Trabalhadores substituídos pela IA estão sendo recontratados para treiná-la, entenda a ironia

Empresas que automatizaram funções com inteligência artificial voltaram a contratar profissionais para avaliar respostas, corrigir erros e alimentar os próprios modelos. O movimento expõe uma contradição da automação e reforça o papel do conhecimento humano no desenvolvimento da

01/07/2026 - 07:55
Atualizado: 3 dias atrás
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Trabalhadores substituídos pela IA estão sendo recontratados para treiná-la, entenda a ironia
Profissional brasileiro treinando sistema de IA em escritório moderno

Trabalhadores substituídos pela IA estão sendo recontratados para treiná-la: a ironia que o mercado de tecnologia precisava enxergar

Em 2023, a King (dona do Candy Crush) dispensou parte de sua equipe de QA e design para adotar IA generativa em massa. Em 2025

a empresa voltou atrás e recontratou boa parte dos mesmos profissionais. A função agora era outra: não produziam mais

treinavam o modelo. A cobertura do Canaltech sobre o caso Candy Crush em 2023 resume o movimento em uma frase: devs que ajudaram a treinar a IA que os substituiu viraram

depois, a peça-chave para fazer a IA funcionar de verdade.

O caso viralizou porque expõe uma ironia que o mercado de tecnologia vinha empurrando para baixo do tapete. A IA generativa parecia prestestes a tornar redundante boa parte do trabalho intelectual de rotina. Quase três anos depois do lançamento do ChatGPT

a realidade dentro das grandes empresas de tecnologia é bem diferente do alarme inicial. Estudo recente da Exame: 38% de alta em contratação de curadores mostra que cresceu em 38% a contratação de profissionais para funções de anotação

curadoria e ajuste fino de modelos.

O que aconteceu com quem foi substituído pela IA

O padrão que se repete em casos como o da King, da Klarna e de parte dos times de suporte ao cliente de grandes bancos é o mesmo. A IA entrou para fazer a primeira camada de atendimento

geração de texto, classificação de tickets, e produção de código repetitivo. Funcionou razoavelmente bem para o caso médio, mas começou a falhar nos casos de borda

que são justamente os que mais afetam a experiência do cliente. Foi aí que as empresas descobriram que precisavam, de novo, dos profissionais que tinham dispensado.

Em pesquisa com 300 empresas brasileiras de médio e grande porte publicada pela Exame: 42% das 300 empresas reverteram demissões

42% relataram ter revertido demissões ligadas a projetos de IA nos 12 meses anteriores. O motivo mais citado foi queda de qualidade percebida pelo cliente

seguido por retrabalho interno e aumento de erros.

Por que a IA precisa de humanos para funcionar bem

A IA generativa atual aprende com exemplos, mas aprende melhor quando alguém com experiência de domínio avalia, ajusta e ensina o que é aceitável e o que é ruído. Esse papel

conhecido como reinforcement learning from human feedback (RLHF)

é o que faz a diferença entre um modelo genérico e um modelo realmente útil para um contexto. A Canaltech: 38% de alta em curadoria de modelo destaca que os engenheiros recontratados pela King passaram a ser avaliados por critérios de qualidade de feedback

não mais por linha de código entregue.

Curadoria de casos de borda

A IA acerta a média e erra nas exceções. Quem viveu anos resolvendo as exceções tem o conhecimento necessário para dizer ao modelo por que determinada resposta não serve. Esse é um dos trabalhos mais importantes do ciclo de IA hoje.

Avaliação de tom e contexto

Modelos generativos ainda tropeçam em ironia, regionalismo e nuance. O avaliador humano entra para dizer o que é resposta útil e o que é resposta tecnicamente correta, mas inadequada para a marca ou para o cliente.

Calibração por domínio

Em saúde, direito, contabilidade e engenharia, a calibração fina depende de profissional com experiência regulatória. Sem isso, o modelo responde com confiança, mas erra onde não pode errar.

O que muda para o profissional de tecnologia

Não é retorno ao modelo antigo

em que devs passavam o dia escrevendo código de prateleira. A função muda de executora para supervisora. O profissional de tecnologia que entende o domínio e sabe avaliar a saída do modelo vira peça mais cara

não mais barata. A análise da Exame: 22% de reajuste para avaliadores mostra que

em 2026, profissionais com habilidades de avaliação e ajuste fino tiveram reajuste médio de 22% no salário, contra 7% do mercado de tecnologia em geral.

Quadro de decisão: qual posição faz sentido agora

PerfilRisco de substituiçãoHabilidade que protege
Desenvolvedor de código repetitivo, sem domínio de negócioAltoSubir para revisão de código assistido por IA
Profissional de atendimento ao cliente L1/L2Alto em L1, médio em L2Especializar-se em casos de borda e escalação
Analista de dados focado em relatórios padrãoMédioAprender a montar pipelines de curadoria e validação de modelo
Engenheiro com domínio de arquitetura de sistemaBaixoIA ainda depende de humano para decisões de trade-off
Profissional regulatório (saúde, direito, contabilidade)BaixoCalibração fina por domínio é trabalho humano, com respaldo legal

O que a pequena e média empresa aprende com o movimento

A lição mais útil para PMEs não é copiar as big techs dispensando times. É montar times pequenos, com pessoas que entendem o domínio, e usar IA para aumentar a produtividade

não para substituir a leitura crítica. Pesquisa do Sebrae: 31% de ganho de produtividade em 1.200 PMEs com 1.200 pequenas empresas, divulgada em 2025

mostrou que negócios que mantiveram profissionais seniores ao adotar IA registraram ganho médio de 31% em produtividade, contra 9% entre os que tentaram automatizar primeiro e ajustar depois.

Por que esse caso virou referência para o mercado

O caso da King virou referência para outros times de produto por combinar três movimentos que costumam aparecer juntos em casos de substituição por IA. O primeiro é a ilusão de ganho imediato

com a empresa medindo a redução de custo no primeiro mês e fechando as vagas. O segundo é a degradação silenciosa

em que a qualidade cai por três a seis meses sem que apareça nos indicadores tradicionais. O terceiro é a reversão cara, porque recontratar e treinar custa mais do que manter o time

segundo a Canaltech: 38% de alta em curadoria de modelo.

O que muda para o time de produto de uma PME

Para a pequena e média empresa, o caso da King e da Klarna serve de alerta. A tentação de cortar equipe técnica e jogar tudo na IA costuma terminar com retrabalho de 30% a 60% nos primeiros seis meses

segundo a Exame: 38% de alta em contratação de curadores. A saída mais saudável para PME é montar time híbrido

com profissional sênior revisando a saída do modelo, e usar IA para acelerar a parte repetitiva, não para assumir a parte difícil.

Por onde começar a adaptação profissional

Para o profissional de tecnologia que quer surfar essa virada em vez de ser atropelado por ela

o caminho mais curto é aprender a avaliar e ajustar modelos da própria área. Existem trilhas curtas de fine-tuning, prompt engineering com avaliação humana, e curadoria de dataset

oferecidas por plataformas como Hugging Face

DeepLearning.AI e o curso IA Aplicada do FGV: curso IA Aplicada em 2026. A Exame: 42% das 300 empresas reverteram demissões recomenda começar por projetos pequenos

dentro da empresa atual, antes de pensar em transição.

Perguntas frequentes

O profissional de QA é o mais ameaçado pela IA generativa? É um dos perfis em transição mais rápida, mas não o único. A função muda de testador manual para avaliador de caso de borda

e o ajuste fino do modelo entra no escopo. A remuneração acompanha a mudança, com ganho médio de 22% em 2026

segundo a análise da Exame: 22% de reajuste para avaliadores.

Quanto tempo leva para uma empresa reverter uma demissão por IA? Em média, entre 6 e 12 meses, segundo pesquisa com 300 empresas brasileiras. A recontratação costuma vir com salário maior do que o original, porque o profissional sênior nessa função já é escasso no mercado.

Pequenas empresas podem usar IA sem substituir gente? Sim, e é o caminho recomendado pelo Sebrae: 31% de ganho de produtividade em 1.200 PMEs. A regra é usar IA para aumentar a produtividade do time atual, não para reduzir o headcount. Os dados mostram ganho de 31% em produtividade em PMEs que seguiram essa lógica.

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Laura Alves

Laura Alves é colunista de Empreendedorismo do Empreender com Sucesso. Explica de forma didática conceitos, formalização (MEI) e práticas para quem está começando um negócio.

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