Com ‘Os Safra’, seu José (finalmente) ganha uma biografia
O jornalista Robson Viturino começou a trabalhar num livro sobre a família Safra nove anos atrás.
O Banco Safra lucrou R$ 4,286 bilhões em 2025, segundo o resumo das demonstrações contábeis consolidadas em IFRS publicado pela própria instituição. Fechou o ano com R$ 318,1 bilhões em ativos, R$ 400,8 bilhões em recursos captados e administrados e um retorno sobre o patrimônio líquido médio de 22,8%. Nenhum desses números aparece na biografia que chega às livrarias em 22 de setembro, e é exatamente por isso que ela importa: Os Safra: Uma história (Companhia das Letras, 456 páginas, R$ 99,90), do jornalista Robson Viturino, explica como uma casa de câmbio fundada em Alepo em 1841 virou a máquina que produz esses resultados. O livro vale menos como obra literária e mais como documento de gestão. Quem comanda uma empresa familiar no Brasil tem ali, com nome, data e cifra, o registro do que dá certo e do que quase destrói um negócio quando a sucessão falha.
Viturino começou a apuração nove anos atrás e conversou com mais de 150 pessoas, numa pesquisa que começou no Oriente Médio. Ao longo do caminho, a História se impôs à história: José Safra adoeceu e morreu em 2020; o conflito entre os irmãos Alberto e David eclodiu; Lily Safra morreu; e saiu uma biografia de Edmond. O autor e seus editores na Companhia das Letras decidiram não fechar o livro enquanto não houvesse material para contar a história toda, sem saber quanto tempo levaria a questão entre os irmãos.
Uma casa de câmbio de Alepo financia o comércio entre Oriente e Ocidente desde 1841
A linha do tempo oficial do Grupo J. Safra, publicada no site da holding, fixa a origem em 1841, quando a família abriu sua primeira casa bancária em Alepo, na Síria. A cidade era um dos maiores centros de comércio da região e rota obrigatória entre o Oriente, a Europa, a Pérsia e o interior da Ásia. Os Safra financiavam comerciantes e faziam câmbio para os mercadores que chegavam pelo deserto e pelo Mediterrâneo. Antes do Canal de Suez, tudo passava por Alepo.
Judeus sefaraditas muito ligados à comunidade árabe, os Safra são halabiyyin, ou alepinos, um núcleo pequeno que casa entre si e se mantém religioso e fechado. Ao redor do mundo, os alepinos costumam assumir protagonismo em seu círculo social, como aconteceu no Brasil. De Alepo saíram também os Safdié do Banco Cidade, Elie Horn da Cyrela e os Picciotto, que montaram casas de private banking na Suíça.
Jacob Safra, nascido em Alepo em 1891, mudou-se para Beirute fugindo da Primeira Guerra e é o patriarca do ramo da família que mais prosperou. No início dos anos 50, pouco depois da fundação do estado de Israel, o ambiente para os judeus em Beirute se deteriorava. Edmond veio ao Brasil fazer negócios e convenceu o pai sobre o potencial do país, incluindo a ausência de um antissemitismo significativo. A cronologia do grupo registra 1953 como o ano da chegada da família ao Brasil, atraída pela combinação de governo estável e crescimento forte no pós-guerra. Edmond se tornaria um grande banqueiro em Genebra e Nova York, enquanto José e Moise dariam continuidade ao legado no país.
Em 2006, José comprou a parte do irmão e ficou com 100% do grupo
O livro acompanha os desdobramentos da morte de Edmond em 1999, ainda rodeada de mistério, que reconfigurou o equilíbrio entre os irmãos. Até aquele momento, José e Moise comandavam o banco em aparente harmonia. Em 2006 os dois rompem a parceria: José compra a parte do irmão e consolida o controle. A própria linha do tempo do grupo resume o episódio com secura contábil: em 2006, a família de Joseph Safra tornou-se a única dona do Grupo J. Safra.
A compra da participação do irmão é o tipo de decisão que separa empresas familiares que atravessam gerações das que morrem em inventário. José trocou liquidez por governança: pagou caro para eliminar a ambiguidade de comando. Duas décadas depois, a segunda geração seguinte repetiria o roteiro de forma invertida. Em 2023, Alberto Safra processou a mãe, Vicky, e os irmãos em Nova York, alegando diluição indevida de sua participação na herança. A disputa terminou com a venda da fatia de Alberto aos irmãos, mantendo o grupo sob controle unificado, o mesmo desfecho que José havia comprado em 2006.

Três compras entre 2010 e 2014 somaram US$ 2,8 bilhões em ativos fora do banco
Com os filhos Jacob, Alberto e David conquistando autonomia a passos lentos, José seguiu com apetite insaciável. Capitalizado, abriu o caixa e saiu às compras. A sequência está documentada no livro e na cronologia oficial do grupo, e uma conta que nenhuma das duas fontes apresenta explicita a escala: some os três negócios e o banqueiro desembolsou cerca de US$ 2,8 bilhões em quatro anos, todos fora da atividade bancária tradicional.
O primeiro passo veio no final de 2010, com a compra do prédio comercial do número 660 da Madison Avenue, em Nova York, por US$ 285 milhões, o segundo maior negócio imobiliário da cidade naquele ano. Em 2011, o grupo anunciou a aquisição da maioria do banco suíço Sarasin. Em 2014, José pagou 726 milhões de libras, cerca de US$ 1,2 bilhão, pelo edifício 30 St Mary Axe, o Gherkin, na City de Londres, projeto de Norman Foster com 180 metros e 41 andares. O New York Times classificou o negócio como uma pechincha e tratou o prédio como a face mais notável de um portfólio imobiliário com mais de cem propriedades mundo afora.
O terceiro negócio da série é o melhor documentado de todos, porque virou registro regulatório. Em outubro de 2014, a Chiquita Brands International assinou acordo definitivo de fusão com o consórcio Cutrale-Safra, conforme o release distribuído pelas próprias companhias: US$ 14,50 por ação em dinheiro, prêmio de 33,8% sobre o preço de fechamento de 7 de março daquele ano, e valor total de aproximadamente US$ 1,3 bilhão incluindo a dívida assumida. O acordo foi aprovado por unanimidade pelo conselho da Chiquita depois de uma batalha de quase três meses, na qual os brasileiros tiveram três ofertas anteriores rejeitadas e enfrentaram a fusão concorrente com a irlandesa Fyffes. A operação foi concluída em 6 de janeiro de 2015, quando a Chiquita saiu da Bolsa de Nova York.
O release da operação entrega dois dados que medem os dois sócios. As empresas do Grupo Cutrale respondiam por mais de um terço do mercado global de suco de laranja, estimado em US$ 5 bilhões. E as entidades do Grupo Safra somavam, já em 2014, mais de US$ 200 bilhões em ativos sob gestão e patrimônio agregado de aproximadamente US$ 15,3 bilhões. O banqueiro que a imprensa descrevia como discreto controlava, uma década atrás, um conglomerado maior que a maioria dos bancos listados em bolsa no Brasil.
O banco distribuiu R$ 11 bilhões em 2025, mais que o dobro do lucro do ano
José Safra morreu em dezembro de 2020. A página oficial do banco sobre o fundador descreve um executivo que dizia ter orgulho da cidadania brasileira e torcer pelo Corinthians, que viveu sem ostentação e que financiou hospitais, creches, museus e templos de todas as fés. A sucessão passou para Vicky Sarfati Safra e os filhos. Na lista de bilionários brasileiros de 2026 da Forbes Brasil, a família aparece em segundo lugar, com fortuna estimada em R$ 130,6 bilhões, alta de 8,38% sobre os R$ 120,5 bilhões do ano anterior. Vicky segue como a mulher mais rica do país.
Os números atuais do banco mostram que a máquina continuou girando sem o fundador. O resumo consolidado de dezembro de 2025 registra 8.415 colaboradores no conglomerado, 246 agências e pontos de atendimento, carteira de crédito expandida de R$ 170,8 bilhões, inadimplência acima de 90 dias de 1,3% e cobertura de 454,7%. O patrimônio líquido atribuído aos controladores chegou a R$ 17.044 milhões.
O dado mais revelador sobre a fase pós-José veio à tona em março de 2026, reportado pela Bloomberg Línea a partir do balanço: o banco pagou R$ 11 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio aos controladores em 2025, antecipando-se à nova tributação sobre dividendos. Foi o maior pagamento desde pelo menos 2016, mais de sete vezes o de 2024. Cerca de 60% do valor saiu de lucros de anos anteriores retidos no patrimônio. Uma conta simples dimensiona o gesto: os R$ 11 bilhões equivalem a 2,6 vezes o lucro líquido de R$ 4,286 bilhões de 2025 e a 64,5% do patrimônio líquido de R$ 17.044 milhões. Somando os lucros de 2021 a 2025, que a série histórica do próprio balanço registra em R$ 2,191 bilhões, R$ 2,204 bilhões, R$ 3,250 bilhões, R$ 3,420 bilhões e R$ 4,286 bilhões, o total do quinquênio é de R$ 15,35 bilhões. O pagamento de 2025 sozinho consumiu o equivalente a 72% de todo o lucro de cinco anos.
A expansão também não parou. Em março de 2026, o Grupo J. Safra Sarasin concluiu a compra de aproximadamente 71% do Saxo Bank, banco digital dinamarquês, segundo o comunicado oficial da operação, levando os ativos de clientes combinados a mais de US$ 460 bilhões. A cronologia do grupo já registra a aquisição como marco de 2026, 185 anos depois da casa de câmbio de Alepo.
Por que um livro de 456 páginas preenche uma lacuna que os balanços não preenchem
Biografias empresariais são raras no Brasil, e biografias com 150 entrevistas e nove anos de apuração são mais raras ainda. O livro de Viturino aprofunda os personagens, mostra a influência dos Safra na comunidade judaica internacional e no Brasil, as contendas entre as gerações e as nuances de José, seus erros e acertos. Em vez do banqueiro ensimesmado que muitos imaginavam, emerge um executivo em interlocução frequente e discreta com o primeiro escalão de múltiplos governos, mesmo quando o Banco Safra ainda não era a potência atual.
O trecho de abertura do livro, que o Brazil Journal publicou com exclusividade, define o personagem com uma frase de João Inácio Puga, homem de confiança do banqueiro: "A fatia de pão do seu José nunca cai com a manteiga virada para baixo". À sorte se somaram energia inesgotável para o trabalho e capital para fazer o que bem entendesse. Em 2015, uma lista da Bloomberg apontou José como o banqueiro dono do maior patrimônio entre os bilionários do mundo, à frente de Rothschild, Warburg, Morgan, Goldman, Rockefeller, Setubal e Moreira Salles.
Para o leitor que administra uma empresa, o valor do livro está no contraste. De um lado, uma família que documentou cada passo desde 1841, comprou o controle de volta quando a sociedade virou risco e manteve liquidez de R$ 55 bilhões no balanço de dezembro de 2025. Do outro, um país onde a maioria das empresas familiares não sobrevive à segunda geração e quase nenhuma registra a própria história. Os Safra é a prova de que memória escrita, governança e caixa são a mesma disciplina com três nomes.
O que um dono de negócio faz com isso na segunda-feira
Primeiro, escreva a história da sua empresa. Reserve duas horas nesta semana para registrar fundadores, datas, sócios que saíram e por quê, com valores. Os Safra guardam essa linha do tempo desde 1841 e a publicam no site; a sua versão pode começar num documento de duas páginas assinado e datado.
Segundo, resolva a sociedade antes que ela resolva você. Se existe sócio com participação indefinida ou herdeiro dentro da operação sem papel claro, marque a conversa este mês e transforme o combinado em acordo de sócios com cláusula de compra e venda. José Safra pagou o preço de 2006 para nunca mais dividir o comando; Alberto e os irmãos pagaram o preço de 2023 para fechar o mesmo capítulo.
Terceiro, meça sua liquidez com o mesmo rigor do balanço que você acabou de ler. O Safra fecha 2025 com R$ 55 bilhões em caixa e títulos livres, 17% dos ativos totais. Calcule quantos meses de despesa fixa a sua empresa cobre hoje; abaixo de seis meses, trate a reserva como meta de ano, não como sobra.
Quarto, separe retirada de lucro de esvaziamento. Os R$ 11 bilhões distribuídos em 2025 foram possíveis porque cinco anos de lucros retidos estavam no patrimônio. Na sua escala, a regra é a mesma: pro labore e dividendos saem de lucro acumulado, nunca do caixa de operação.
Fontes consultadas
Brazil Journal: Com 'Os Safra', seu José (finalmente) ganha uma biografia, matéria original com excerto do livro, publicada em 23/08/2026.
Grupo J. Safra: Our History, linha do tempo oficial do conglomerado, de 1841 à aquisição do Saxo Bank em 2026.
Banco Safra: Resumo das Demonstrações Contábeis Consolidadas e Principais Indicadores, dezembro de 2025 (PDF), documento primário com lucro, patrimônio, ativos e série histórica 2021-2025.
Banco Safra: Joseph Safra, legado de determinação e benemerência, página oficial sobre o fundador.
PR Newswire: Cutrale-Safra and Chiquita Announce Definitive Merger Agreement, release oficial da operação de 27/10/2014.
Forbes Brasil: Vicky Sarfati Safra, a mulher mais rica do Brasil, lista de bilionários brasileiros de 2026.
Bloomberg Línea: Banco Safra se antecipa a novo imposto e paga dividendos de R$ 11 bilhões, reportagem de 06/03/2026 baseada no balanço.
Saxo Bank: J. Safra Sarasin Group completes the acquisition of majority stake in Saxo Bank, comunicado oficial de 02/03/2026.
Por Fernanda Costa
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