Selic a 14% e corte quase certo de 0,25 ponto: o que o pequeno empresário precisa saber antes da próxima reunião do Copom

A pergunta certa sobre os juros mudou. Deixou de ser "o Copom vai cortar?" e virou "até onde o corte chega, e quando chega no meu caixa?". Quem responde com a frieza de quem vive de projeção é Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, em...

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Selic a 14% e corte quase certo de 0,25 ponto: o que o pequeno empresário precisa saber antes da próxima reunião do Copom
Cena de trabalho relacionada a Finanças e Prosperidade

A pergunta certa sobre os juros mudou. Deixou de ser "o Copom vai cortar?" e virou "até onde o corte chega, e quando chega no meu caixa?". Quem responde com a frieza de quem vive de projeção é Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, em entrevista ao podcast Touros e Ursos, do Seu Dinheiro: "A gente está com uma taxa básica hoje de 14% ao ano. Ainda tem algum espaço para cortes em função da moderação no ritmo de crescimento da economia. Mas não tem espaço para muito corte." A projeção dele para o fim do ciclo em 2026 é Selic terminal de 13,75% ao ano: um único corte adicional de 0,25 ponto percentual, na reunião marcada para os dias 15 e 16 de setembro.

O mercado trata esse corte como quase decidido. As Opções de Copom negociadas na B3 atribuíam 95% de probabilidade à redução de 0,25 ponto no fechamento de 8 de setembro, contra apenas 3,5% para a manutenção da taxa. Eram 3,27 milhões de contratos em aberto, 2,5% a mais do que em agosto, conforme os dados da própria bolsa. Se a aposta majoritária se confirmar, será o quinto corte consecutivo, e a Selic sairá de 14% para 13,75% ao ano. O combustível desse movimento veio do IPCA de agosto: deflação, puxada por energia, passagem aérea, alimentos e combustíveis, como registrou a Folha de S.Paulo. Na ponta dos analistas, Claudia Moreno, do C6 Bank, prevê a taxa estável em 13,75% até o fim de 2026; Gabriel Pestana, da Genial, projeta o mesmo fechamento; Basiliki Litvac, da XP, é a mais otimista e vê espaço para 13,25% no fim do ano.

Vale um detalhe de leitura para quem não acompanha o noticiário de perto: quando o mercado precifica 95% de chance de corte, a decisão já está embutida nos preços dos ativos. Quem espera a quarta-feira do anúncio para se posicionar chega depois que o dinheiro grosso já se moveu. Para o pequeno empresário, a lição prática é outra: a decisão do Copom é o começo da conversa com o seu banco, não o fim.

O que trava o alívio: petróleo, dólar e clima

Se a inflação está cedendo, por que o BC não acelera? Padovani lista três freios. O primeiro é o petróleo: a disparada do barril depois da guerra entre Estados Unidos e Irã tornou o recuo da inflação mais lento no mundo inteiro, Brasil incluído. O segundo é a volatilidade do dólar, que encarece tudo o que a indústria importa. O terceiro é o El Niño, que pressiona o preço dos alimentos no momento em que o consumidor mais sente o alívio. Com esses três elementos na mesa, a meta de inflação de 3% fica mais difícil de atingir, e o BC tende à cautela: avaliar dado por dado, reunião por reunião, sem anunciar sequência longa de cortes.

O contexto externo também pesa. Padovani colocou o Federal Reserve no quadro dos "ursos" da semana: se o banco central americano for obrigado a voltar a subir juros, mercados emergentes como o Brasil sofrem com fuga de capital e pressão cambial. A França, segunda maior economia da zona do euro, entrou na lista negativa pela piora das contas públicas. Na ponta positiva, ele marcou o próprio corte da Selic e a valorização do Tesouro IPCA+ em agosto, depois de meses pagando taxas recordes.

A atividade econômica dá ao BC a justificativa técnica para cortar. Na semana encerrada em 4 de setembro, o IBGE divulgou crescimento de 0,5% no PIB do segundo trimestre, com estabilidade da demanda doméstica e recuo de 0,4% no consumo das famílias. Economia que perde ritmo pede juro menor; é o manual do Banco Central sendo executado à risca. A pergunta de Padovani é a que define o tamanho do alívio: "Ele está seguro de que a inflação vai voltar para a meta de 3% em algum momento? Está seguro dessa convergência?". Enquanto a resposta for "quase", os cortes continuam de 0,25 em 0,25, devagar e sempre. O boletim Focus, que o próprio BC colhe com os principais analistas toda semana, aponta na mesma direção: mediana de um último corte neste ano e taxa encerrando 2026 em 13,75%.

A conta que ninguém faz pelo empresário

Aqui entra o cruzamento que me interessa, porque número de macroeconomia só importa quando vira boleto. O Brasil tem a maior taxa de juros reais do mundo entre 40 economias, segundo o levantamento da MoneYou com a Lev Intelligence: 9,67% ao ano, à frente da Rússia, com 9,31%. Mesmo com os cortes, o custo do dinheiro continua brutal para quem depende de crédito bancário. A Selic a 13,75% mantém o capital de giro caro, o antecipado de recebíveis caro e o cheque especial fora de cogitação. Vale um contraste histórico: no pior momento do ciclo anterior de aperto, a Selic passou anos abaixo de 7%. Quem abriu empresa entre 2017 e 2022 aprendeu a operar com dinheiro barato. Quem abriu depois de 2024 aprendeu outro ofício: sobreviver com dinheiro caro.

Registro também o que muda na ponta do crédito. Quando a Selic cai, a primeira taxa a responder é a de investimento, não a de empréstimo. O Tesouro Direto e os CDBs reajustam na hora; o capital de giro do banco demora meses. O empresário que espera a queda "chegar no balcão" antes de agir costuma chegar atrasado duas vezes: paga caro na dívida velha e perde o rendimento da aplicação nova.

Faça a conta comigo. Um financiamento de capital de giro de R$ 200 mil, contratado a taxa de mercado atrelada à Selic de 14%, custa em juros algo em torno de R$ 28 mil ao ano. Se a Selic fechar 2026 em 13,75% e ficar por ali, o alívio direto sobre esse contrato é da ordem de R$ 500 no ano. Quinhentos reais. É por isso que eu digo: o corte da próxima semana é notícia boa para o mercado financeiro, mas ainda não muda a vida de quem opera no varejo. O alívio de verdade só vem quando a Selic se aproximar de um dígito, e Padovani é claro sobre a condição: credibilidade. "O nome do jogo é credibilidade", disse ele. O BC não precisa entregar a inflação de 3% amanhã; precisa convencer o mercado de que vai entregar. Quando essa confiança se consolidar, a Selic pode caminhar para perto de 10% ao ano. Até lá, cada reunião do Copom é mais um passo de formiga numa estrada longa.

Pessoa sentada no chão organiza formulários de impostos ao lado de celular e caneta.

O que fazer com o caixa até lá

Se você toca um negócio, três movimentos práticos fazem sentido neste momento. Primeiro: se você tem dívida cara indexada a taxas pré-fixadas antigas, renegocie quando a Selic cair, porque cada corte de 0,25 ponto abre janela de refinanciamento mais barato, mesmo que pequena. Segundo: se você tem caixa parado, o Tesouro IPCA+ valorizou em agosto justamente pela combinação de juros altos e inflação arrefecendo; a fase de taxas recordes de renda fixa ainda não acabou. Terceiro, e mais importante: não tome decisão de expansão apostando em queda rápida de juros. O próprio economista do BV, que trabalha com a hipótese mais construtiva entre os analistas ouvidos esta semana, prevê apenas um corte adicional neste ano. Planeje o seu 2027 com Selic de dois dígitos no radar. Se o alívio vier antes, é lucro. Se não vier, você não quebrou por causa de uma previsão alheia.

Há ainda um efeito colateral que pouca gente comenta fora do mercado financeiro: o comportamento do seu cliente muda antes da sua taxa mudar. Com a renda fixa pagando acima de 13% ao ano, o consumidor de alta renda adia consumo e o de baixa renda corta o supérfluo. O varejo sente isso primeiro no ticket médio, depois no volume. Se o seu faturamento dos próximos dois trimestres depende de consumo discricionário, trate o corte de setembro como sinal de direção, não de virada. A virada de verdade, na leitura de Padovani e do mercado, fica para quando a Selic deixar a casa dos dois dígitos, e isso hoje é conversa de 2027 em diante.

O cenário de crédito pode melhorar, mas não muda na mesma velocidade para todos os setores.

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