Açúcar sobe no atacado, mas a conta do produtor continua apertada

A cotação paulista avançou quase 7% em três semanas, enquanto o balanço da São Martinho mostra como volume maior pode conviver com receita menor

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Açúcar sobe no atacado, mas a conta do produtor continua apertada
Operário de capacete inspeciona esteira com grãos brancos dentro de uma fábrica.

O açúcar cristal pago no mercado paulista acumulou alta de 7,13% entre 28 de agosto e 18 de setembro, segundo o indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). A saca de 50 quilos passou de R$ 112,06 para R$ 120,05, uma diferença de R$ 7,99 por unidade. A recuperação ajuda usinas que ainda têm produto para vender, mas não apaga a pressão que apareceu nos balanços: a São Martinho produziu mais açúcar nos nove primeiros meses da safra 2025/26 e, mesmo assim, faturou menos com o produto.

Essa combinação é a informação mais útil para quem acompanha o setor. A cotação diária mostra o preço de uma referência física em São Paulo. O balanço mostra o resultado de uma empresa que vende em momentos diferentes, para mercados diferentes, com contratos, estoques e custos próprios. Confundir os dois números leva a uma conclusão errada sobre margem. O açúcar se recuperou na bolsa e no mercado paulista, mas a melhora ainda precisa atravessar a cadeia até virar caixa.

A saca recuperou R$ 7,99 em três semanas

O indicador Cepea/Esalq para o açúcar cristal branco em São Paulo registrou R$ 112,06 por saca de 50 quilos em 28 de agosto. Em 18 de setembro, chegou a R$ 120,05. A conta é direta: R$ 120,05 menos R$ 112,06 resulta em R$ 7,99. Sobre a cotação inicial, o avanço foi de 7,13%.

O número não significa que todo produtor recebeu exatamente R$ 120,05. O próprio Cepea identifica o indicador como uma referência para o açúcar cristal branco no estado, com ICMS de 7%. Preço efetivo varia conforme qualidade, localização, prazo, frete, comprador e condição de pagamento. Para um pequeno empacotador que compra uma tonelada, porém, a diferença de referência equivale a R$ 159,80, porque uma tonelada corresponde a vinte sacas de 50 quilos. Essa é a escala que transforma a cotação em custo: R$ 7,99 por saca multiplicado por vinte.

O mercado externo também ajuda a explicar a oscilação. Em 21 de setembro, o açúcar bruto negociado na bolsa ICE fechou a 17,48 centavos de dólar por libra-peso, alta diária de 0,7%, depois de tocar 17,26 centavos. A informação foi publicada pela Reuters no Money Times. O contrato vinha sob pressão depois de alcançar a máxima de 15 meses no começo do mês, em parte pela realização de lucros e pela espera por informações sobre os efeitos climáticos associados ao El Niño.

A oscilação internacional não deve ser lida isoladamente. A mesma apuração citou menor produção de beterraba na Europa, perspectiva de queda na Ásia em 2026/27 por falta de chuva e uma produção brasileira afetada pelo excesso de precipitações. Na Indonésia, a estimativa mencionada foi de redução de cerca de 25% na produção de cana no ano, em razão de seca e incêndios florestais. São vetores diferentes, com prazos diferentes. Juntos, ajudam a formar o preço, mas não entregam uma previsão segura para a próxima semana.

A Conab prevê mais cana e menos açúcar

O segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento para a safra 2026/27 estimou a produção brasileira de cana em 705,2 milhões de toneladas, alta de 4,7% sobre o ciclo 2025/26. O dado está no ConabCast, publicação oficial da Conab. A companhia atribuiu o avanço à combinação de aumento da área colhida com melhora de 3,6% na produtividade média nacional.

O detalhe decisivo está nos subprodutos. A Conab projetou 42,89 milhões de toneladas de açúcar, queda de 2,9% em relação à safra anterior, e 29,98 bilhões de litros de etanol de cana, alta de 9,7%. A cana adicional, portanto, não será convertida integralmente em açúcar. A destinação entre açúcar e etanol muda conforme preço, demanda, contratos e estratégia industrial.

Para a usina, esse mix é uma decisão financeira. Mais matéria-prima disponível não garante mais açúcar colocado no mercado. Se o etanol oferece melhor retorno em determinado período, parte da cana pode seguir para o combustível. A decisão altera a oferta do adoçante e pode sustentar preços, mas também depende do consumo, do câmbio e da concorrência de outros países produtores.

A projeção da Conab ainda é uma estimativa, não o resultado final da safra. A diferença importa para o pequeno negócio que compra açúcar com antecedência. Um orçamento fechado usando apenas a previsão de produção pode ficar exposto a clima, rendimento agrícola e mudança no mix industrial. O dado serve para orientar a leitura do mercado, não para substituir uma cotação do fornecedor.

Operário de capacete inspeciona esteira com grãos brancos dentro de uma fábrica.

A São Martinho produziu 7,1% mais açúcar e recebeu 5,6% menos

O balanço da São Martinho oferece um caso concreto para entender por que produção e receita podem andar em direções opostas. No acumulado dos nove primeiros meses da safra 2025/26, a companhia produziu 1,4231 milhão de toneladas de açúcar, contra 1,3290 milhão no mesmo período anterior. O volume aumentou 94,1 mil toneladas, ou 7,1%.

A receita líquida das vendas de açúcar, porém, caiu de R$ 2,661075 bilhões para R$ 2,512239 bilhões. A diferença foi de R$ 148,836 milhões, uma redução de 5,6%. Os dados estão no relatório de resultados da própria São Martinho, fonte primária da informação financeira da empresa.

A conta por tonelada ajuda a visualizar o movimento. Dividindo a receita pelo volume produzido como aproximação de ordem de grandeza, o período anterior equivale a cerca de R$ 2.003 por tonelada, enquanto o período mais recente equivale a aproximadamente R$ 1.765. A diferença aproximada é de R$ 238 por tonelada. Essa divisão não representa o preço exato de venda, porque receita e produção não são a mesma base: a empresa comercializa estoques e pode vender açúcar produzido em períodos anteriores. Ainda assim, o cálculo mostra o efeito que preços menores podem exercer sobre o faturamento mesmo quando a fábrica entrega mais produto.

O relatório confirma essa leitura ao atribuir a queda acumulada da receita aos menores preços praticados no período. No trimestre mais recente, a receita do açúcar avançou 3,3% sobre o mesmo trimestre anterior, para R$ 784,9 milhões, apoiada por aumento de 11,8% no volume comercializado. A comparação trimestral foi melhor, mas não reverteu a queda acumulada dos nove meses.

O caso também mostra por que o empreendedor da cadeia não deve usar uma única cotação como promessa de margem. A São Martinho vendeu açúcar no mercado doméstico e no externo. No acumulado, a receita com açúcar no mercado externo foi de R$ 2,271465 bilhões, queda de 6,0%. No mercado doméstico, somou R$ 240,774 milhões, redução de 1,2%. Câmbio, preço contratado, período de embarque e composição dos destinos alteram o resultado final.

O exportador brasileiro vende com uma referência que muda

O Ministério da Agricultura mantém uma página com a série de comércio exterior do açúcar e disponibiliza arquivos sobre exportações anuais, preços médios, países de destino e locais de embarque. Os documentos estão no painel oficial de Comércio Exterior Brasileiro. A existência dessas séries é relevante porque o preço recebido por uma usina exportadora não depende apenas do indicador paulista.

Uma venda externa envolve moeda estrangeira, frete, seguro, qualidade, porto, prazo e eventuais instrumentos de proteção. O preço internacional pode subir enquanto a receita convertida em reais cresce menos, se o câmbio mudar ou se o embarque ocorrer em uma data diferente. Também pode acontecer o inverso. Por isso, uma notícia sobre a alta do contrato futuro é um sinal de mercado, não um extrato bancário de cada usina.

Para negócios menores, a consequência é prática. Uma distribuidora, fábrica de alimentos ou confeitaria que repassa uma alta de matéria-prima precisa saber qual preço está usando como base: a cotação do dia, o valor da última nota, o custo médio do estoque ou o preço já contratado. Misturar esses critérios produz uma margem fictícia. O aumento de R$ 7,99 por saca pode aparecer na compra nova, mas não necessariamente no lote que já estava armazenado.

O repasse também não é automático. O comprador final pode aceitar uma mudança no preço, reduzir volume, trocar fornecedor ou manter o contrato por determinado prazo. A decisão comercial deve considerar o custo efetivamente pago, o estoque disponível e o tempo até a próxima reposição. O número público ajuda a explicar a pressão, mas não resolve sozinho a negociação.

O preço maior só vira resultado quando o contrato captura a alta

A recuperação do indicador Cepea e a alta pontual do açúcar bruto melhoram a referência para a cadeia, enquanto a Conab aponta uma oferta de cana maior e uma produção de açúcar menor no próximo ciclo. O balanço da São Martinho acrescenta a ressalva que falta em uma leitura apressada: volume, preço e receita precisam ser analisados juntos.

Para quem fatura pouco, a conta pode ser feita sem projeção inventada. Registre o preço e a data de cada compra. Separe açúcar já estocado de açúcar que ainda será adquirido. Compare a nota fiscal atual com a anterior usando a mesma unidade, como reais por saca ou reais por quilo. Depois, confira se o preço vendido cobre o custo de reposição, e não somente o custo histórico do lote.

O passo seguinte é confrontar a negociação com uma fonte pública. O indicador do Cepea permite acompanhar a referência paulista e sua série recente. Se o fornecedor cobrar acima dela, peça a composição do valor: frete, tributos, embalagem, prazo e volume mínimo. Se cobrar abaixo, confirme se há diferença de qualidade ou condição de pagamento. A comparação precisa usar produtos equivalentes.

O gestor também pode montar dois números simples no fluxo de caixa: custo médio do estoque atual e custo estimado da reposição. O primeiro responde quanto já foi pago. O segundo mostra quanto será necessário desembolsar para recompor o volume vendido. Quando os dois ficam distantes, a margem aparente deixa de ser uma boa medida para decidir preço.

A alta observada até 18 de setembro não permite afirmar que o açúcar manterá esse ritmo. O que os dados permitem dizer é mais específico: a saca paulista recuperou R$ 7,99 em três semanas, a Conab prevê mais cana e menos açúcar na safra 2026/27, e a São Martinho demonstrou que produzir 7,1% mais não impediu uma queda de R$ 148,836 milhões na receita acumulada do produto. Para o pequeno negócio, acompanhar essas três camadas é mais seguro do que reagir a uma manchete isolada.

Fontes consultadas

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