Federer vê backhand de uma mão perder espaço, mas descarta fim da técnica
Mudanças na formação, nos equipamentos e no ritmo das partidas favorecem o golpe de duas mãos, mas a técnica clássica continua possível
O backhand de uma mão está perdendo espaço porque o tênis moderno recompensa respostas compactas, estabilidade no retorno e adaptação rápida a bolas altas, mas a queda de frequência não prova que o golpe deixou de ser competitivo. A apuração técnica disponível indica outra coisa: a escolha entre uma e duas mãos depende da coordenação exigida, do tempo de formação e do tipo de ponto que o jogador consegue construir.
Roger Federer resumiu o problema durante a programação do US Open de 2026. O ex-líder do ranking afirmou que ainda espera a sobrevivência do golpe, mas observou que os treinadores de sua geração usavam mais o backhand de uma mão e que hoje é mais fácil ensinar uma criança a controlar a raquete com as duas mãos. A declaração ajuda a deslocar o debate da nostalgia para a formação esportiva.
A queda aparece no resultado mais visível do circuito
O US Open registrou que pelo menos um jogador com backhand de uma mão alcançou uma semifinal de Grand Slam em todas as temporadas desde o início da era dos grandes torneios. A sequência histórica, porém, convive com uma concentração cada vez maior de jogadores de duas mãos. Segundo o próprio torneio, apenas Denis Shapovalov, Lorenzo Musetti e Stefanos Tsitsipas chegaram às semifinais ou fases posteriores de Grand Slam nos cinco anos anteriores usando o golpe de uma mão.
Esse recorte não representa todos os profissionais, nem mede cada golpe executado em cada partida. Ele mostra o espaço ocupado pela técnica no nível mais alto, onde pequenas diferenças de tempo e controle mudam o resultado de um ponto. A presença de três nomes em cinco temporadas também não permite concluir que o golpe esteja condenado. Permite concluir que ele se tornou uma exceção entre os jogadores que avançam nas fases decisivas.
O caso de Roger Federer torna a comparação concreta. A ATP registra que ele jogava com backhand de uma mão, virou profissional em 1998, venceu 1.251 partidas e conquistou 103 títulos. O mesmo perfil oficial mostra Marin Cilic, um adversário de sua geração, com backhand de duas mãos. A diferença entre os dois jogadores não determina sozinha o valor de cada técnica, mas mostra que os dois caminhos coexistiram no alto rendimento.

A formação dos treinadores altera a próxima geração
Federer atribuiu parte da redução à cadeia de ensino. Quando o treinador domina o golpe de uma mão, tende a ter mais repertório para demonstrar suas posições, explicar o contato e insistir nos ajustes que a técnica exige. Quando a maioria dos professores usa duas mãos, o caminho mais curto para uma criança pode ser repetir o movimento que recebe como referência cotidiana.
O ponto não é que treinadores de duas mãos sejam incapazes de ensinar um backhand de uma mão. A questão é o custo pedagógico. A criança precisa aprender cedo a chegar à bola com o corpo organizado, preparar a raquete antes do contato e manter o braço estável em uma trajetória que oferece menos apoio direto. Se o treino tem pouco tempo para corrigir detalhes, a solução mais compacta ganha vantagem.
O estudo publicado no Journal of Sports Science and Medicine ajuda a explicar essa diferença. A revisão assinada por Cyril Genevois, Machar Reid, Isabelle Rogowski e Miguel Crespo reuniu 134 artigos localizados nas bases consultadas e considerou 61 deles diretamente relevantes. O trabalho conclui que os golpes de uma e duas mãos exigem coordenações motoras diferentes. No golpe de duas mãos, a rotação do tronco participa mais da produção da velocidade da raquete. No golpe de uma mão, as rotações segmentares do membro superior têm papel maior para alcançar velocidade comparável.
O dado importante para o treinador está na palavra diferente. Não existe uma simples versão curta e outra longa do mesmo movimento. A criança precisa desenvolver relações específicas entre pernas, quadril, tronco, ombro, braço e raquete. A revisão também recomenda que jogadores de duas mãos aprendam cedo o slice de uma mão, justamente porque essa variação acrescenta coordenação e repertório tático.
Duas mãos reduzem o tempo de resposta no retorno
O retorno de saque é o ponto em que a vantagem prática do backhand de duas mãos fica mais evidente. A bola chega com pouco tempo para preparação e exige controle de uma raquete que pode estar sendo deslocada para uma zona difícil do corpo. O apoio das duas mãos encurta a ação e ajuda o jogador a bloquear ou direcionar a bola sem depender de uma grande aceleração do braço dominante.
A USTA, entidade que organiza o tênis nos Estados Unidos, afirma em seu material de formação que o backhand de duas mãos é mais comum no jogo atual. A orientação também evita transformar frequência em regra: o jogador deve escolher a empunhadura que oferece mais controle e conforto. A mesma fonte recomenda contato ligeiramente à frente do corpo, atenção à face da raquete e progressão de intensidade conforme o atleta consegue manter a bola em quadra.
No golpe de uma mão, o contato à frente exige preparação antecipada. A USTA orienta que o jogador comece o movimento mais cedo quando a bola não chega suficientemente profunda, porque o ponto de contato fica mais à frente do corpo. Essa exigência explica por que uma bola rápida ou alta pode pressionar tanto o atleta que usa uma mão. O problema não é a falta de força bruta. É a combinação entre leitura, distância e tempo.
Há também uma consequência tática. A mão livre pode colaborar com o equilíbrio, a recuperação e a transição para a rede, enquanto o mesmo jogador pode usar o slice para variar altura e velocidade. A técnica oferece alcance e ângulos que alguns atletas consideram difíceis de reproduzir com duas mãos. Denis Shapovalov disse ao US Open que, depois de dominar o golpe, consegue criar ângulos que seriam muito difíceis com um backhand de duas mãos. O benefício aparece depois de um período de aprendizagem mais longo.
O ritmo do jogo aumentou a conta técnica
O ambiente do tênis também mudou. Raquetes, cordas, bolas, superfícies e métodos de preparação influenciam a velocidade com que a bola chega e a altura que ela alcança depois do quique. A regra da Federação Internacional de Tênis reconhece três tipos de bola para diferentes velocidades de quadra: a bola de tipo 1 é indicada para superfícies lentas, a de tipo 2 para uma faixa intermediária e a de tipo 3 para quadras rápidas.
A existência dessas categorias não prova que o equipamento tenha causado a redução do backhand de uma mão. Ela mostra que o esporte administra o ritmo por meio de características técnicas da bola e da superfície. Quando a combinação produz trocas mais rápidas ou bolas que sobem acima da zona confortável, o jogador precisa preparar o golpe antes e controlar a raquete com menos margem de atraso.
A revisão científica sobre os backhands oferece uma chave para interpretar essa pressão. Como o golpe de duas mãos usa mais a rotação do tronco para produzir velocidade, o jogador pode organizar a aceleração com uma base corporal mais apoiada. O golpe de uma mão depende mais das rotações do membro superior para gerar velocidade comparável. Em uma troca lenta, o tempo adicional pode favorecer a precisão. Em uma troca acelerada, a preparação tardia cobra um preço maior.
Esta é uma análise a partir dos mecanismos descritos no estudo, não uma estatística nova sobre todo o circuito. A fonte científica não afirma que cada quadra rápida favoreça duas mãos em qualquer situação. Ela descreve como os dois movimentos produzem velocidade e quais coordenações estão envolvidas. A conclusão editorial é que o cenário atual torna mais caro errar o tempo de preparação.
O caso de Musetti mostra que eficiência e repertório são escolhas diferentes
Lorenzo Musetti chegou às semifinais de Grand Slam em 2024 e 2025, de acordo com o US Open, e manteve o backhand de uma mão em uma geração na qual a técnica se tornou rara. O italiano reconhece uma vantagem do golpe de duas mãos no tênis moderno, mas também afirmou que ensinaria a técnica de uma mão por razões estéticas. A declaração separa duas perguntas que costumam ser misturadas: qual movimento é mais eficiente para a maioria e qual movimento pode ampliar o repertório de um atleta específico.
Stefanos Tsitsipas representa outro estágio da mesma discussão. O grego, duas vezes finalista de Grand Slam segundo o US Open, foi apontado como o único jogador com backhand de uma mão a alcançar a segunda semana do torneio em 2026. Seu desempenho mostra que a técnica ainda pode sustentar um jogador de elite, embora a presença de um ou poucos nomes não transforme exceção em tendência dominante.
No feminino, Diane Parry experimentou o retorno de duas mãos para ganhar estabilidade contra saques rápidos, mas voltou a usar uma mão nas demais situações. O teste é revelador porque não trata a técnica como identidade fixa. Uma jogadora pode combinar soluções conforme o golpe, a situação do ponto e o tempo disponível. A escolha do retorno não precisa ser igual à escolha do backhand durante a troca.
Minha conta mostra por que a formação pesa mais que a nostalgia
Há uma conta simples que organiza os dados da apuração. O US Open identificou três jogadores de backhand de uma mão nas fases de Grand Slam dos últimos cinco anos. A revisão científica analisou 134 artigos e reteve 61 como diretamente relevantes. Dividindo 61 por 134, chega-se a aproximadamente 45,5% de estudos considerados diretamente relevantes dentro do conjunto localizado pelos autores. Essa razão não mede quantos tenistas usam cada golpe, mas ilustra a diferença entre presença e domínio: a técnica pode continuar visível no circuito enquanto exige conhecimento específico para ser ensinada.
O cruzamento também impede uma conclusão fácil. Três jogadores em cinco anos não significam três por cento do circuito, porque o denominador é outro. Os 61 artigos não são 61 jogadores, portanto não podem ser usados como taxa de adoção. O que os dados permitem dizer é mais modesto e mais útil: o golpe ainda produz resultados de alto nível, a ciência descreve uma coordenação própria e o processo de ensino pode decidir quantos atletas chegarão a dominá-lo.
O golpe não acabou, mas deixou de ser o caminho padrão
A frase de Federer sobre o futuro da técnica é compatível com a evidência disponível. O backhand de uma mão perdeu espaço no topo, os treinadores têm incentivos para começar com um movimento mais estável e a velocidade do jogo penaliza preparações atrasadas. Ao mesmo tempo, a lista de jogadores que chegaram longe em Grand Slams, o perfil de Federer na ATP e a experiência de Musetti, Tsitsipas, Shapovalov e Parry mostram que o golpe continua funcional.
A decisão correta não é preservar a técnica por tradição nem eliminá-la por moda. O treinador precisa observar o tempo de reação, a mobilidade, a coordenação, a altura de contato e a capacidade de repetir o golpe sob pressão. Um atleta que encontra naturalmente o ponto de contato à frente e consegue preparar cedo pode desenvolver uma arma de uma mão. Outro que precisa de estabilidade imediata pode começar com duas mãos e adicionar o slice de uma mão ao repertório.
O que o jogador pode fazer na segunda-feira
O dono de uma escola, professor ou atleta que quiser aplicar essa apuração na segunda-feira pode executar um teste de quatro etapas. Primeiro, grave dez minutos de trocas pelo lado do backhand e marque quantas bolas chegam tarde, sobem sem controle ou saem pela lateral. Segundo, repita o exercício com uma mão e duas mãos, usando a mesma distância e a mesma alimentação de bolas. Terceiro, faça vinte retornos contra saques ou lançamentos rápidos e registre quantos entram em quadra.
Quarto, compare os resultados sem escolher a técnica pelo visual. Se uma mão produzir melhor alcance e ângulos, mas perder muitos contatos altos e retornos rápidos, o treino precisa incluir preparação antecipada, deslocamento e slice. Se duas mãos produzirem mais controle, o atleta pode manter esse golpe e aprender a soltar a mão não dominante em bolas baixas ou na aproximação da rede. O critério é repetição sob pressão, não preferência do professor.
Para uma escola, o passo prático é revisar o currículo de iniciação. Em vez de apresentar uma técnica como destino obrigatório, o professor pode testar as duas durante algumas semanas, registrar o contato e explicar o custo de aprendizagem de cada uma. Assim, o backhand de uma mão deixa de depender da nostalgia de Federer e passa a ser tratado como uma escolha técnica verificável.
Fontes consultadas
- US Open: One-handed backhands at the 2026 US Open: Federer, Tsitsipas, Parry and more
- National Library of Medicine: Performance Factors Related to the Different Tennis Backhand Groundstrokes: A Review
- USTA: Tennis 101: Perfecting the Backhand
- ATP Tour: Roger Federer and Marin Cilic, perfis e histórico
- ITF: Rules of Tennis 2026
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