Fundo do Brics pode ampliar o capital, mas a conta começa antes do aporte
A proposta multilateral ganha forma enquanto programas brasileiros já mostram quanto dinheiro e qual estágio uma empresa precisa para crescer
Um fundo do Brics só muda a vida de uma startup brasileira se resolver uma conta bem definida: quanto capital falta, em que estágio a empresa está e qual mercado pode ser atendido com o recurso. A proposta apresentada pelo bloco cria uma possível rota adicional para negócios de inteligência artificial, saúde, energia limpa e infraestrutura digital. Ela ainda não equivale a um cheque disponível. O que já existe, porém, permite comparar o tamanho da oportunidade com os instrumentos nacionais que estão funcionando.
O plano oficial de inovação do Brics para 2025 a 2030 prevê chamadas para financiar projetos conjuntos, um fórum de startups, intercâmbio entre incubadoras e mecanismos de acesso a mercados. O documento também fala em mobilizar capital global para empresas dos países-membros e em facilitar a internacionalização. A diferença entre uma declaração e um investimento é decisiva para quem fatura pouco: a primeira abre uma porta institucional; o segundo exige receita, governança, produto validado e capacidade de prestar contas.
O Brics está montando uma rede antes de montar um cheque
O material oficial do grupo descreve uma arquitetura com várias peças. O iBRICS Network conecta parques tecnológicos, incubadoras e aceleradoras dos países-membros. A proposta de ação para 2025 a 2030 inclui cursos conjuntos, intercâmbio entre ambientes de inovação e programas de soft landing, nome dado ao apoio para uma empresa se estabelecer em outro país. Também está previsto um BRICS Startup Forum, espaço para startups apresentarem projetos a investidores.
Em junho de 2025, a declaração ministerial do bloco na área de inovação registrou o lançamento do BRICS Startup Forum em janeiro daquele ano, sob liderança da Índia. A declaração também mencionou o BRICS Startup Knowledge Hub, uma estrutura de informação para aproximar empresas e ecossistemas. O ponto financeiro aparece ligado à cooperação, não como um fundo já capitalizado com regras de seleção, datas de inscrição e tíquete por empresa.
Essa distinção protege o empreendedor de uma interpretação cara. A notícia sobre o fundo pode gerar reuniões, parcerias e preparação para uma chamada futura. Não autoriza a registrar o valor como receita, tratar o recurso como aprovado ou abandonar fontes nacionais. Para uma empresa pequena, caixa previsto não paga folha. Só o contrato assinado e o dinheiro liquidado cumprem esse papel.
A oportunidade, caso avance, está na conexão entre capital e mercado. Uma startup brasileira pode buscar clientes em outro país do bloco, testar uma solução com uma incubadora local e apresentar um projeto com parceiros estrangeiros. O ganho potencial não é somente financeiro. Uma empresa que prova uso em dois mercados reduz a dependência de um único comprador e melhora a qualidade da informação apresentada a investidores.

O capital nacional já separa a empresa por estágio
O Sebrae organiza o capital empreendedor em faixas que ajudam a tirar a conversa do campo abstrato. No pré-semente, negócios com pouca ou nenhuma receita costumam buscar de R$ 50 mil a R$ 500 mil para concluir o produto, financiar a equipe fundadora e conquistar os primeiros clientes. No capital semente, a faixa indicada vai de R$ 500 mil a R$ 5 milhões, voltada para empresas em operação, com receita recorrente e necessidade de ampliar a base de clientes e a equipe.
O estágio seguinte é o venture capital. Para negócios com modelo validado e receita recorrente, o Sebrae aponta aportes de R$ 5 milhões a R$ 30 milhões para expansão geográfica, abertura de mercados, ampliação da linha de produtos ou aquisição de concorrentes. O private equity aparece acima de R$ 30 milhões, em empresas maduras que buscam expansão internacional, aquisições ou preparação para a bolsa.
A conta é simples e útil. Uma startup com receita recorrente, mas ainda sem escala, não deveria apresentar ao investidor a mesma necessidade de uma companhia que já opera em vários países. Se ela está no estágio semente e precisa de R$ 2 milhões, esse pedido fica dentro da faixa de R$ 500 mil a R$ 5 milhões indicada pelo Sebrae. Se a rodada for de R$ 20 milhões, a empresa precisa demonstrar uma mudança de estágio: novos mercados, produto mais amplo ou uma operação capaz de absorver o capital.
Esse enquadramento também evita um erro de planejamento. A startup pode ter uma tecnologia sofisticada e continuar no pré-semente. Tecnologia difícil não substitui receita recorrente nem repetição operacional. O fundo do Brics, se seguir a lógica descrita nos documentos, tende a favorecer projetos com cooperação entre países e aderência aos temas estratégicos do bloco. A empresa precisa traduzir sua inovação em uma operação que tenha destino, prazo e medida.
O FIP da saúde mostra como o dinheiro público pode ganhar forma
Um exemplo brasileiro ajuda a dimensionar o tipo de estrutura que pode aparecer em uma rota multilateral. Em abril de 2025, BNDESPAR, Finep e Fundação Butantan lançaram uma chamada para selecionar o gestor de um Fundo de Investimento em Participações voltado ao complexo econômico-industrial da saúde. O fundo teria capital mínimo de R$ 200 milhões.
A divisão inicial também foi publicada. A BNDESPAR deveria aportar no mínimo R$ 50 milhões e no máximo R$ 125 milhões. Finep e Butantan deveriam aportar pelo menos R$ 50 milhões cada. A soma mínima das três instituições chega a R$ 150 milhões, o que significa que o desenho dependia de outros investidores para alcançar o capital mínimo de R$ 200 milhões.
Essa é uma conta concreta sobre mobilização. R$ 200 milhões menos R$ 150 milhões resulta em R$ 50 milhões que precisariam vir de participantes adicionais, se os aportes mínimos fossem confirmados. O número mostra a função de um investidor público: ele pode formar a base de um veículo, mas não elimina a análise privada nem garante que toda startup candidata receberá recurso.
O edital informa que o objetivo é investir em micro, pequenas e médias empresas e fomentar startups ligadas à inovação do complexo de saúde. O processo também avaliou histórico do gestor, equipe, tese de investimento e custos, além da aderência das empresas ao perfil do fundo. Em janeiro de 2026, o BNDES informou na mesma página que a Kortex Ventures e a IKJ Capital ficaram em primeiro lugar entre as propostas habilitadas, ainda sujeitas às etapas de diligência e aprovação.
Para o empreendedor, o recado é direto. A existência de uma chamada pública não significa candidatura automática a um aporte. O fundo escolhe uma tese, um gestor e critérios. A startup precisa estar dentro do recorte setorial e demonstrar que o dinheiro pode gerar desenvolvimento tecnológico, expansão comercial ou capacidade produtiva. O recurso tem uma finalidade verificável.
A Infleet mostra por que o caso concreto importa na seleção
A Infleet, empresa brasileira de gestão de frotas, anunciou em setembro de 2025 uma captação de R$ 40 milhões em Série A. A própria companhia informou que a rodada foi liderada por Canary, Indicator e Citrino Ventures, com participação de DOMO.VC, Scale-Up Endeavor e BluStone. A empresa disse ainda que havia captado R$ 18 milhões antes da Série A e que cresceu 50 vezes desde o primeiro investimento, em 2021.
O caso traz uma relação entre capital, produto e indicador. A Infleet afirmou que sua videotelemetria e seu assistente virtual para gestores reduziram até 80% os comportamentos de risco, 40% as infrações e 60% os sinistros nas frotas monitoradas, segundo as métricas divulgadas pela própria empresa. O aporte foi apresentado como combustível para ampliar o Copiloto Inteligente, uma solução que envia alertas a motoristas e apoia decisões de custo, manutenção e produtividade.
O valor da captação, isoladamente, não explica a rodada. O que dá substância ao caso é a combinação de R$ 40 milhões, crescimento de 50 vezes desde 2021 e métricas operacionais associadas ao produto. Uma empresa que buscar uma rota de capital entre países do Brics precisará apresentar a mesma ligação: recurso solicitado, aplicação prevista e resultado que pode ser medido.
O exemplo também revela que uma startup brasileira não precisa vender uma tecnologia exótica para interessar a capital internacional. Gestão de frotas lida com segurança e eficiência, temas que aparecem em diferentes economias. A conexão internacional fica mais forte quando o produto resolve uma dor repetida em vários mercados e quando seus resultados podem ser comparados com a mesma régua.
O recurso internacional precisa chegar a uma empresa que mede a própria operação
O capital do Brics pode ser relevante para negócios que já passaram da fase de provar que alguém quer o produto, mas ainda precisam de dinheiro para atravessar fronteiras. Esse intervalo costuma exigir tradução, adequação regulatória, contratação local e suporte, além de parceiros de distribuição. O aporte pode financiar essa expansão, porém cada item deve aparecer no orçamento e no cronograma.
Uma startup de saúde precisa indicar quais aprovações são necessárias em cada país. Uma empresa de energia limpa deve demonstrar onde a solução será instalada e quem comprará o resultado. Uma plataforma de inteligência artificial precisa separar o custo de computação do custo da equipe técnica, e registrar quanto vai para proteção de dados e para venda. A agenda do Brics aponta setores amplos; a tese de investimento vai exigir uma aplicação específica.
O empreendedor também precisa separar três números que costumam ser misturados: dinheiro levantado, receita e valor da empresa. Os R$ 40 milhões da Infleet são uma captação, não faturamento. A faixa de R$ 500 mil a R$ 5 milhões do Sebrae descreve um intervalo de investimento semente, não uma promessa de valuation. Os R$ 200 milhões do FIP da saúde representam o capital mínimo do veículo, não o valor destinado a uma única startup.
O próximo passo é transformar a tese em uma planilha de capital
Na segunda-feira, o dono de uma startup pode montar uma tabela com cinco colunas: estágio atual, receita recorrente, capital pedido, aplicação do recurso e indicador de saída. Em estágio atual, registre se a empresa está validando produto, repetindo vendas ou expandindo. Em receita, use os últimos doze meses e deixe separado o que foi contratado do que foi recebido.
Na coluna do capital, escreva um valor e uma faixa de tolerância. Na aplicação, distribua o dinheiro entre produto, equipe, vendas, adequação regulatória e entrada em novos mercados. No indicador de saída, registre uma medida que permita avaliar o uso do recurso, como clientes pagantes, receita recorrente, tempo de implantação ou redução de custo. Não use expressões vagas como ganhar escala sem indicar qual número muda.
Depois, compare essa planilha com as faixas publicadas pelo Sebrae e com as chamadas abertas de BNDES e Finep. Se a empresa ainda está no pré-semente, uma candidatura a fundo voltado para expansão internacional pode estar adiantada. Se já tem receita recorrente, produto validado e clientes em mais de uma região, a chamada pode fazer sentido. A decisão nasce do estágio e da evidência, não do tamanho da promessa.
O fundo do Brics pode abrir uma rota importante para a inovação brasileira, mas a porta não substitui a conta. O empreendedor que souber mostrar quanto pede, por que pede e qual resultado entrega estará mais preparado para esse dinheiro, para um FIP nacional ou para qualquer investidor que queira transformar cooperação internacional em negócio.
Fontes consultadas
- BRICS, E-BRICS Action Plan for Innovation 2025-2030
- BRICS, Final STI Ministerial Declaration, Brasília, 25 June 2025
- Sebrae, Capital Empreendedor: estágios de investimentos
- BNDES, chamada pública para Fundo de Investimento em Participações no Complexo da Saúde
- Infleet, captação de R$ 40 milhões para o Copiloto Inteligente
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