O retorno de Stelleo Tolda: quando quem construiu o Mercado Livre volta para ensinar
Stelleo Tolda tinha 27 anos quando decidiu que o Brasil precisava de um lugar onde qualquer pessoa pudesse vender qualquer coisa. Era 1999, e a internet brasileira ainda engatinhava. Junto com Marcos Galperin, ele fundou o Mercado Livre, hoje a...
A entrada de Stelleo Tolda e Jean-Marc Etlin no conselho da Endeavor Brasil revela uma mudança mais importante que a troca de nomes: o ecossistema empreendedor passou a tratar crescimento como problema de governança, capital e execução, não só como corrida por investimento. A organização montou um conselho capaz de conectar a experiência de construir uma operação digital de escala com a disciplina necessária para empresas da economia física.
O movimento também dá consequência prática à ideia de efeito multiplicador. Empreendedores que já atravessaram ciclos de expansão, pressão financeira e decisões de conselho podem transferir conhecimento para quem ainda está tentando transformar uma empresa promissora em uma organização duradoura.

A Endeavor trocou um conselho homogêneo por uma combinação de experiências
A mudança foi anunciada pelo Brazil Journal. Stelleo Tolda e Jean-Marc Etlin, que já participavam do ecossistema da Endeavor como mentor e embaixador, passaram a ocupar assentos no conselho. Eric Santos, fundador da RD Station, deixou o órgão depois de oito anos, e a organização criou um novo assento.
A composição informada pela reportagem ficou com Cesar Carvalho na presidência e Sergio Furio, Mariana Dias, Tiago Dalvi, Robson Privado, Stelleo Tolda e Jean-Marc Etlin como integrantes. A página oficial de governança da Endeavor Brasil confirma Stelleo como membro do conselho e mantém Eric Santos listado entre os membros. Como a comunicação institucional e a notícia foram publicadas em momentos diferentes, a leitura mais segura é que houve uma transição de composição, e não uma razão para atribuir a Eric uma saída definitiva sem ressalva.
Maria Teresa Fornea, CEO da Endeavor Brasil, explicou ao Brazil Journal que o ciclo anterior havia reunido somente empreendedores Endeavor e que o novo formato busca um olhar mais amplo. A fala ajuda a entender a decisão: conselho não serve apenas para representar uma comunidade. Ele precisa ampliar a qualidade das perguntas feitas à administração e testar se a estratégia cabe no caixa, na operação e no mercado real.
Stelleo Tolda leva ao conselho a experiência de escalar comércio e serviços financeiros
Stelleo Tolda passou pela liderança operacional do Mercado Livre e hoje aparece em registros públicos como conselheiro, mentor e investidor. Em seu perfil público no LinkedIn, ele informa experiência como executivo de comércio da companhia, depois como assessor e, desde 2024, como membro do conselho. O mesmo perfil registra sua atuação como embaixador e mentor da Endeavor.
Essa trajetória importa porque o Mercado Livre exige decisões que combinam tecnologia, logística, experiência do cliente, risco de crédito e aquisição de usuários. O relatório de impacto de 2024 da companhia registra mais de 3.600 veículos elétricos na frota e mais de 70 milhões de encomendas entregues com redução de emissões naquele ano. O dado não prova que uma prática do Mercado Livre sirva automaticamente para uma pequena empresa, mas mostra a dimensão do tipo de operação que Tolda conhece.
Os resultados financeiros mais recentes dão outra medida da escala. Em comunicado distribuído pela Business Wire, o Mercado Livre informou receita líquida e receitas financeiras de US$ 8,8 bilhões no quarto trimestre de 2025, alta anual de 45%. O volume bruto de mercadorias chegou a aproximadamente US$ 19,9 bilhões, enquanto o número de compradores únicos superou 80 milhões no trimestre.
Há uma conta útil, feita a partir desses dois números da própria companhia: US$ 8,8 bilhões divididos por mais de 80 milhões de compradores equivalem a cerca de US$ 110 de receita e receita financeira por comprador no trimestre. Esse cálculo não é ticket médio, nem mede quanto cada cliente gastou. Ele serve para mostrar a escala econômica média que uma plataforma precisa capturar entre milhões de relações para financiar logística, tecnologia, atendimento e crédito.
Para uma empresa menor, a lição não é copiar o aplicativo ou a campanha de marketing. É descobrir qual combinação de recorrência, margem e eficiência operacional permite atender mais clientes sem transformar crescimento em perda. Esse é o tipo de conversa que um conselheiro com experiência de escala pode provocar.
Jean-Marc Etlin amplia a discussão para indústria, serviços e capital paciente
Jean-Marc Etlin acrescenta uma perspectiva diferente. Segundo o Brazil Journal, ele trabalhou quase dez anos na CVC Capital Partners, liderou a operação latino-americana e também ocupou posições de liderança no Itaú BBA. A reportagem ainda cita sua participação nos conselhos de SHV Holdings, Lhoist e RenovaBR.
O valor dessa experiência está em colocar a economia física dentro da conversa sobre alto crescimento. Uma empresa de indústria, saúde, logística, energia ou serviços tradicionais pode crescer muito sem seguir o roteiro de uma startup de software. Ela precisa financiar ativos, negociar contratos longos, lidar com regulação, formar equipes operacionais e proteger margem em ambientes de custos instáveis.
O conselho passa a reunir duas perguntas complementares. Stelleo pode pressionar a organização a pensar em ambição, produto, experiência do cliente e escala. Jean-Marc pode testar retorno sobre capital, estrutura de financiamento, governança e qualidade da expansão. Juntas, as duas visões reduzem o risco de tratar toda empresa de alto crescimento como se fosse uma plataforma digital em busca da próxima rodada.
A própria Endeavor descreve sua missão como apoio a empreendedores de alto crescimento e construção de ecossistemas. Na página de impacto, a organização informa que atua há 25 anos no Brasil. A entrada de Etlin, portanto, não deve ser lida como abandono da tecnologia. O sentido indicado pela fala de Maria Teresa é ampliar o campo de análise para os negócios que geram escala fora do circuito mais conhecido do venture capital.
O conselho ganhou uma tarefa maior que escolher empresas para apoiar
Conselheiros influenciam prioridades, critérios de seleção, acompanhamento de desempenho e a forma como uma organização usa sua rede. Quando um programa de empreendedorismo fala em alto impacto, precisa definir o que considera impacto: faturamento, empregos, produtividade, inovação, expansão regional, acesso a capital ou capacidade de formar novos líderes.
A pesquisa Founder Liquidity in Brazil, publicada pela Endeavor Brazil Research, ajuda a dimensionar por que mentoria e conselho fazem parte do ciclo empreendedor. O estudo ouviu 118 fundadores brasileiros entre 9 de junho e 18 de julho de 2025. O relatório informa que 63,6% dos respondentes já haviam monetizado participação em alguma empresa e que, entre os eventos anteriores, vendas secundárias representaram 58,7%, enquanto fusões e aquisições responderam por 36%.
O relatório também mostra o que acontece depois de um evento de liquidez. Entre os fundadores pesquisados, 44% passaram a atuar como investidores-anjo ou em fundos, 23% se envolveram com filantropia ou mentoria e 28% lançaram novos negócios. Esses percentuais não representam todo o empreendedorismo brasileiro, porque a própria Endeavor informa que a amostra tem forte presença de sua rede e de carteiras de fundos parceiros. Ainda assim, o dado oferece uma explicação concreta para a presença de fundadores experientes em conselhos: o conhecimento continua circulando depois da venda parcial ou total de uma empresa.
O caso de Eric Santos mostra como uma saída pode preservar aprendizado
Eric Santos oferece um caso concreto para observar a transição. Ele cofundou a RD Station, empresa brasileira de software, e participou da trajetória que terminou na aquisição pela TOTVS por US$ 360 milhões, segundo o estudo de liquidez publicado pela Endeavor. O valor dá dimensão ao negócio, mas o ponto de interesse para quem empreende está na preparação para uma operação desse porte.
O relatório da Endeavor registra que a RD Station manteve uma rota de IPO e uma rota de aquisição em paralelo. A negociação com a TOTVS começou como uma conversa sobre parceria e evoluiu para uma das maiores aquisições brasileiras de software. O caso mostra que opções estratégicas precisam existir antes da urgência. Quando a empresa decide seu destino somente depois que aparece um comprador, a negociação tende a ser conduzida pelo prazo e não pela estratégia.
A saída de Eric do conselho, depois de oito anos, também pode ser lida como parte de um ciclo institucional. Organizações que dependem sempre das mesmas pessoas correm o risco de confundir memória com governança. Renovar assentos permite incorporar novas competências, desde que a transição preserve o conhecimento que ajudou a construir os resultados anteriores.
A pesquisa da Endeavor indica que liquidez e sucessão começam antes do evento
O estudo Founder Liquidity in Brazil informa que 78,8% dos entrevistados consideravam um evento futuro de liquidez e que 61% dos fundadores que esperavam uma operação imaginavam que ela ocorreria em até dois anos. A mesma pesquisa registra que as maiores dificuldades em eventos passados foram complexidade de negociação, impacto emocional e duração do processo.
Esses números mudam a conversa para o dono de uma empresa média. Preparar uma eventual venda não significa colocar o negócio à disposição do mercado. Significa manter contabilidade confiável, contratos organizados, indicadores acompanhados e uma equipe capaz de operar sem depender de uma única pessoa. É uma forma de preservar opções, inclusive a opção de continuar independente.
O relatório encontra diferenças no tempo médio até cada tipo de liquidez em uma amostra de 35 empresas da rede Endeavor: 17,2 anos até IPO na B3, 14,3 anos até IPO nos Estados Unidos, 11,9 anos até uma fusão ou aquisição e 8,4 anos até uma venda secundária. São médias de uma amostra específica, não uma promessa de prazo. Para o empreendedor, a mensagem é objetiva: uma decisão sobre capital pode aparecer muito antes de uma abertura de capital.
O efeito multiplicador depende de método, não de inspiração
Chamar fundadores experientes para um conselho só gera valor quando a experiência vira método. Uma história de sucesso pode inspirar, mas não informa necessariamente quais indicadores foram acompanhados, quais decisões foram recusadas ou que condições permitiram a expansão. O trabalho institucional consiste em transformar vivência em perguntas e rotinas que outras empresas consigam aplicar.
Para uma empresa apoiada pela Endeavor, isso pode significar revisar mensalmente margem por produto, prazo de recebimento, concentração de clientes, produtividade por equipe e dependência do fundador. Também pode significar simular três cenários de capital: continuar crescendo com recursos próprios, captar investimento ou negociar uma venda parcial. O conselho não substitui a gestão. Ele aumenta a qualidade da preparação da gestão.
A experiência do Mercado Livre reforça esse ponto pela escala do sistema. O relatório de impacto de 2024 registra a existência de uma rede logística ampla e investimentos em redução de emissões. O resultado não veio de uma decisão isolada, mas de uma sequência de escolhas operacionais. A pequena empresa pode não ter frota elétrica ou milhões de compradores, mas pode aprender a relacionar promessa comercial, processo de entrega, custo e satisfação do cliente.
O dono de negócio pode transformar a notícia em uma reunião prática na segunda-feira
O primeiro passo é escolher uma operação que cresceu nos últimos 12 meses, como vendas, atendimento ou entrega. O dono deve levantar cinco números dos últimos seis meses: receita, margem, prazo médio de recebimento, custo para atender cada cliente e percentual de vendas concentrado nos cinco maiores clientes. Sem essa fotografia, qualquer conselho sobre crescimento será opinião.
O segundo passo é escrever uma página com três decisões que hoje dependem exclusivamente do fundador. Para cada uma, registrar quem poderia assumir, qual indicador autorizaria a decisão e qual limite exigiria aprovação. Isso transforma a dependência pessoal em processo de gestão.
O terceiro passo é conversar com uma pessoa externa que já tenha operado em escala semelhante. A reunião precisa terminar com três perguntas verificáveis: qual gargalo aparece primeiro quando a receita dobra, qual despesa cresce mais rápido que a receita e que documento um comprador ou investidor pediria antes de avançar. As respostas devem virar tarefas com responsável e prazo, não uma coleção de frases motivacionais.
Por fim, o empreendedor deve escolher uma rota principal e uma alternativa para os próximos 24 meses. A rota pode ser crescimento independente, captação, venda parcial ou preparação para uma aquisição. A alternativa não precisa ser executada agora. Ela precisa estar preparada o suficiente para evitar que uma oportunidade seja aceita por falta de organização.
O novo conselho conecta ambição com capacidade de durar
A nomeação de Stelleo Tolda e Jean-Marc Etlin importa porque aproxima duas dimensões que costumam aparecer separadas. Uma empresa precisa querer crescer, mas também precisa saber financiar a expansão, governar riscos, formar sucessores e sustentar a operação quando o mercado muda.
A Endeavor parece estar ajustando sua própria governança para essa realidade. Stelleo traz a vivência de uma plataforma que combina comércio, pagamentos e logística em escala continental. Etlin traz experiência em capital, bancos e negócios da economia física. Eric Santos deixa um ciclo longo no conselho enquanto sua história empresarial continua como referência concreta de construção e liquidez.
Para quem está fora da rede, a notícia deixa uma regra simples: conselheiro bom não entrega uma fórmula pronta. Ele ajuda o empreendedor a enxergar o número que está escondido na narrativa, o risco que está sendo adiado e a decisão que precisa ser tomada antes de virar emergência.
Fontes consultadas
Brazil Journal, Stelleo Tolda e Jean-Marc Etlin vão para o board da Endeavor Brasil
Endeavor Brasil, página oficial de governança
Endeavor Brazil Research, Founder Liquidity in Brazil
Endeavor Brazil Research, Founder Liquidity in Brazil, Methodology & Data
Business Wire, Mercado Libre reports fourth quarter and full year 2025 results
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