Quando a régua ética vira piso: o que o dono de negócio aprende com um país que se acostumou com escândalo

Com juro real de 9,67% e recorde de 2.466 recuperações judiciais, a complacência institucional encarece o crédito e corrói a saúde financeira das empresas brasileiras.

0 1
Quando a régua ética vira piso: o que o dono de negócio aprende com um país que se acostumou com escândalo
Cena de trabalho relacionada a Desenvolvimento Pessoal

Eu levo um susto toda vez que leio uma manchete enorme e percebo que não senti nada. Essa semana foi assim com uma conta redonda: R$ 130 milhões em honorários, segundo a imprensa, num contrato entre o escritório de advocacia da esposa de um ministro do Supremo e um banco que o Banco Central depois liquidou. Li, virei a página e fui fazer café. Só parei no meio do caminho para a cozinha quando me dei conta do que tinha acabado de acontecer: eu tinha achado normal. A coluna de Paulo Camargo no UOL desta sexta feira, 12 de setembro, formula com precisão o incômodo que me pegou no corredor de casa: a pergunta certa talvez não seja "o que aconteceu com o Brasil", e sim "quando foi que começamos a achar tudo isso normal". Escrevo esta matéria porque acho que a resposta interessa diretamente a quem tem empresa, empregado e boleto para pagar. A régua que a gente usa no país é a mesma que a gente usa no balcão.

O argumento de Camargo, que passou boa parte da vida liderando empresas e sentando em conselhos de administração, é simples de dizer e difícil de praticar. Diante de uma decisão difícil, a primeira pergunta de um líder costuma ser "é legal?". Essa pergunta, ele diz, nunca deveria ser a última. Legalidade é o chão, não o teto. Num conselho sério, quando existe conflito de interesses, quem tem interesse direto no tema sai da sala e quem fica decide às claras. Eu aprendi isso do jeito mais modesto possível, numa sociedade de três sócios numa agência pequena em Belo Horizonte, quando um fornecedor que era primo de um dos sócios entrou na disputa de uma cotação. O orçamento dele era bom. Mesmo assim, o sócio saiu da reunião. Levou anos para eu entender que aquilo não era frescura: era a empresa se protegendo de si mesma.

O país que um viajante de trinta anos encontraria

O exercício que Camargo propõe é cruel de tão fácil. Imagine alguém que saiu do Brasil há trinta anos e desembarca agora. Encontraria um país com a maior taxa de juros reais do mundo entre 40 economias: 9,67% ao ano, segundo o levantamento da MoneYou com a Lev Intelligence divulgado em junho, à frente da Rússia, com 9,31%, e da Turquia, com 5,57%. Encontraria um recorde atrás do outro na porta das empresas: 2.466 CNPJs envolvidos em recuperações judiciais em 2025, o maior número da série histórica da Serasa Experian, alta de 13% sobre 2024. E encontraria, na política e nas instituições, uma sequência de notícias que caberia numa novela de má qualidade: o esquema bilionário de descontos no INSS, com dezenas de indiciados pela Polícia Federal; as mensagens do celular de Daniel Vorcaro, dono do banco liquidado, procurando Alexandre de Moraes dois dias antes de ser preso; um inquérito aberto em 2019 para proteger o Supremo que atravessou sete anos e só neste 9 de setembro mudou de relator, quando o presidente da Corte, Edson Fachin, assumiu a condução.

Cada item dessa lista, isolado, já seria temporada inteira de escândalo em qualquer país. Juntos, viraram paisagem. Eu me pego fazendo com as notícias o que faço com o buraco na rua do meu escritório: no primeiro mês eu xingava, no terceiro eu desviava, hoje eu nem olho. O buraco continua lá, do tamanho de antes ou maior. O que mudou fui eu.

Esse mecanismo tem nome e é conhecido da psicologia: habituação. O estímulo repetido perde a força de choque. O problema é que, no caso de um país, a habituação não é neutra. Ela abaixa o preço do próximo abuso. Quem decide mal hoje aprendeu ontem que a reação dura quarenta e oito horas e depois o noticiário muda de assunto. Eu vejo o mesmo fenômeno dentro de empresas: o primeiro fornecedor que entrega fora do prazo sem consequência ensina ao segundo que pode fazer igual. A tolerância vira política interna sem ninguém ter votado nela.

O que os números dizem quando a gente os cruza

Aqui vale uma conta que eu não vi em lugar nenhum e que me ajudou a entender o tamanho real do cansaço brasileiro. A Serasa Experian contou 977 processos de recuperação judicial em 2025. O estudo mostra também que as falências caíram 19% no mesmo ano, para 698 empresas. Leia de novo: falência caindo, recuperação judicial no recorde. As empresas não estão morrendo menos porque estão saudáveis. Estão entrando na UTI em vez de morrer na calçada. A proporção é de cerca de 16 recuperações judiciais para cada recuperação extrajudicial, sinal de que o ajuste de balanço virou rotina de tribunal. Somem-se os 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro de 2026, com dívida média de R$ 23.138, e o desenho fica claro: uma economia inteira operando no modo "aguentar mais um mês".

Cruze isso com o juro real mais alto do planeta e você entende o mecanismo. Com dinheiro custando o que custa no Brasil, qualquer deslize de caixa vira processo, qualquer processo vira notícia, e qualquer notícia vira só mais uma. A normalização não é um fenômeno moral abstrato. Ela tem custo financeiro, juro embutido e CNPJ.

Homem negro com avental usa calculadora e livro de registros em loja de ferramentas

Legal é o chão, e o teto é outra conversa

O trecho da coluna que eu grifaria inteiro é o do contrato de R$ 130 milhões. Camargo escreve: imagine que se conclua que não houve nenhuma ilegalidade naquele contrato. Ótimo, a questão jurídica estará respondida. Mas a questão ética estará? Essa frase deveria estar pendurada na parede de toda sala de reunião do país, da repartição pública à padaria com três funcionários. Porque a tentação de reduzir a régua moral ao que dá para defender no jurídico não é privilégio de ministro nem de banqueiro. É a desculpa que aparece quando o cliente pede nota "do jeito mais barato", quando o fornecedor sugere pagar "por fora", quando o sócio propõe atrasar o décimo terceiro "só este ano". Nada disso é necessariamente crime. Tudo isso é escolha.

Eu tenho dois filhos pequenos, e a confissão final de Camargo me atingiu onde dói: "minha geração falhou". Construímos muito, ele diz, mas tivemos três décadas para fazer da corrupção uma exceção e não conseguimos. Pior: começamos a achar normal. A frase que fecha esse mecanismo é a mais confortável de todas: "são todos iguais". Dizer que são todos iguais, ele escreve, é uma maneira de nos absolver da responsabilidade de escolher melhor. Eu discordo de muita coisa na política brasileira, mas nisso não tenho como discordar. A frase absolve quem a repete.

O que isso muda na sua empresa na segunda-feira

Desenvolvimento pessoal, para mim, nunca foi frase de parede. É procedimento. Então deixo aqui o que eu mesmo comecei a fazer depois de reler essa coluna três vezes:

  • Escreva as duas perguntas. Na próxima decisão difícil da empresa, antes de perguntar "é legal?", pergunte "eu contaria isso para os meus funcionários sem vergonha?". Se a resposta travar, você já sabe.
  • Crie a regra da saída da sala. Qualquer sócio, gerente ou parente com interesse direto numa cotação, contratação ou socorro financeiro sai da decisão. Sem exceção, sem "mas ele entende do assunto".
  • Olhe o seu próprio buraco na rua. Faça a lista do que você normalizou dentro do seu negócio: o atraso recorrente de pagamento, o desconto informal, a promessa de prazo que você já sabe que não cumpre. Uma lista honesta de cinco itens vale mais que um código de ética de quarenta páginas.
  • Pare de repetir a frase que absolve. Da próxima vez que "são todos iguais" aparecer na conversa, a sua e a dos outros, responda com a pergunta que incomoda: igual a quem, e eu aceitaria isso dentro da minha empresa?

O país que minha geração vai entregar aos meus filhos ainda está em obras. A boa notícia, e a coluna termina nela, é que o futuro não chega por destino: é consequência das instituições que construímos, dos comportamentos que toleramos e dos líderes que escolhemos. A transformação talvez comece com algo pequeno e constrangedor de tão simples: olhar para o que está acontecendo ao redor, na Corte ou no balcão, e dizer em voz alta que não, isso não é normal. E depois agir como quem acredita.

Homem de avental pendura placa de madeira na entrada de uma loja.

Fontes consultadas

Qual é a Sua Reação?

Curtir Curtir 0
Não Gostei Não Gostei 0
Amor Amor 0
Engraçado Engraçado 0
Uau Uau 0
Triste Triste 0
Bravo Bravo 0
Redação

Somos o maior portal de empreendedorismo do Brasil. Nascemos da crença inabalável de que todo mundo tem dentro de si o potencial para construir algo extraordinário basta acessar a mentalidade certa. Com mais de 1,3 milhão de seguidores no Instagram e milhares de leitores diários no nosso portal, criamos conteúdo que transforma: dicas práticas de negócios, histórias reais de superação, estratégias de marketing e desenvolvimento pessoal que você pode aplicar hoje mesmo.

Comentários (0)

User