isoladas ainda não têm uma operação integrada

O dado aponta menos para falta de ferramentas e mais para processos que ainda não conversam entre si

0 1
Os 41% que usam IA em tarefas isoladas ainda não têm uma operação integrada

Quatro em cada dez empresas usam inteligência artificial em tarefas isoladas, sem conectar o resultado ao restante da operação. O número de 41% aparece no levantamento da Pipefy e muda a pergunta que o dono de negócio precisa fazer: antes de comprar um agente de IA, qual etapa do trabalho será ligada a qual outra?

Esse recorte é mais útil do que a promessa de que um agente pode tomar decisões sozinho. Uma automação que classifica um e-mail, resume um documento ou preenche um campo pode economizar alguns minutos. Se o dado parar ali, a empresa continua dependendo de alguém para copiar a informação, conferir a planilha e iniciar a próxima etapa. A ferramenta executa uma tarefa, mas o processo permanece fragmentado.

A própria página da Pipefy sobre o relatório descreve quatro níveis de maturidade. Segundo o material da empresa, 41,3% mantêm ferramentas que não se comunicam entre si, enquanto apenas 6,3% têm processos orquestrados de ponta a ponta. A diferença é de 35 pontos percentuais. Em termos relativos, há cerca de 6,6 operações fragmentadas para cada operação com orquestração completa. A conta não prova que integrar sistemas resolverá todos os problemas, mas mostra o tamanho da distância entre testar IA e fazê-la atravessar um fluxo inteiro.

O dado nasceu de uma operação que parou no meio do caminho

O levantamento citado na reportagem do Seu Dinheiro separa três situações recorrentes. Em 41% dos casos, a IA resolve uma atribuição única, sem integração com as demais. Em 32%, os funcionários precisam usar várias ferramentas para concluir uma demanda. Em 21%, o trabalho manual ainda domina a rotina. O texto também informa que 21% das empresas que não usam IA gastam mais da metade do expediente lendo e-mails, extraindo valores de documentos e conferindo planilhas.

Esses percentuais descrevem gargalos diferentes. O primeiro é de conexão. A empresa já automatizou uma tarefa, mas não definiu o que acontece antes e depois dela. O segundo é de arquitetura operacional. A equipe alterna entre aplicativos porque cada sistema guarda uma parte da informação. O terceiro é de ausência de automação, com pessoas fazendo a leitura, a transcrição e a conferência do começo ao fim.

Agente de IA entra no primeiro problema com uma capacidade adicional: além de gerar uma resposta, pode consultar informações, seguir regras e executar ações dentro de um fluxo. A documentação da Pipefy dá exemplos concretos. Um agente pode ser acionado quando um cartão entra em uma fase, atualizar campos, criar um cartão, criar um registro, mover o item para outra etapa ou enviar um modelo de e-mail. Isso é diferente de pedir um texto a um chatbot e deixar a execução para uma pessoa.

A diferença também impõe limites. A mesma documentação informa que cada agente pode ter até cinco comportamentos, cada comportamento pode executar até três ações principais e a instrução pode ter até 10 mil caracteres. Arquivos PDF usados como contexto têm limite de 30 páginas por arquivo, e há limites próprios para CSV, TXT, JSON e XML. O agente pode ler uma informação e encaminhar uma ação, mas não se transforma em um sistema sem restrições só porque recebeu uma instrução em linguagem natural.

Mulher de blazer preto examina documento em escritório com prédios visíveis pela janela.

O agente executa a tarefa, mas a regra continua sendo da empresa

Uma parte do discurso comercial sobre agentes mistura autonomia técnica com autonomia de negócio. A primeira significa que o software pode seguir uma sequência sem alguém clicar em cada passo. A segunda seria decidir sozinho o que a empresa deve aceitar, pagar, recusar ou comunicar. São coisas diferentes.

A IBM encontrou essa diferença em seu estudo AI Projects to Profits, feito pelo Institute for Business Value em parceria com a Oxford Economics. A pesquisa reuniu 2.900 executivos em dois levantamentos de 2025. Embora 70% dos participantes considerem a IA agêntica importante para o futuro da organização, os principais obstáculos apontados foram dados, com 49%, confiança, com 46%, e falta de habilidades, com 42%.

A IBM também informa que 69% dos executivos apontaram melhora na tomada de decisão como benefício principal, enquanto 67% citaram redução de custos por automação. Esses números representam a percepção dos executivos pesquisados, não uma garantia de retorno para qualquer empresa. A própria fonte afirma que colocar um agente em um processo existente exige redesenhar a execução, integrar dados e definir como as etapas serão orquestradas.

O caso da Ramp ajuda a mostrar o que significa ligar uma ferramenta a uma operação. Em uma publicação da Microsoft WorkLab, a empresa de operações financeiras é citada por ter mapeado os repasses de trabalho em seus fluxos de finanças. A Microsoft relata que agentes passaram a processar cinco milhões de recibos por mês e economizar 30 mil horas. O valor da informação está na relação entre volume, processo e resultado. Não é a existência do agente que explica o ganho. É a tarefa delimitada, os dados disponíveis e a ação que acontece depois da leitura.

O mesmo texto da Microsoft mostra o outro lado. Entre 500 decisores empresariais de 13 países e 16 setores, quase 80% disseram não conseguir compartilhar dados entre equipes de um modo que faça a IA agêntica funcionar. Apenas 22% concordaram fortemente que a organização documentou os processos e as dependências de dados. A estatística é de empresas grandes, com receitas entre US$ 1 bilhão e mais de US$ 50 bilhões, portanto não pode ser aplicada diretamente a uma pequena empresa brasileira. Ela serve como alerta de engenharia: escala financeira não elimina o trabalho de mapear o processo.

O preço aparece no uso, não só na contratação da plataforma

O custo de um agente precisa ser calculado por execução. A página de preços da Pipefy informa que os planos variam conforme recursos, processos, usuários, API, integrações e suporte, e que os planos Business e Enterprise exigem contato comercial. A documentação de créditos detalha a cobrança das funções de IA. Cada plano inclui 1.000 créditos de uso único. Depois disso, a empresa pode comprar pacotes adicionais de 500, 1.000, 10 mil ou 50 mil créditos.

Na configuração descrita pela central de ajuda, os modelos Lite e Standard consomem dois créditos por execução. O Pro consome três créditos, com uma condição promocional de dois créditos até 8 de outubro de 2026. A análise de documentos acrescenta um crédito, enquanto cálculos e análise ou busca na web acrescentam 0,5 crédito, conforme a documentação de modelos e preços da Pipefy.

Uma conta simples ajuda a evitar a ilusão de que uma automação pequena sempre custa pouco. Se um agente rodar 400 vezes em um mês usando o modelo Standard, consumirá 800 créditos. Com uma leitura de documento em cada execução, serão mais 400 créditos, chegando a 1.200. A operação ultrapassaria os 1.000 créditos incluídos antes de completar o mês. A conta usa os valores publicados pela própria Pipefy e não inclui o preço do plano, usuários, integrações ou impostos. Ela mostra por que volume e tipo de ação precisam entrar na decisão.

Há uma segunda limitação que pesa na escolha. A documentação informa que uma execução com mais de 30 anexos pode ficar fora do limite suportado e não consumir créditos, mas isso não significa que a tarefa será concluída. Também há limites para os formatos de arquivo e para a quantidade de ações por comportamento. O dono precisa testar o caso real com o documento real, em vez de concluir que qualquer pasta de notas fiscais será processada do mesmo modo.

Na segunda-feira, o dono precisa testar o processo antes de escolher o agente

O teste começa com uma única rotina repetitiva. Pode ser a conferência de uma nota fiscal contra um pedido, a triagem de candidatos, a classificação de solicitações de clientes ou a passagem de um pedido aprovado para o financeiro. Escreva o ponto de entrada, os dados que o agente poderá consultar, as três ações que ele deve executar e o ponto em que uma pessoa precisa validar o resultado.

Depois, registre uma amostra de 20 casos reais, sem dados pessoais desnecessários. Meça quanto tempo a equipe gasta hoje, quantos erros aparecem e quantas exceções exigem decisão humana. O agente só deve ser considerado útil se reduzir o tempo ou os erros sem aumentar o retrabalho na etapa seguinte. Um resumo mais rápido que cria uma conferência manual adicional não integrou a operação. Apenas deslocou o gargalo.

Em seguida, defina uma regra de parada. Pagamento, concessão de desconto, recusa de crédito e comunicação sensível não devem ser enviados automaticamente só porque o modelo produziu uma resposta convincente. A central de ajuda da Pipefy mantém uma seção específica sobre validação humana em automações críticas. A documentação também recomenda dar ao agente dados de processos ou documentos que sirvam de contexto. Sem essa base, a instrução pode estar bem escrita e ainda assim operar sobre informação insuficiente.

Por fim, calcule o consumo previsto antes de contratar. Multiplique o número mensal de execuções pelos créditos do modelo escolhido e some as funções extras, como análise documental ou busca na web. Compare o resultado com o plano, os créditos incluídos e o trabalho de revisão humana. Se a rotina não tiver entrada definida, saída verificável e responsável pela exceção, a compra deve esperar. Os 41% do levantamento apontam exatamente o custo de começar pela ferramenta e deixar o processo para depois.

Fontes consultadas

Qual é a Sua Reação?

Curtir Curtir 0
Não Gostei Não Gostei 0
Amor Amor 0
Engraçado Engraçado 0
Uau Uau 0
Triste Triste 0
Bravo Bravo 0
Silvio Cabral Jr

empreendedor na área de tecnologia, com atuação no desenvolvimento de produtos digitais, inovação e segurança da informação. Ao longo da sua trajetória, tem se dedicado a criar soluções que resolvem problemas reais, conectando tecnologia, mercado e comportamento. É fundador de diversas startups , onde desenvolve projetos que utilizam inteligência artificial e novas tecnologias para gerar impacto prático na vida das pessoas.

Comentários (0)

User