Starbase: como é a vida na cidade formada por funcionários de Elon Musk
Sede da SpaceX, no Texas, que agora é oficialmente a cidade de Starbase Miguel Roberts/The Brownsville Herald via AP Na última vez em que a SpaceX lançou um foguete no sul do Texas, o capitão de barco Eddie Reyes estava a menos de 3 quilômetros da...
Starbase: como é a vida na cidade formada por funcionários de Elon Musk
Resumo: Starbase, sede da SpaceX no sul do Texas, foi incorporada oficialmente como cidade em 2025 após votação entre os moradores — quase todos funcionários da empresa de Elon Musk. A reportagem do g1 mostra os dois lados: o surto econômico que criou 5.000 empregos e US$ 100 milhões em turismo, e os processos judiciais por danos estruturais em casas vizinhas, além de uma morte de trabalhador que a empresa não comentou.
O começo de tudo: de Boca Chica a Starbase
Em 2014, Boca Chica era apenas um conjunto de casas modestas na fronteira dos Estados Unidos com o México, com uma praia popular e pouco mais. A SpaceX chegou à região para testar foguetes e, em menos de uma década, transformou a paisagem por completo. Hoje, duas plataformas de lançamento se erguem a quase 150 metros acima da praia, cercadas por trailers Airstream reluzentes, casas minúsculas bem projetadas e mansões recém-construídas.
A formalização como cidade veio em maio de 2025, quando os moradores — em sua maioria funcionários da SpaceX — votaram pela incorporação. O nome Starbase, tirado do projeto de espaçonave da empresa, é oficial no mapa do Texas. O primeiro prefeito eleito foi Bobby Peden, que também é funcionário da SpaceX, o que dá uma medida do grau de endogenia da política local.
A SpaceX está construindo agora a Starfactory, um galpão de 93 mil metros quadrados destinado a fabricar componentes para até 1.000 foguetes Starship. Ao lado, o Gigabay, com 116 metros de altura, será usado para a montagem final das naves. É uma operação que não tem precedente em escala no setor privado espacial.
O lado que dá certo: economia e comunidade própria
Os números da Greater Brownsville Economic Development Corporation, divulgados em março de 2026, dão a dimensão do impacto: 5.000 empregos criados e US$ 100 milhões em receita de turismo no último ano. Para uma região historicamente deprimida do Vale do Rio Grande, que tem 1,4 milhão de habitantes, é um salto relevante.
Tino Villarreal, vereador de Brownsville (cidade vizinha com 185 mil habitantes), resumiu a transformação numa frase que se espalhou pela região: "Musk agiu na velocidade da luz, e acho que isso ajudou Brownsville a crescer e se desenvolver muito mais rapidamente. Foi como injetar um esteroide em Brownsville."
A vida dentro da Starbase tem traços singulares. A placa na entrada diz: "Embaixada em Marte. Futura Localização." O transporte local é feito de bicicleta e Tesla Cybertruck. Existe um bar chamado Astropub que atende apenas funcionários da SpaceX. As crianças da escola Ad Astra, mantida pela empresa, aprendem "números na casa dos milhares — muito além dos padrões do jardim de infância", segundo relato de uma professora local à reportagem do g1.
Kathryn Leuders, ex-gerente geral da Starbase, descreveu a transição em entrevista ao g1: "Quando cheguei, tínhamos apenas uma rua com casas, construíamos foguetes em tendas e não tínhamos água nem sistema de esgoto. Agora, você cria famílias e cria filhos nesta comunidade que é a Starbase, que também tem uma plataforma de lançamento no quintal. É algo realmente incrível."
O lado que não dá certo: casas rachando e um trabalhador morto
Moradores das cidades vizinhas — Laguna Vista, Port Isabel e South Padre Island —entraram com uma ação coletiva contra a SpaceX em abril de 2026. A queixa central: as ondas de choque dos lançamentos estão rachando estruturas, soltando vedações de janelas e comprometendo fundações.
Um dos casos mais simbólicos é o de Eddie Reyes, capitão de barco que já teve benefícios da expansão: as ondas de um lançamento racharam o teto da casa da mãe dele, e o mofo resultante de um cano rompido deformou o piso. O orçamento para reparo de fundação foi estimado em US$ 100 mil — mais da metade do valor do imóvel. Uma moradora de Port Isabel, que pediu anonimato, contou à reportagem que armários ficaram desnivelados e portas pararam de fechar.
Em entrevista ao g1, ela fez uma pergunta que resume o sentimento de parte da região: "Eles querem chegar a Marte. Mas e nós que estamos aqui? Eu estou aqui agora. E ninguém está pensando em nós."
A isso se soma um caso mais grave: José Bautista, 25 anos, trabalhador terceirizado, morreu após cair em uma instalação da SpaceX antes do lançamento da Starship no mês passado. A empresa não respondeu aos pedidos de comentário da reportagem e não reconheceu publicamente a morte. A OSHA, agência federal de segurança do trabalho, também não se manifestou até a publicação. O gabinete do xerife do condado de Cameron encaminhou pedidos de informação à SpaceX.
Nas redes sociais, um vídeo do pesquisador Etienne Rosas cobrando responsabilidade acumulou milhares de curtidas. Um primo de Bautista publicou: "Minha família precisa de orações." Em contrapartida, um defensor da empresa comentou: "Projetos de grande magnitude, como a Represa Hoover, sempre ceifam vidas — e ainda assim continuam. É o jeito americano."
O pano de fundo financeiro: o IPO da SpaceX
Toda essa tensão local acontece às vésperas de um dos eventos mais esperados do mercado financeiro global: o IPO da SpaceX. A oferta pretende captar US$ 75 bilhões, o maior valor já obtido em uma oferta inicial desse tipo. O cálculo é simples: a Starbase é, na prática, a unidade de demonstração operacional do ativo que vai ser vendido a investidores do mundo inteiro.
Por isso, o que acontece em Brownsville interessa a quem opera em Nova York, Londres e São Paulo. Os danos às casas e a morte de Bautista são más notícias para a tese de "operação bem administrada" que sustenta parte da avaliação bilionária da empresa. A reação da SpaceX — o silêncio público — é parte do cálculo, e também do risco.
O que a Starbase ensina sobre cidades-empresa
Starbase não é a primeira cidade-empresa da história. Pullman, nos Estados Unidos, foi construída nos anos 1880 para funcionários da ferrovia. Hershey, na Pensilvânia, foi planejada por Milton Hershey em torno de sua fábrica de chocolate. O que muda agora é a escala do capital, a visibilidade global e a natureza do produto — foguetes que precisam de plataformas enormes, perto do equador para ganhar impulso rotacional, longe de grandes populações por segurança.
A pergunta que fica não é se esse modelo vai se replicar. É quem responde quando as externalidades — casas rachadas, trabalhadores mortos, ruído que ninguém quis discutir antes — aparecem. A SpaceX escolheu o silêncio. Brownsville está escolhendo a ação judicial. O IPO vai forçar a escolha seguinte, porque investidores institucionais não compram exposição a esse tipo de passivo sem desconto.
Para empreendedores brasileiros que olham para casos como o de Starbase como inspiração, a lição é ambígua. É possível criar uma cidade-empresa de fato? Sim, com capital suficiente, regulação permissiva e uma proposta de valor que atraia talento. É possível fazer isso sem externalidades graves? A resposta de Starbase até agora é não. E, como mostrou o caso de Eddie Reyes, os custos não caem sobre a empresa — caem sobre a vizinhança.
O que observar nos próximos meses
Três frentes vão definir o desfecho dessa história. A primeira é a ação coletiva: se a SpaceX fechar um acordo com os moradores de Laguna Vista, Port Isabel e South Padre Island, vai criar um precedente importante. Se a disputa for longa, o caso pode virar referência em direito ambiental americano.
A segunda é a posição da OSHA sobre a morte de Bautista. Uma autuação grave poderia forçar mudanças operacionais e abrir espaço para mais ações trabalhistas. A terceira é o IPO: a data, o preço e a forma como a SpaceX apresentar seus números de governança ambiental e segurança vão dizer muito sobre o que o mercado topa absorver.
Para quem acompanha de fora, vale acompanhar os desdobramentos pelo g1, pela Reuters e pela cobertura local do Brownsville Herald, citada na reportagem. A Starbase é, hoje, o experimento de cidade-empresa mais visível do planeta. E está longe de estar pronto.
Fonte original: Starbase: como é a vida na cidade formada por funcionários de Elon Musk, publicado por g1 em 11/06/2026. Conteúdo adaptado por redação.
Qual é a Sua Reação?
Curtir
0
Não Gostei
0
Amor
0
Engraçado
0
Bravo
0
Triste
0
Uau
0