PISA 2025 expõe o gargalo que pode limitar a produtividade das empresas brasileiras
Resultado 92 pontos abaixo da média da OCDE força empresas a elevarem gastos com supervisão e capacitação elementar em rotinas financeiras e análise de dados.
O Brasil chegou ao PISA 2025 com 377 pontos em matemática, praticamente no mesmo lugar de uma década atrás. Para quem administra uma empresa, esse número não é uma nota distante em uma tabela internacional. Ele ajuda a explicar por que contratar e treinar equipes, além de automatizar operações, se tornou mais difícil: apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram o nível mínimo de proficiência matemática definido pela OCDE. A escola está formando uma base estreita para uma economia que pede leitura de dados e cálculo. A rotina também exige comunicação para explicar o resultado e resolução de problemas. O Banco Mundial chega a uma conclusão compatível por outro indicador: no relatório sobre capital humano no Brasil, estima que uma criança nascida em 2019 alcançaria 60% do potencial de capital humano aos 18 anos nas condições médias do país. O número não é uma previsão individual, mas uma medida de perda de talento em escala nacional.
A conclusão não é que os jovens brasileiros sejam incapazes de aprender. A própria série histórica mostra melhora acumulada desde o início do século. O problema é a interrupção do avanço recente. A média de matemática foi de 376 pontos em 2015 para 377 em 2025, segundo a nota de país da OCDE. Em leitura, o país marcou 408 pontos; em ciências, 409. A pequena variação diante de dez anos de mudanças tecnológicas torna a formação de talentos uma questão de estratégia empresarial, e também de política educacional.
A matemática básica virou um filtro de entrada para o trabalho
No nível 2 do PISA, o estudante precisa interpretar uma situação simples representada matematicamente, comparar alternativas ou converter valores. Não é uma competência reservada a engenheiros. É o tipo de raciocínio usado para conferir uma margem, interpretar um indicador de vendas, estimar estoque ou identificar que uma promoção reduz o resultado em vez de aumentá-lo.
Quando somente 28% alcançam esse patamar, uma pequena empresa não recebe no processo seletivo um retrato pronto da capacidade profissional. Ela precisa descobrir habilidades elementares durante o treinamento. O custo aparece em horas de supervisão e retrabalho. Também aumenta a dependência de poucas pessoas que dominam planilhas, sistemas e rotinas financeiras. Minha leitura é que o dado não autoriza generalizar sobre cada candidato. Ele mostra, porém, que a empresa não pode tratar a escolaridade formal como prova suficiente de domínio numérico.
A diferença para a média da OCDE reforça o tamanho da lacuna. O relatório internacional registra 469 pontos em matemática, 472 em leitura e 485 em ciências como médias da organização em 2025. Na matemática, o Brasil ficou 92 pontos abaixo desse parâmetro. Essa distância não equivale diretamente a anos de estudo nem permite prever o desempenho de uma pessoa, mas indica uma diferença sistêmica nas condições em que a força de trabalho é formada.
Dez anos quase não alteraram a média de matemática
O recorte temporal é mais importante que a fotografia de um único ano. A pontuação brasileira de 377 em 2025 supera em apenas um ponto o resultado de 2015, conforme a comparação apresentada pela OCDE. No mesmo período, as empresas passaram a lidar com comércio eletrônico, análise de dados, pagamentos instantâneos, sistemas integrados e ferramentas de inteligência artificial. A demanda por tarefas que envolvem informação aumentou mais rápido que a melhora média medida nos estudantes.
O resultado também precisa ser lido com cuidado. O PISA avalia estudantes de 15 anos e não mede diretamente toda a população economicamente ativa. A prova não substitui exames nacionais nem descreve o desempenho de cada rede, escola ou família. O Inep, responsável pela participação brasileira, apresenta os resultados e os materiais metodológicos do programa. A utilidade para o empreendedor está na tendência: a futura mão de obra chega ao mercado com trajetórias muito diferentes, e os processos internos precisam absorver essa dispersão.
Existe ainda um contraste que impede uma leitura fatalista. Na comparação de duas décadas, o Brasil aparece entre os países que mais avançaram em algumas áreas do PISA, segundo a OCDE. O avanço passado prova que políticas e práticas podem mudar resultados. A estagnação de 2015 a 2025 prova que progresso anterior não se conserva sozinho.
O abismo socioeconômico aparece antes do currículo profissional
A desigualdade não termina no portão da escola. Na edição de 2025, a diferença média em ciências entre os estudantes de maior e menor nível socioeconômico no Brasil foi de 96 pontos, de acordo com a nota da OCDE. Esse intervalo produz grupos de candidatos com oportunidades muito distintas de acesso a livros e cursos. Também pesam a conexão e o tempo disponível para estudar.
Para uma empresa pequena, a consequência prática é revisar o que chama de potencial. Exigir uma experiência anterior específica pode eliminar pessoas que ainda não tiveram a chance de exercer determinada tarefa, embora consigam aprender quando recebem instrução estruturada. O contrário também é verdadeiro: contratar apenas pela disposição não resolve a lacuna. O processo seletivo precisa observar a competência necessária e oferecer meios para desenvolvê-la.
O problema já aparece na indústria. O Mapa do Trabalho Industrial, produzido pelo Observatório Nacional da Indústria, projetou a necessidade de qualificar 9,6 milhões de trabalhadores em ocupações industriais até 2025, incluindo formação inicial e atualização de profissionais já inseridos no mercado. A projeção não é uma medição do PISA e não deve ser misturada à sua pontuação. Os dois dados, porém, apontam para a mesma tensão: a economia precisa ampliar competências enquanto a formação básica avança devagar.

A conta transforma a proficiência em risco de treinamento
Há uma conta simples, feita com os dados publicados, que ajuda a dimensionar o problema. Se 28% dos estudantes brasileiros alcançam pelo menos o nível 2 em matemática, 72% ficam abaixo desse patamar. Em um grupo hipotético de 50 jovens, isso corresponde a 14 estudantes no nível mínimo e 36 abaixo dele. A conta não diz quem será bom funcionário, porque o desempenho profissional depende de ensino, contexto e experiência. Ela mostra por que um processo de contratação que presume a mesma base para todos tende a produzir erro.
A diferença de 92 pontos entre os 377 do Brasil e os 469 da média da OCDE dá outra medida do desafio. Não é correto converter automaticamente pontos do PISA em salário ou produtividade. É correto dizer que a distância representa desempenhos médios diferentes em tarefas de raciocínio avaliadas pelo mesmo instrumento. Para o negócio, a resposta não deve ser baixar o padrão. Deve ser separar o padrão indispensável da ferramenta que pode ser ensinada.
Uma loja pode exigir precisão no caixa e ensinar seu sistema. Uma fábrica pode exigir atenção a procedimentos e treinar a leitura de indicadores. Uma empresa de serviços pode testar comunicação escrita e explicar o método de registro usado pela equipe. Em todos os casos, a avaliação precisa refletir a tarefa real, e não funcionar como um teste genérico que confunde familiaridade escolar com capacidade de aprender.
As empresas podem reduzir o desperdício sem substituir a escola
Não cabe ao empregador resolver sozinho uma falha estrutural da educação. Cabe a ele impedir que a falha seja ampliada dentro da operação. O primeiro passo é mapear as cinco competências que cada função realmente exige. O segundo é transformar cada uma em uma situação observável: conferir uma nota fiscal, interpretar uma tabela, responder a um cliente ou explicar uma divergência de estoque.
O treinamento inicial deve então partir de exemplos do próprio trabalho. Um módulo de matemática financeira pode usar preços e margens reais da empresa, sem expor dados pessoais. Uma aula de leitura pode trabalhar uma instrução operacional que o funcionário usará no dia seguinte. Uma avaliação curta ao final de cada semana mostra se a pessoa aprendeu, em vez de deixar o erro acumular por três meses.
Há também uma decisão de gestão. Se somente uma pessoa sabe operar uma planilha ou interpretar o painel de vendas, a empresa tem um ponto único de falha. Documentar o processo, fazer rodízio acompanhado e revisar os números em dupla custam tempo, mas criam redundância. A inteligência artificial pode ajudar a explicar uma fórmula ou organizar um exercício. Ela não deve ser usada para esconder que o funcionário não entendeu o cálculo, pois uma resposta automática errada apenas torna o erro mais rápido.
O plano de segunda-feira começa com uma tarefa mensurável
Na próxima segunda-feira, escolha uma função que contratou nos últimos doze meses e escreva três tarefas que geraram retrabalho. Ao lado de cada uma, registre a habilidade necessária e o critério de acerto. Depois aplique um exercício de quinze minutos a todos os candidatos ou integrantes da equipe, usando uma situação equivalente e não dados confidenciais. Guarde o resultado, ofereça uma explicação curta e repita o exercício em sete dias.
Esse procedimento não transforma o PISA em ferramenta de recrutamento. Ele usa a evidência do estudo para uma decisão limitada e verificável: quais fundamentos a empresa precisa ensinar para não depender da sorte. O país terá de melhorar a escola, reduzir a desigualdade e formar professores. Enquanto isso, negócios que medem a base necessária, treinam com contexto e registram a evolução conseguem tomar decisões menos intuitivas sobre pessoas.
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