Quando a convicção trava o trabalho, a equipe paga a conta
O caso do arquiteto que deixou a Grande Arche mostra por que talento individual precisa de método, escuta e uma equipe capaz de transformar uma ideia em entrega
Uma pessoa insiste em manter o plano original mesmo quando o prazo encurta, o custo sobe e a equipe apresenta uma alternativa viável. A reunião se repete, as decisões ficam concentradas e o trabalho perde velocidade. Em muitos escritórios, esse comportamento aparece como zelo pela qualidade. Minha leitura é menos confortável: quando a convicção impede a revisão do caminho, ela deixa de proteger o projeto e passa a consumir o trabalho de todos.
A história do arquiteto dinamarquês Johan Otto von Spreckelsen ajuda a entender esse limite. Ele venceu, em 1983, o concurso para a construção da Grande Arche de La Défense, em Paris, com um projeto que transformou um monumento em um cubo aberto, descrito pelo órgão responsável pelo distrito como uma janela para o mundo. O edifício foi concluído em 1989, mas Spreckelsen deixou o projeto em 1986 e morreu no ano seguinte, antes de ver a obra pronta. A ideia sobreviveu. O modelo de trabalho do autor, não.
O episódio ganhou nova interpretação com o filme O Grande Arco de Paris, dirigido por Stéphane Demoustier. A produção dramatiza a execução do empreendimento e se concentra na tensão entre a pureza da criação e as exigências concretas de uma obra pública. A reportagem do Brazil Journal registra que o arquiteto trabalhava manualmente, rejeitava cálculos em computador e desprezava os profissionais franceses escalados para ajudá-lo.
A ideia venceu o concurso, mas não resolvia a execução
O mérito de Spreckelsen não deve ser apagado pela forma como o projeto terminou. Segundo a página oficial da Paris La Défense, ele venceu a competição da Tête Défense em 1983. A instituição informa que o projeto foi concluído sob a supervisão de Paul Andreu, depois que Spreckelsen se afastou, e que o edifício tem 110 metros de altura, 35 andares e 80 mil metros quadrados de área.
Esses números mostram a distância entre imaginar uma obra e coordenar a sua entrega. A Grande Arche tem a forma de um cubo com cerca de 100 metros de lado, estrutura de concreto armado, vigas protendidas, revestimento de vidro e restrições ligadas ao subsolo. A simplicidade visual exigia uma operação técnica complexa. A própria Paris La Défense descreve o monumento como um dos projetos de construção mais difíceis por causa das dimensões, da estrutura e das condições do terreno.
O projeto precisava de uma visão arquitetônica, mas também de cálculos, contratos, fornecedores, cronogramas, licenças e decisões compartilhadas. A criação podia nascer de uma pessoa. A execução dependia de um sistema. Essa diferença serve para qualquer pequeno negócio que ainda concentra toda escolha relevante no fundador ou no profissional considerado indispensável.
O problema não está em defender um padrão. Está em tratar toda contribuição externa como ameaça ao padrão. Quando uma equipe não consegue questionar uma decisão, o gestor perde acesso às informações que só aparecem na operação. O erro chega tarde, quando corrigir custa mais.
A resistência à mudança aparece antes do conflito aberto
Um estudo publicado na revista Psico analisou 227 funcionários de uma empresa pública de João Pessoa, com idade média de 40 anos. Os pesquisadores Dayse Ayres do Nascimento Freires, Valdiney Veloso Gouveia, Silvana Ligia Vincenzi Bortolotti e Fabio Teodoro Tolfo Ribas relacionaram resistência à mudança, clima organizacional, valores humanos e desempenho autopercebido. O artigo disponível no repositório da Universidade Federal de Santa Catarina concluiu que valores idealistas e clima organizacional explicaram a resistência à mudança, que por sua vez previu o desempenho autopercebido.
O resultado não autoriza chamar toda discordância de resistência. Ele sugere que a reação depende da combinação entre características individuais e ambiente. A pessoa pode resistir porque prefere a rotina, porque não recebeu informação suficiente, porque desconfia da liderança, porque teme perder segurança ou porque não vê espaço para participar. A mesma mudança pode ser recebida de modo diferente por duas equipes que trabalham sob chefias distintas.
O artigo também apresenta a resistência como uma atitude com dimensões cognitivas, afetivas e comportamentais. Primeiro, alguém pode julgar que a mudança é ruim. Depois, sentir medo ou irritação. Por fim, atrasar a adoção, evitar o novo procedimento ou tentar manter o processo anterior. O gestor que só observa o comportamento final perde as causas que o produziram.
Há uma conta simples que ajuda a dimensionar o custo da rigidez. O estudo brasileiro ouviu 227 trabalhadores. O caso da Grande Arche envolveu uma obra de 80 mil metros quadrados e 35 andares. A diferença é de escala, mas a proporção do problema se repete: uma decisão concentrada no autor alcança centenas ou milhares de pessoas que dependem dela. Quanto maior o projeto, menor a chance de uma única cabeça enxergar todas as restrições.
Essa conta não transforma 227 funcionários em uma amostra representativa de todas as empresas, nem permite calcular uma perda financeira universal. Ela serve para outra coisa: mostrar que a dificuldade de mudar não é defeito moral de um indivíduo isolado. É uma relação entre pessoa, estrutura e clima. Culpar o funcionário que hesita pode esconder a liderança que não explicou, não treinou ou não abriu espaço para teste.

O caso brasileiro mostra que autonomia precisa de estrutura
Uma pesquisa sobre a startup brasileira Alloy acompanhou as mudanças do modelo de negócios da empresa durante e depois da pandemia. O estudo foi publicado na Revista de Administração da Universidade Federal de Santa Maria, na plataforma SciELO. Os autores usaram entrevistas, documentos e vídeos coletados de agosto de 2019 a julho de 2023. A conclusão foi que a Alloy mudou sua proposta de valor, sua criação de valor e sua captura de valor, saindo de uma plataforma de transações para uma plataforma de inovação.
A empresa real aparece na pesquisa com nome, período e método definidos. Esse detalhe importa. O caso não é uma anedota de consultoria nem uma história atribuída a uma fonte sem identificação. Ele permite observar a mudança com alguma precisão: a escalabilidade diminuiu durante a crise, mas as alterações no modelo aumentaram as externalidades de rede e criaram condições para um retorno à escala.
O estudo relata uma limitação operacional expressa pelo próprio caso. Em determinado momento, a Alloy tinha apenas uma pessoa no desenvolvimento, o que reduzia a agilidade. A empresa precisou mudar o produto e a forma de trabalhar, mas a autonomia oferecida aos clientes exigia educação, compromisso e uma operação menos dependente de intervenção manual. A ideia de dar liberdade só funcionaria com processos que sustentassem essa liberdade.
Outro levantamento, sobre 84 startups brasileiras de comércio eletrônico, chegou a uma conclusão complementar. O artigo de Anderson Betti Frare e Ilse Maria Beuren, registrado pela base RePEc e publicado na Revista de Gestão, analisou a relação entre autonomia no trabalho, agilidade não roteirizada e inovação durante a pandemia. Os resultados indicaram que a agilidade funcionou como mediadora completa entre autonomia e inovação ambidestra.
Em linguagem de gestão, autonomia não significa deixar cada pessoa decidir sem limite. Significa reduzir a espera para escolhas que podem ser feitas perto do problema, com objetivo, limite e critério de revisão. Uma equipe pode testar uma solução sem alterar o padrão inteiro da empresa. O responsável precisa saber o que está autorizado a mudar, qual indicador acompanha o teste e em que data a decisão será reavaliada.
Foi isso que faltou ao arquiteto retratado pelo filme: não talento, mas uma forma de trabalhar que conectasse sua visão às capacidades dos especialistas ao redor. A página oficial de Paris La Défense atribui a conclusão a Paul Andreu, com assistência de François Deslaugiers e Peter Rice. A obra tornou-se uma realização coletiva depois que o controle do autor foi substituído por uma coordenação capaz de preservar a intenção e resolver os problemas.
Magalu transformou o fechamento das lojas em uma decisão de canal
O caso do Magazine Luiza ajuda a separar convicção de apego ao formato. No segundo trimestre de 2020, a companhia informou à Comissão de Valores Mobiliários que suas vendas totais chegaram a R$ 8,6 bilhões, alta de 49% sobre o mesmo período do ano anterior. O release de resultados da empresa registra que a operação digital cresceu 182%, enquanto o comércio eletrônico passou a representar 78,5% das receitas totais.
O dado mais revelador está na combinação. A operação digital cresceu 182% e o total de vendas cresceu 49%, mesmo com a maioria das lojas fechada. A empresa também informou que o marketplace, com 32 mil sellers, avançou 214% no trimestre. A conta não é uma promessa de que todo negócio reproduzirá o resultado. Ela mostra que a companhia não tratou a loja física como identidade intocável. Reorganizou a função dos vendedores, dos canais e da logística para continuar atendendo.
O próprio release relata que o aplicativo Mobile Vendas foi adaptado para permitir atendimento remoto por redes sociais. Também informa que mais de 350 mil pessoas físicas passaram a vender produtos do Magalu pela internet naquele período, segundo a transcrição da teleconferência de resultados disponível no site de relações com investidores. A mudança não apagou a operação física. O modelo passou a combinar canais.
Há uma diferença importante entre esse caso e a história da Grande Arche. No varejo, a revisão foi imposta por uma interrupção externa. No projeto arquitetônico, a tensão cresceu porque a visão original não encontrou uma forma de convivência com a execução. Para uma empresa pequena, esperar uma crise para aprender a adaptar processos é caro. O comportamento que funciona em um período estável pode se tornar um bloqueio quando o cliente, a tecnologia ou o prazo muda.
Na segunda-feira, transforme opinião em teste com prazo
O primeiro passo é escolher uma decisão concentrada em uma pessoa e descrevê-la em uma frase. Pode ser a aprovação de um orçamento, a resposta a um cliente, a compra de material ou a publicação de uma campanha. Registre quanto tempo a decisão leva, quantas voltas ela dá e qual erro a concentração pretende evitar.
O segundo passo é separar o que é princípio do que é preferência. Princípio é uma exigência verificável, como margem mínima, prazo legal, segurança ou padrão técnico. Preferência é a maneira escolhida por alguém para chegar ao resultado. A equipe consegue discutir preferências com dados sem transformar toda discordância em deslealdade.
O terceiro passo é autorizar um teste pequeno por sete dias, com uma pessoa responsável, um indicador e uma data de revisão. Se o problema for atendimento, acompanhe tempo de primeira resposta e taxa de resolução. Se for aprovação, conte horas até a decisão e retrabalho. Se for uma ferramenta, compare o processo antigo e o novo no mesmo tipo de tarefa. Sem indicador, a discussão volta a ser gosto contra gosto.
O quarto passo é ouvir quem executa antes de concluir. A pesquisa com 227 trabalhadores mostra por que clima e valores entram na resistência. Pergunte qual perda a pessoa teme, qual informação falta e que parte do procedimento parece insegura. Uma objeção bem explicada pode evitar uma falha. Uma objeção ignorada costuma reaparecer como atraso silencioso.
A Grande Arche ficou de pé porque a ideia encontrou profissionais capazes de convertê-la em estrutura. O recado para o dono de negócio não é abandonar a convicção. É criar um modo de testá-la sem obrigar toda a equipe a obedecer até que o prazo ou o caixa provem o contrário. Talento abre a porta. Coordenação entrega o prédio.
Fontes consultadas
- Brazil Journal, A intransigência de um arquiteto como símbolo de uma Europa estagnada
- Paris La Défense, La Grande Arche
- Universidade Federal de Santa Catarina, Resistência à Mudança Organizacional
- SciELO, estudo de caso da startup Alloy
- RePEc, autonomia e agilidade em 84 startups brasileiras
- Magazine Luiza, release de resultados do segundo trimestre de 2020
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